Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Henrique de Micco
Henrique de Micco nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1992, e descobriu ainda na infância a paixão pela literatura. Atualmente, aguarda o lançamento de seu primeiro romance, previsto para agosto / 2017. O livro, de título “O Último Ceifador: Elo Dimensional”, é o primeiro volume de uma tetralogia fantástica. O autor criou um gosto especial também pela escrita de contos, tendo sido selecionado para compor sua primeira antologia no ano de 2017.





Até Quando?

Numa noite de abril, Lia enfrentava o mesmo problema de sempre: estava empacada em um de seus tantos projetos. De um lado, boas ideias empunhando lanças em riste; do outro, a parede de escudos erguida pela procrastinação. Uma batalha diária.
Ajeitou os óculos de fundo de garrafa que lhe escorregavam pelo nariz, encarando a tela vibrante do monitor.
“Vamos lá, o segredo é desenvolver as primeiras linhas e, como sempre, o resto deve fluir…”
Pausou a música que tocava no Media Player; a banda Asking Alexandria, a mesma que estampava sua regata surrada, não era a mais indicada para a ocasião. O vento que entrava pela janela era quente, trazendo alívio e incômodo. Os cabelos longos lhe cutucavam o rosto. Prendeu-os num rabo de cavalo torto.
— O CARRO DOS OVOS CHEGOOOOU! — O som alto vinha do carro que passava lá fora, devagar.
“Aaah, vá! Como se eu já não tivesse ouvido.”
Tudo era distração. A música, o carro dos ovos, as crianças quase sendo atropeladas na rua. Levantou-se para pensar melhor.
Caminhou de um lado para o outro no quarto, buscando inspiração para continuar o seu romance. O fim do prazo de entrega se aproximava; deixou que os dias, semanas e meses passassem sem apresentar progresso algum em seu trabalho. Não por falta de tempo, mas por ter encontrado atividades que lhe tomavam menos esforço. Atividades mais prazerosas e menos gratificantes.
Estava decidida a terminar naquele mesmo dia o capítulo abandonado. Era um sábado, não tinha aula na manhã seguinte e nada mais para preocupá-la além do domingo tedioso que se aproximava. Já quase podia ouvir a música de encerramento do “Fantástico” anunciando o fim da trégua na guerra rotineira.
“Eu vou sentar a bunda naquela cadeira e não levanto até ter terminado essa merda… o diabo pode vir me cobrar pessoalmente, se eu não conseguir.”.
Um minuto se passou, depois dez, trinta, e Lia continuava em pé fitando a tela do monitor. As linhas já escritas, há tanto esquecidas, chamavam por ela. Imploravam por vida. Aproximou-se da escrivaninha, onde a xícara do café já frio repousava e ligou seu abajur-caveira antes de apagar a luz do quarto; voltou à escrivaninha e se sentou na cadeira almofadada diante dela.
Acendeu um cigarro.

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Henrique de Micco
Até Quando?

Numa noite de abril, Lia enfrentava o mesmo problema de sempre: estava empacada em um de seus tantos projetos. De um lado, boas ideias empunhando lanças em riste; do outro, a parede de escudos erguida pela procrastinação. Uma batalha diária.
Ajeitou os óculos de fundo de garrafa que lhe escorregavam pelo nariz, encarando a tela vibrante do monitor.
“Vamos lá, o segredo é desenvolver as primeiras linhas e, como sempre, o resto deve fluir…”
Pausou a música que tocava no Media Player; a banda Asking Alexandria, a mesma que estampava sua regata surrada, não era a mais indicada para a ocasião. O vento que entrava pela janela era quente, trazendo alívio e incômodo. Os cabelos longos lhe cutucavam o rosto. Prendeu-os num rabo de cavalo torto.
— O CARRO DOS OVOS CHEGOOOOU! — O som alto vinha do carro que passava lá fora, devagar.
“Aaah, vá! Como se eu já não tivesse ouvido.”
Tudo era distração. A música, o carro dos ovos, as crianças quase sendo atropeladas na rua. Levantou-se para pensar melhor.
Caminhou de um lado para o outro no quarto, buscando inspiração para continuar o seu romance. O fim do prazo de entrega se aproximava; deixou que os dias, semanas e meses passassem sem apresentar progresso algum em seu trabalho. Não por falta de tempo, mas por ter encontrado atividades que lhe tomavam menos esforço. Atividades mais prazerosas e menos gratificantes.
Estava decidida a terminar naquele mesmo dia o capítulo abandonado. Era um sábado, não tinha aula na manhã seguinte e nada mais para preocupá-la além do domingo tedioso que se aproximava. Já quase podia ouvir a música de encerramento do “Fantástico” anunciando o fim da trégua na guerra rotineira.
“Eu vou sentar a bunda naquela cadeira e não levanto até ter terminado essa merda… o diabo pode vir me cobrar pessoalmente, se eu não conseguir.”.
Um minuto se passou, depois dez, trinta, e Lia continuava em pé fitando a tela do monitor. As linhas já escritas, há tanto esquecidas, chamavam por ela. Imploravam por vida. Aproximou-se da escrivaninha, onde a xícara do café já frio repousava e ligou seu abajur-caveira antes de apagar a luz do quarto; voltou à escrivaninha e se sentou na cadeira almofadada diante dela.
Acendeu um cigarro.

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