A Escuridão Virá como Garras - Glau Kemp, Henrique de Micco
Henrique de Micco
Henrique de Micco nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1992, e descobriu ainda na infância a paixão pela literatura. Atualmente, aguarda o lançamento de seu primeiro romance, previsto para agosto / 2017. O livro, de título “O Último Ceifador: Elo Dimensional”, é o primeiro volume de uma tetralogia fantástica. O autor criou um gosto especial também pela escrita de contos, tendo sido selecionado para compor sua primeira antologia no ano de 2017.





A Escuridão Virá como Garras

        Júlio tentou dar a partida mais uma vez e sentiu suor repentino escorrer no rosto e penetrar na barba ao ver aquilo parado no meio da estrada se mover.

        — Tenho que sair e olhar o motor — anunciou com a voz privada de qualquer vestígio de saliva. —Vocês fiquem aqui dentro.

        — Quer ajuda? — Thiago perguntou. Ele continuava apertando a bateria do celular entre os dedos.

        Júlio não respondeu. Bateu a porta do carro ao sair e fez sinal para os filhos abaixarem o pino. Sem tirar os olhos da forma estranha e escura imóvel no asfalto, a uns cinco metros de distância, abriu o capô do carro. O medo lhe subia pelas pernas, dando pequenas pontadas na pele exatamente como insetos fariam. Não queria dar as costas para aquilo. A questão era muito simples. De nenhuma forma desejava descobrir o que era, pois era estranho e se moveu tão rápido até aquele lugar que ninguém havia notado. Júlio verificou os cabos da bateria, olhou para a coisa e o coração ficou apertado ao achar que ela estava mais próxima. Já acostumado com a escuridão definiu a silhueta como um amontoado de entulho e uma pequena luz avermelhada parecia brilhar no centro.

        Se aproximou um pouco mais, olhando da coisa para o carro. Dentro da Van os filhos faziam sinal para ele voltar, mas Júlio os ignorou. Tudo estava parado ao redor e começou a sentir ridículo por temer um monte de lixo no meio da estrada. Conforme chegava perto distinguia algumas formas. Um sapato, talvez, e uma roda de motocicleta. Respirou aliviado. Era só lixo. Foi então que a menos de três metros de distância a luz aumentou e o homem pôde ver com clareza o que era aquilo. Urina quente escorreu pelas pernas de Júlio ao mesmo tempo em que o álcool fermentado no estômago chegou a garganta. Ele ouviu a porta do carro a abrir e entre lágrimas viu o filho Leonardo em pé ao lado do carro. Júlio esticou a mão em sinal de pare. Foi o máximo que seu instinto paterno pôde fazer. Conseguiu dar dois passos para trás, os sapatos fazendo barulho ao se encherem de urina.

        Então aconteceu. A coisa se mexeu, não ela como um todo, mas suas partes separadas e uma delas foi bem rápida agarrando a perna de Júlio. Ele gritou vendo vários braços humanos apodrecidos o segurarem. Tudo depois disso se resumiu a dor. Tamanha foi a força que Júlio caiu no chão batendo a cabeça no asfalto. A perna se quebrou liberando um som alto, mas os filhos não ouviram, pois já gritavam nesse momento. Júlio foi tragado pela coisa e seus gritos abafados por todas as partes dela.

        Dentro do carro Isadora batia no vidro suplicando para Leonardo entrar. O garoto, ainda em choque, atendeu ao pedido da irmã.

        — O que é isso? O que é isso! — Thiago repetia incapaz de articular algo mais. E apesar do alto som do desespero dentro da Van eles ouviram uma música que congelou o choro de Isadora.

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Henrique de Micco
A Escuridão Virá como Garras

        Júlio tentou dar a partida mais uma vez e sentiu suor repentino escorrer no rosto e penetrar na barba ao ver aquilo parado no meio da estrada se mover.

        — Tenho que sair e olhar o motor — anunciou com a voz privada de qualquer vestígio de saliva. —Vocês fiquem aqui dentro.

        — Quer ajuda? — Thiago perguntou. Ele continuava apertando a bateria do celular entre os dedos.

        Júlio não respondeu. Bateu a porta do carro ao sair e fez sinal para os filhos abaixarem o pino. Sem tirar os olhos da forma estranha e escura imóvel no asfalto, a uns cinco metros de distância, abriu o capô do carro. O medo lhe subia pelas pernas, dando pequenas pontadas na pele exatamente como insetos fariam. Não queria dar as costas para aquilo. A questão era muito simples. De nenhuma forma desejava descobrir o que era, pois era estranho e se moveu tão rápido até aquele lugar que ninguém havia notado. Júlio verificou os cabos da bateria, olhou para a coisa e o coração ficou apertado ao achar que ela estava mais próxima. Já acostumado com a escuridão definiu a silhueta como um amontoado de entulho e uma pequena luz avermelhada parecia brilhar no centro.

        Se aproximou um pouco mais, olhando da coisa para o carro. Dentro da Van os filhos faziam sinal para ele voltar, mas Júlio os ignorou. Tudo estava parado ao redor e começou a sentir ridículo por temer um monte de lixo no meio da estrada. Conforme chegava perto distinguia algumas formas. Um sapato, talvez, e uma roda de motocicleta. Respirou aliviado. Era só lixo. Foi então que a menos de três metros de distância a luz aumentou e o homem pôde ver com clareza o que era aquilo. Urina quente escorreu pelas pernas de Júlio ao mesmo tempo em que o álcool fermentado no estômago chegou a garganta. Ele ouviu a porta do carro a abrir e entre lágrimas viu o filho Leonardo em pé ao lado do carro. Júlio esticou a mão em sinal de pare. Foi o máximo que seu instinto paterno pôde fazer. Conseguiu dar dois passos para trás, os sapatos fazendo barulho ao se encherem de urina.

        Então aconteceu. A coisa se mexeu, não ela como um todo, mas suas partes separadas e uma delas foi bem rápida agarrando a perna de Júlio. Ele gritou vendo vários braços humanos apodrecidos o segurarem. Tudo depois disso se resumiu a dor. Tamanha foi a força que Júlio caiu no chão batendo a cabeça no asfalto. A perna se quebrou liberando um som alto, mas os filhos não ouviram, pois já gritavam nesse momento. Júlio foi tragado pela coisa e seus gritos abafados por todas as partes dela.

        Dentro do carro Isadora batia no vidro suplicando para Leonardo entrar. O garoto, ainda em choque, atendeu ao pedido da irmã.

        — O que é isso? O que é isso! — Thiago repetia incapaz de articular algo mais. E apesar do alto som do desespero dentro da Van eles ouviram uma música que congelou o choro de Isadora.

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