Quase noite - Henrique de Micco
Henrique de Micco
Henrique de Micco nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1992, e descobriu ainda na infância a paixão pela literatura. Atualmente, aguarda o lançamento de seu primeiro romance, previsto para agosto / 2017. O livro, de título “O Último Ceifador: Elo Dimensional”, é o primeiro volume de uma tetralogia fantástica. O autor criou um gosto especial também pela escrita de contos, tendo sido selecionado para compor sua primeira antologia no ano de 2017.





Quase noite

É quase noite. 

Olho para o céu lá fora e vejo todo o cinza interior refletido. Um oceano acima de nós, sustentado por memórias flutuantes de vidas passadas, presentes e futuras.

As nuvens passam apressadas, rumam para fora do campo de visão; a linha do horizonte divide a terra do paraíso. Terra de ninguém. Paraíso dos merecedores.

Existe paraíso? Que diferença faz?

O mundo era um e se transformou em desgraça.

Se existe, não é por muito tempo; se for, não será eterno.
Nada é. Tudo perece.

A chuva que vem do alto não simboliza a vida. É o pranto das divindades sucateadas. Anjos e demônios dançam valsa à luz de velas, o imaculado abraça o maculado em cada último suspiro, sussurros aliviados congelam no ar e se estilhaçam em pedaços de sonhos vendidos.

Ouço o rolar de dados e sei que a sorte não é uma opção.

É quase noite. A fogueira queimará uma vez mais, rodeada por milenares com suas taças cheias e pratos fartos. Suas palavras cairão como raios em cada consciência, transformando em cinzas os resquícios de sanidade. Os corações vomitarão esperança.

Tudo perece. A noite também.

O dia voltará para nós e, então, poderemos apagar as fogueiras e dançar à luz do sol com nossas mentes cheias e corações fartos, uma última vez.

Henrique de Micco
Quase noite

É quase noite. 

Olho para o céu lá fora e vejo todo o cinza interior refletido. Um oceano acima de nós, sustentado por memórias flutuantes de vidas passadas, presentes e futuras.

As nuvens passam apressadas, rumam para fora do campo de visão; a linha do horizonte divide a terra do paraíso. Terra de ninguém. Paraíso dos merecedores.

Existe paraíso? Que diferença faz?

O mundo era um e se transformou em desgraça.

Se existe, não é por muito tempo; se for, não será eterno.
Nada é. Tudo perece.

A chuva que vem do alto não simboliza a vida. É o pranto das divindades sucateadas. Anjos e demônios dançam valsa à luz de velas, o imaculado abraça o maculado em cada último suspiro, sussurros aliviados congelam no ar e se estilhaçam em pedaços de sonhos vendidos.

Ouço o rolar de dados e sei que a sorte não é uma opção.

É quase noite. A fogueira queimará uma vez mais, rodeada por milenares com suas taças cheias e pratos fartos. Suas palavras cairão como raios em cada consciência, transformando em cinzas os resquícios de sanidade. Os corações vomitarão esperança.

Tudo perece. A noite também.

O dia voltará para nós e, então, poderemos apagar as fogueiras e dançar à luz do sol com nossas mentes cheias e corações fartos, uma última vez.