Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Henrique de Micco
Henrique de Micco nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1992, e descobriu ainda na infância a paixão pela literatura. Atualmente, aguarda o lançamento de seu primeiro romance, previsto para agosto / 2017. O livro, de título “O Último Ceifador: Elo Dimensional”, é o primeiro volume de uma tetralogia fantástica. O autor criou um gosto especial também pela escrita de contos, tendo sido selecionado para compor sua primeira antologia no ano de 2017.





Epitáfio

A chuva cai.

Minhas pernas falham.

Sinto o frio me envolver desprovido de boas intenções, passando por toda a minha pele que arde quando a brisa vem me encontrar. Eu tremo da cabeça aos pés, bato os dentes, e minhas lágrimas se misturam às gotas que caem do céu e inundam meu rosto sofrido.

Caio com um dos joelhos no chão, fitando o túmulo com um desespero contido; logo, meu outro joelho se junta ao primeiro, e meu corpo se prostra sobre uma terra que guarda agora, o corpo de mais um dos que já se foram.

“Nunca morrerá, quem para sempre for lembrado”, era o que dizia a inscrição sobre a lápide.

Sempre achei uma bela frase, e não deixa de ser, mas o fato é que sim, nós morremos.

Levanto-me, apanhando a pá cravada na terra molhada, e começo a cavar. Cavo, pois sinto falta de você, apesar de nunca ter imaginado que desejaria tanto a sua volta. Cavo num impulso selvagem, na esperança de sermos eu e você, novamente. Eu cavo. E alcanço o caixão entreaberto, atirando-me sobre ele e retirando a tampa arrebentada.

Um buraco se abre na nuvem carregada sobre mim, por onde os raios de sol passam e me atingem com força. Já não sinto mais a chuva cair.

− Filho, por que retornas ao teu próprio túmulo, uma vez que me implorou por uma nova vida, e uma nova vida eu lhe concedi de bom grado?

Olho para o alto, sentindo meus olhos arderem por conta da intensa luz. A voz soa como trovões, num estrondo que faz todo o gramado ao meu redor estremecer.

− Meu pai… eu não aguento mais! Tanto sofrimento, tanta dor…

− Pois disse-me que teu desejo era andar entre os homens novamente.

− Eu não sabia que eles eram tão… cruéis. Como pude viver tanto tempo em meio à toda essa podridão? A vida fede, meu pai.

− Não estás vivo.

− Mas estou próximo dos vivos, próximo demais. Há muita vida aqui, e se torna cada vez mais insuportável. Eu desejo a solidão novamente, e é por isso que eu cavo. Eu lhe imploro…

Um lampejo vindo do céu me acerta num baque ensurdecedor, e abro minhas asas involuntariamente. Elas ardem. Queimam. Eu grito.

Nunca senti dor tão angustiante na vida, e nem na morte. Talvez aquilo fosse uma pequena fração do que seria o inferno.

Páginas: 1 2

Henrique de Micco
Epitáfio

A chuva cai.

Minhas pernas falham.

Sinto o frio me envolver desprovido de boas intenções, passando por toda a minha pele que arde quando a brisa vem me encontrar. Eu tremo da cabeça aos pés, bato os dentes, e minhas lágrimas se misturam às gotas que caem do céu e inundam meu rosto sofrido.

Caio com um dos joelhos no chão, fitando o túmulo com um desespero contido; logo, meu outro joelho se junta ao primeiro, e meu corpo se prostra sobre uma terra que guarda agora, o corpo de mais um dos que já se foram.

“Nunca morrerá, quem para sempre for lembrado”, era o que dizia a inscrição sobre a lápide.

Sempre achei uma bela frase, e não deixa de ser, mas o fato é que sim, nós morremos.

Levanto-me, apanhando a pá cravada na terra molhada, e começo a cavar. Cavo, pois sinto falta de você, apesar de nunca ter imaginado que desejaria tanto a sua volta. Cavo num impulso selvagem, na esperança de sermos eu e você, novamente. Eu cavo. E alcanço o caixão entreaberto, atirando-me sobre ele e retirando a tampa arrebentada.

Um buraco se abre na nuvem carregada sobre mim, por onde os raios de sol passam e me atingem com força. Já não sinto mais a chuva cair.

− Filho, por que retornas ao teu próprio túmulo, uma vez que me implorou por uma nova vida, e uma nova vida eu lhe concedi de bom grado?

Olho para o alto, sentindo meus olhos arderem por conta da intensa luz. A voz soa como trovões, num estrondo que faz todo o gramado ao meu redor estremecer.

− Meu pai… eu não aguento mais! Tanto sofrimento, tanta dor…

− Pois disse-me que teu desejo era andar entre os homens novamente.

− Eu não sabia que eles eram tão… cruéis. Como pude viver tanto tempo em meio à toda essa podridão? A vida fede, meu pai.

− Não estás vivo.

− Mas estou próximo dos vivos, próximo demais. Há muita vida aqui, e se torna cada vez mais insuportável. Eu desejo a solidão novamente, e é por isso que eu cavo. Eu lhe imploro…

Um lampejo vindo do céu me acerta num baque ensurdecedor, e abro minhas asas involuntariamente. Elas ardem. Queimam. Eu grito.

Nunca senti dor tão angustiante na vida, e nem na morte. Talvez aquilo fosse uma pequena fração do que seria o inferno.

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