A Escuridão Virá como Garras - Glau Kemp, Henrique de Micco
Henrique de Micco
Henrique de Micco nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1992, e descobriu ainda na infância a paixão pela literatura. Atualmente, aguarda o lançamento de seu primeiro romance, previsto para agosto / 2017. O livro, de título “O Último Ceifador: Elo Dimensional”, é o primeiro volume de uma tetralogia fantástica. O autor criou um gosto especial também pela escrita de contos, tendo sido selecionado para compor sua primeira antologia no ano de 2017.





A Escuridão Virá como Garras

        — Quando nasci, e isso não faz tanto tempo como parece, eu não chorei. Não pense que minha mãe me pariu na sarjeta. Vim ao mundo em uma sala iluminada de hospital, o doutor bateu em minha bunda para se fazer ecoar meu primeiro choro, em sua ciência isso era necessário. Mas ignorante como todo ser humano é, acreditando ser dono de grande conhecimento, ele não sabia qual era o real motivo de tanto se querer ouvir o primeiro choro de um recém nato. Minha pobre mãe, derramou lágrimas suficientes por nós dois. Meu silêncio a infligia o maior temor de todas as mães, o medo da morte prematura de um filho. O que ninguém sabia, era que de dentro de seu ventre, e isso acontece com todo ser humano, de dentro da bolsa escura que crescemos, somos dotados de todo conhecimento espiritual do mundo. O pequeno bebê, está em corpo físico dentro de sua mãe, contudo sua alma ainda não está entregue. Ela cresce e ganha forma como pernas e braços, mas a alma não aparece nos aparelhos modernos dos cientistas, então ela não existe, não é?

        Nenhum dos presentes respondeu, quando um contista revela de maneira certa a sua história, o público sabe quando é hora de falar, ele não interrompe e não ri se a piada não chegou ao fim. Bom contista que sou, e é isso que sou de certa forma. Faço perguntas, fico em silêncio e ninguém responde, como deve ser.

        — Não irei tentar convencer ninguém, mas essa é a verdade do mundo, no calor e no breu das entranhas da mãe, vemos com os olhos da mente a verdade do escuro. No primeiro choro, despejamos a agonia para fora e nos esquecemos da metade de nosso conhecimento. No decorrer da primeira infância nos esquecemos do restante. É através do choro que verte essa sabedoria. Todavia esse louco aqui, não chorou, nunca derramou uma lágrima, logo não esqueci os horrores e os saberes do lugar da onde vem toda alma.

        — Onde é esse lugar? E por que nos esquecemos? — Perguntou a jovem pálida.

        — Esse lugar se chama limbo.

        — Quanta besteira. — Disse um dos rapazes que soltou uma gargalhada alta e forçada. — Conta mais, velho!!!

        — Essa porra vai bombar na internet! — Completou o outro.

        — O limbo é o escuro e só através dele podemos nos conectar com o lado de lá.

        — Você já tá do lado de lá, velho…

        — Cala boca, Thiago! Deixa ele falar.

        — Já disse que não temos dinheiro. — O homem de mais idade falou, mas nem se dignificou a dirigir o olhar a mim.

        — Não quero dinheiro, não sou de pedir esmolas.

        — Mendigo orgulhoso, essa é a primeira vez que vejo um. — O rapaz ria compulsivamente e se fosse parente meu levaria a algum especialista para uma avaliação, sinceramente acho que não é muito certo da cabeça.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Henrique de Micco
A Escuridão Virá como Garras

        — Quando nasci, e isso não faz tanto tempo como parece, eu não chorei. Não pense que minha mãe me pariu na sarjeta. Vim ao mundo em uma sala iluminada de hospital, o doutor bateu em minha bunda para se fazer ecoar meu primeiro choro, em sua ciência isso era necessário. Mas ignorante como todo ser humano é, acreditando ser dono de grande conhecimento, ele não sabia qual era o real motivo de tanto se querer ouvir o primeiro choro de um recém nato. Minha pobre mãe, derramou lágrimas suficientes por nós dois. Meu silêncio a infligia o maior temor de todas as mães, o medo da morte prematura de um filho. O que ninguém sabia, era que de dentro de seu ventre, e isso acontece com todo ser humano, de dentro da bolsa escura que crescemos, somos dotados de todo conhecimento espiritual do mundo. O pequeno bebê, está em corpo físico dentro de sua mãe, contudo sua alma ainda não está entregue. Ela cresce e ganha forma como pernas e braços, mas a alma não aparece nos aparelhos modernos dos cientistas, então ela não existe, não é?

        Nenhum dos presentes respondeu, quando um contista revela de maneira certa a sua história, o público sabe quando é hora de falar, ele não interrompe e não ri se a piada não chegou ao fim. Bom contista que sou, e é isso que sou de certa forma. Faço perguntas, fico em silêncio e ninguém responde, como deve ser.

        — Não irei tentar convencer ninguém, mas essa é a verdade do mundo, no calor e no breu das entranhas da mãe, vemos com os olhos da mente a verdade do escuro. No primeiro choro, despejamos a agonia para fora e nos esquecemos da metade de nosso conhecimento. No decorrer da primeira infância nos esquecemos do restante. É através do choro que verte essa sabedoria. Todavia esse louco aqui, não chorou, nunca derramou uma lágrima, logo não esqueci os horrores e os saberes do lugar da onde vem toda alma.

        — Onde é esse lugar? E por que nos esquecemos? — Perguntou a jovem pálida.

        — Esse lugar se chama limbo.

        — Quanta besteira. — Disse um dos rapazes que soltou uma gargalhada alta e forçada. — Conta mais, velho!!!

        — Essa porra vai bombar na internet! — Completou o outro.

        — O limbo é o escuro e só através dele podemos nos conectar com o lado de lá.

        — Você já tá do lado de lá, velho…

        — Cala boca, Thiago! Deixa ele falar.

        — Já disse que não temos dinheiro. — O homem de mais idade falou, mas nem se dignificou a dirigir o olhar a mim.

        — Não quero dinheiro, não sou de pedir esmolas.

        — Mendigo orgulhoso, essa é a primeira vez que vejo um. — O rapaz ria compulsivamente e se fosse parente meu levaria a algum especialista para uma avaliação, sinceramente acho que não é muito certo da cabeça.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10