Reflexo de ninguém - Henrique de Micco
Henrique de Micco
Henrique de Micco nasceu na cidade de São Paulo, no ano de 1992, e descobriu ainda na infância a paixão pela literatura. Atualmente, aguarda o lançamento de seu primeiro romance, previsto para agosto / 2017. O livro, de título “O Último Ceifador: Elo Dimensional”, é o primeiro volume de uma tetralogia fantástica. O autor criou um gosto especial também pela escrita de contos, tendo sido selecionado para compor sua primeira antologia no ano de 2017.





Reflexo de ninguém

Amanda chegou do trabalho mais cedo naquela noite. Entrou no apartamento e jogou o molho de chaves sobre a mesa de centro. O chiado do tampo de vidro causou-lhe um incômodo atípico, a sensação de que gritos agudos lhe subiam pelo pescoço como serpentes em busca de abrigo. A palpitação acusou-lhe um susto infundado.

Suspirou e se jogou no sofá, entregando-se à calmaria do veludo azulado. Os pelos do corpo se eriçaram diante do contraste com a tempestade que foi seu dia até aquele momento. Ficou por uns dez minutos deitada, os quadros abstratos e o barulho do ventilador de teto arrastando-a para um transe anêmico. A realidade ali, a um palmo de distância ou menos.

O ronco no estômago a fez levantar e caminhar pelo corredor estreito em direção à cozinha. Do seu lado direito, os dedos alisavam o grafiato amarelado; do outro, o grande espelho não refletia nada além da parede oposta.

Ela parou. Esfregou os olhos numa esperança ingênua.

Nada.

Agitou os braços, pulou, andou de um lado para o outro. Esfregou os olhos numa esperança persistente.

“Que… que merda é essa? Valei-me, meu Deus…”

Tropeçou nos calcanhares até alcançar a cozinha, onde esqueceu o que tinha ido fazer. Voltou pelo corredor, deu uma última olhadela.

Esfregou os olhos numa esperança mórbida.

Ali, parada no corredor, a jovem fumou seis cigarros antes de subir as escadas e ir se deitar. Deixou o banho para depois, não queria encarar o espelho do banheiro e ter a certeza de que enlouquecera. Revirou-se na cama por horas e caiu no sono já perto da hora de acordar.

O despertador do celular tocou uma música do Foster The People.

Amanda saltou da cama resmungando, calçou as pantufas e arrastou os pés sobre o carpete até alcançar o banheiro. Antes que criasse coragem de encarar o espelho, a porcelana negra da pia denunciara o que ela já previa: nada de reflexo. Ergueu os olhos devagar… era como estar prestes a atravessar a linha de chegada de uma trilha que ela não queria terminar. Mas era preciso.

Ergueu os olhos e enxergou uma passagem escura onde o espelho deveria estar. Uma voz suave e conhecida chamava por ela, baixinho, em algum lugar do lado de lá. Depois, braços… dois braços se aproximavam. Alguém, alguém vinha ao seu encontro…

Logo, Amanda caía na imensidão escura, sem ter certeza se foi puxada ou se saltou em sua direção. Caiu por tanto tempo que já nem se lembrava mais da última vez em que pensou nisso. Caiu até um ponto onde a queda se desacelerou gradualmente, e ela pousou com a leveza de uma pluma num solo frio e arenoso. Ela nada podia ver naquele lugar; tentou gritar, mas o som se agarrou à garganta, com medo de perder-se no vazio.

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Henrique de Micco
Reflexo de ninguém

Amanda chegou do trabalho mais cedo naquela noite. Entrou no apartamento e jogou o molho de chaves sobre a mesa de centro. O chiado do tampo de vidro causou-lhe um incômodo atípico, a sensação de que gritos agudos lhe subiam pelo pescoço como serpentes em busca de abrigo. A palpitação acusou-lhe um susto infundado.

Suspirou e se jogou no sofá, entregando-se à calmaria do veludo azulado. Os pelos do corpo se eriçaram diante do contraste com a tempestade que foi seu dia até aquele momento. Ficou por uns dez minutos deitada, os quadros abstratos e o barulho do ventilador de teto arrastando-a para um transe anêmico. A realidade ali, a um palmo de distância ou menos.

O ronco no estômago a fez levantar e caminhar pelo corredor estreito em direção à cozinha. Do seu lado direito, os dedos alisavam o grafiato amarelado; do outro, o grande espelho não refletia nada além da parede oposta.

Ela parou. Esfregou os olhos numa esperança ingênua.

Nada.

Agitou os braços, pulou, andou de um lado para o outro. Esfregou os olhos numa esperança persistente.

“Que… que merda é essa? Valei-me, meu Deus…”

Tropeçou nos calcanhares até alcançar a cozinha, onde esqueceu o que tinha ido fazer. Voltou pelo corredor, deu uma última olhadela.

Esfregou os olhos numa esperança mórbida.

Ali, parada no corredor, a jovem fumou seis cigarros antes de subir as escadas e ir se deitar. Deixou o banho para depois, não queria encarar o espelho do banheiro e ter a certeza de que enlouquecera. Revirou-se na cama por horas e caiu no sono já perto da hora de acordar.

O despertador do celular tocou uma música do Foster The People.

Amanda saltou da cama resmungando, calçou as pantufas e arrastou os pés sobre o carpete até alcançar o banheiro. Antes que criasse coragem de encarar o espelho, a porcelana negra da pia denunciara o que ela já previa: nada de reflexo. Ergueu os olhos devagar… era como estar prestes a atravessar a linha de chegada de uma trilha que ela não queria terminar. Mas era preciso.

Ergueu os olhos e enxergou uma passagem escura onde o espelho deveria estar. Uma voz suave e conhecida chamava por ela, baixinho, em algum lugar do lado de lá. Depois, braços… dois braços se aproximavam. Alguém, alguém vinha ao seu encontro…

Logo, Amanda caía na imensidão escura, sem ter certeza se foi puxada ou se saltou em sua direção. Caiu por tanto tempo que já nem se lembrava mais da última vez em que pensou nisso. Caiu até um ponto onde a queda se desacelerou gradualmente, e ela pousou com a leveza de uma pluma num solo frio e arenoso. Ela nada podia ver naquele lugar; tentou gritar, mas o som se agarrou à garganta, com medo de perder-se no vazio.

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