Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Henrique de Micco
Henrique de Micco nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1992, e descobriu ainda na infância a paixão pela literatura. Atualmente, aguarda o lançamento de seu primeiro romance, previsto para agosto / 2017. O livro, de título “O Último Ceifador: Elo Dimensional”, é o primeiro volume de uma tetralogia fantástica. O autor criou um gosto especial também pela escrita de contos, tendo sido selecionado para compor sua primeira antologia no ano de 2017.





A Escuridão Virá como Garras

-I- O Estranho

        Eu já estava indo embora, mas a luz da lamparina oscilou e acabei decidindo dar uma chance para eles.

        — Eu só lhe peço uma coisa, deixe a luz acesa. Me chame de louco, de covarde ou de qualquer outro pejorativo. Mas pelo amor de Deus, deixe essa maldita luz acesa. Que seja um pequeno abajur, a porta do banheiro entreaberta, mas não apague a luz. Ela é a única coisa que pode mantê-lo seguro. Não acredita? É claro que não. Já estive desse lado, sei bem como é. O medo do escuro é reservado a infância ao lado das crenças infantis em seres mágicos. Veja bem, minha aparência maltrapilha pode não passar confiança, entendo que o cheiro da minha pele afasta as pessoas e anuvie sua razão. — Apontei para meu corpo demonstrando a roupa encardida e pelos olhares que lançaram a mim não era necessário, eles bem sabiam. — Mas quando ele chegar, somente um fiasco de luz será seu desejo. E o medo do escuro não será infantil, assim como as palavras desse andarilho louco que vos fala, não será fruto de insanidade. Feche os olhos e o nariz se puder, esqueça meu estado de mendicância e preste atenção somente em minha voz, talvez assim possa sentir a vibração das minhas cordas vocais, ouvir o medo entre as sílabas e experimentar o calor do bafo da morte em seu cangote. E se quando se levantar desse banco de concreto tiver um pouco de juízo, irá evitar os recantos escuros do mesmo jeito que evita pegar uma doença venérea. Protegendo-se com todas as armas que tem e não entrando em lugares suspeitos.  — A moça na minha frente se endireitou no banco. — Perdão senhorita, fui rude e isso não é de meu feitio — disse eu fazendo lisonja ao retirar um chapéu imaginário da cabeça.

        A mocinha de cabelos loiros, encaracolados em perfeita harmonia, empalideceu, salvo pelas bochechas rosadas por pó e não sangue. Os rapazes, divertindo-se, pediam para continuar. Pobres tolos, com sorrisos adolescentes e sarcásticos, segurando seus celulares e filmando com entusiasmo meu rosto, enquanto lhes dava uma chance de salvar suas vidas.

        — Farei o melhor com a memória que tenho. — Disse eu, bem sabido que meu melhor com frequência não era o bastante.

        O pequeno grupo de quatro pessoas, fez silêncio. A moça loira não falava, mas pensava em se levantar e ir embora, os dois jovens que filmavam a conversa sorriam e se entreolhavam com constância anormal. O quarto integrante, um homem mais velho, empunhava sua garrafa de vinho e entornava o líquido em grandes goles a cada pausa minha. Seus olhos miúdos me observavam com desdém, porém com cautela. O cheiro de sua bebida se misturava ao de combustível e graxa do posto de gasolina e, minha presença era um grato entretenimento, já que estavam ali para consertar o carro, resolver a pequena emergência e seguir viajem.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Henrique de Micco
A Escuridão Virá como Garras

-I- O Estranho

        Eu já estava indo embora, mas a luz da lamparina oscilou e acabei decidindo dar uma chance para eles.

        — Eu só lhe peço uma coisa, deixe a luz acesa. Me chame de louco, de covarde ou de qualquer outro pejorativo. Mas pelo amor de Deus, deixe essa maldita luz acesa. Que seja um pequeno abajur, a porta do banheiro entreaberta, mas não apague a luz. Ela é a única coisa que pode mantê-lo seguro. Não acredita? É claro que não. Já estive desse lado, sei bem como é. O medo do escuro é reservado a infância ao lado das crenças infantis em seres mágicos. Veja bem, minha aparência maltrapilha pode não passar confiança, entendo que o cheiro da minha pele afasta as pessoas e anuvie sua razão. — Apontei para meu corpo demonstrando a roupa encardida e pelos olhares que lançaram a mim não era necessário, eles bem sabiam. — Mas quando ele chegar, somente um fiasco de luz será seu desejo. E o medo do escuro não será infantil, assim como as palavras desse andarilho louco que vos fala, não será fruto de insanidade. Feche os olhos e o nariz se puder, esqueça meu estado de mendicância e preste atenção somente em minha voz, talvez assim possa sentir a vibração das minhas cordas vocais, ouvir o medo entre as sílabas e experimentar o calor do bafo da morte em seu cangote. E se quando se levantar desse banco de concreto tiver um pouco de juízo, irá evitar os recantos escuros do mesmo jeito que evita pegar uma doença venérea. Protegendo-se com todas as armas que tem e não entrando em lugares suspeitos.  — A moça na minha frente se endireitou no banco. — Perdão senhorita, fui rude e isso não é de meu feitio — disse eu fazendo lisonja ao retirar um chapéu imaginário da cabeça.

        A mocinha de cabelos loiros, encaracolados em perfeita harmonia, empalideceu, salvo pelas bochechas rosadas por pó e não sangue. Os rapazes, divertindo-se, pediam para continuar. Pobres tolos, com sorrisos adolescentes e sarcásticos, segurando seus celulares e filmando com entusiasmo meu rosto, enquanto lhes dava uma chance de salvar suas vidas.

        — Farei o melhor com a memória que tenho. — Disse eu, bem sabido que meu melhor com frequência não era o bastante.

        O pequeno grupo de quatro pessoas, fez silêncio. A moça loira não falava, mas pensava em se levantar e ir embora, os dois jovens que filmavam a conversa sorriam e se entreolhavam com constância anormal. O quarto integrante, um homem mais velho, empunhava sua garrafa de vinho e entornava o líquido em grandes goles a cada pausa minha. Seus olhos miúdos me observavam com desdém, porém com cautela. O cheiro de sua bebida se misturava ao de combustível e graxa do posto de gasolina e, minha presença era um grato entretenimento, já que estavam ali para consertar o carro, resolver a pequena emergência e seguir viajem.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10