A Escuridão Virá como Garras - Glau Kemp, Henrique de Micco
Henrique de Micco
Henrique de Micco nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1992, e descobriu ainda na infância a paixão pela literatura. Atualmente, aguarda o lançamento de seu primeiro romance, previsto para agosto / 2017. O livro, de título “O Último Ceifador: Elo Dimensional”, é o primeiro volume de uma tetralogia fantástica. O autor criou um gosto especial também pela escrita de contos, tendo sido selecionado para compor sua primeira antologia no ano de 2017.





A Escuridão Virá como Garras

        A mão proveniente do braço gigante tateava toda a van, indo e vindo com seus dedos esqueléticos como se procurasse por algo. Os vultos, agora parados, apenas aguardavam; pareciam fitar o céu numa esperança quase morta. Os irmãos choravam, de olhos fechados. Então, o impasse foi quebrado por uma canção assobiada; a mesma canção do toque do celular de Thiago. Um homem empunhando uma lamparina passou pelo lado do acostamento, afastando todas as criaturas à espreita.

        Ao perceberem a presença do estranho, os três passaram a bater os punhos contra as janelas, em gritos abafados que mal podiam ser ouvidos. O homem parou, abriu um guarda-chuva que trazia embaixo do braço, e sorriu para eles. Era o contista maltrapilho do posto de gasolina.

        BUM!

        Mais um corpo caído sobre a van.

        BUM! BUM! BUM!

        Vários corpos começaram a despencar do céu. Uma verdadeira chuva de carcaças humanas que eram invadidas por vultos pouco depois de chegarem ao solo; aquilo durou pouco mais de um minuto, até que um silêncio pesado caiu sobre tudo. Além de presos, perdidos no escuro e horrorizados, os irmãos estavam agora rodeados de corpos convulsivantes; corpos que ameaçavam, de alguma forma, reagir à morte.

        O braço gigante voltou para interior do amontoado estranho na estrada. O maltrapilho, por sua vez, arrancou uma das portas da van com um único puxão.

        — Venham. Vamos sair logo daqui.

 

-IV- A Luz 

        Caminhei à frente deles pela estrada, até encontrarmos o hotel com seu letreiro parcialmente apagado. Nenhuma luz podia ser vista ali, e em nenhum outro lugar. Os três jovens agiam como animais guiados apenas pelo instinto de sobrevivência. Não falavam, não reagiam, não demonstravam qualquer sentimento. Uma vez deixado para trás aquele mar de corpos horrendo, eles se desprenderam de uma porção pequena do desconforto que os perseguia, mas ainda assim, estavam perturbados demais para que eu tentasse explicar qualquer coisa.

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Henrique de Micco
A Escuridão Virá como Garras

        A mão proveniente do braço gigante tateava toda a van, indo e vindo com seus dedos esqueléticos como se procurasse por algo. Os vultos, agora parados, apenas aguardavam; pareciam fitar o céu numa esperança quase morta. Os irmãos choravam, de olhos fechados. Então, o impasse foi quebrado por uma canção assobiada; a mesma canção do toque do celular de Thiago. Um homem empunhando uma lamparina passou pelo lado do acostamento, afastando todas as criaturas à espreita.

        Ao perceberem a presença do estranho, os três passaram a bater os punhos contra as janelas, em gritos abafados que mal podiam ser ouvidos. O homem parou, abriu um guarda-chuva que trazia embaixo do braço, e sorriu para eles. Era o contista maltrapilho do posto de gasolina.

        BUM!

        Mais um corpo caído sobre a van.

        BUM! BUM! BUM!

        Vários corpos começaram a despencar do céu. Uma verdadeira chuva de carcaças humanas que eram invadidas por vultos pouco depois de chegarem ao solo; aquilo durou pouco mais de um minuto, até que um silêncio pesado caiu sobre tudo. Além de presos, perdidos no escuro e horrorizados, os irmãos estavam agora rodeados de corpos convulsivantes; corpos que ameaçavam, de alguma forma, reagir à morte.

        O braço gigante voltou para interior do amontoado estranho na estrada. O maltrapilho, por sua vez, arrancou uma das portas da van com um único puxão.

        — Venham. Vamos sair logo daqui.

 

-IV- A Luz 

        Caminhei à frente deles pela estrada, até encontrarmos o hotel com seu letreiro parcialmente apagado. Nenhuma luz podia ser vista ali, e em nenhum outro lugar. Os três jovens agiam como animais guiados apenas pelo instinto de sobrevivência. Não falavam, não reagiam, não demonstravam qualquer sentimento. Uma vez deixado para trás aquele mar de corpos horrendo, eles se desprenderam de uma porção pequena do desconforto que os perseguia, mas ainda assim, estavam perturbados demais para que eu tentasse explicar qualquer coisa.

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