A triste sorte de Ezequiel Moraes - Ivandro Godoy
Ivandro Godoy
Nascido em São Paulo/SP num belo dia nublado do ano de 1974.
Escritor, colunista, fotógrafo, subversivo, libertino e um porra-louca sem noção do perigo.
Escrevo desde os tempos dos fanzines de papel e cola branca e minha única religião é o gênero horror.
Iniciei minha saga em 1997 com o fanzine Vrolok e desde então não parei mais de explorar o lado negro da literatura. No meio literário já participei das antologias Asgard: A Sagas dos Nove Reinos, Le Monde Bizarre: O Circo dos Horrores e Green Death: Ecoterrorismo Licantrópico.





A triste sorte de Ezequiel Moraes

– …das fazendas. Não se tem mais segurança nem na roça, compadre. No curral do Marcelino foram duas vacas premiadas. Se sangue nenhum!”. – escarra e cospe.

– Tão “falano” que é o tal do chupacabra, Zé! – faz uma careta e o sinal da cruz.

Ezequiel passa pelos dois caipiras e não consegue segurar uma expressão de asco. “Ignorantes! Só eu sei a verdade! – murmura baixinho, arremessando sua segunda guimba de cigarro pelo chão.

E um mês se passou exatamente assim. Clique. Reflexo na cara, sono mal dormido, despertador solar, cigarro amassado e mais resmungos pelas ruas até que certo dia encontra um novo personagem entre suas caminhadas. Era um mendigo velho e maltrapilho, rodeado por pessoas e formigas que entravam e saíam pela sua boca e nariz. Pelo que parecia havia morrido em conseqüência do frio da madrugada.

Ezequiel nunca foi de rodear ”presuntos” ou acidentes, mas alguma coisa naquele homem (utilizando o termo “homem” somente para figuração, pois eu rosto contorcido e surrado pelo frio deixava-o longe de qualquer representação da espécie) chamou a sua atenção. No bolso do seu paletó encardido estava um pequeno disquete com a caixa protetora ainda lacrada.

-Por que não? – pensou, e como o vento agarrou o objeto sem que os populares notassem sua ação.

Chegando em casa a sua expectativa era enorme. Entrou como um raio no escritório com o disquete numa mão e meia garrafa de martini na outra. *CLICK*. A pequena tela de LCD lambia novamente o seu rosto que, ao invés de sisudo e preocupado, estava radiante e abobalhado. “Eu tenho certeza que agora finalmente te peguei!”

Um minuto. Dois. Cinco minutos e nada ocorria. A face do velho ia murchando novamente como uma flor no inverno até que de repente…o contato…
“pág. n° 104 do diário do Dr. Carlos Albuquerque – 15/06/1986. Muito me foi passado nestes anos de pesquisa sobre o livro do árabe louco Abdul Al-Hazed (a face de Ezequiel brilhou como uma supernova), mas temo em pagar pelos ensinamentos. A quem estiver lendo este documento peço que delete toda a informação arquivada e livre sua alma imediat… *CLICK*…
*CLICK*… pág n° 106 do diário do Dr. Carlos Albuquerque – 17/06/1986.

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Ivandro Godoy
A triste sorte de Ezequiel Moraes

– …das fazendas. Não se tem mais segurança nem na roça, compadre. No curral do Marcelino foram duas vacas premiadas. Se sangue nenhum!”. – escarra e cospe.

– Tão “falano” que é o tal do chupacabra, Zé! – faz uma careta e o sinal da cruz.

Ezequiel passa pelos dois caipiras e não consegue segurar uma expressão de asco. “Ignorantes! Só eu sei a verdade! – murmura baixinho, arremessando sua segunda guimba de cigarro pelo chão.

E um mês se passou exatamente assim. Clique. Reflexo na cara, sono mal dormido, despertador solar, cigarro amassado e mais resmungos pelas ruas até que certo dia encontra um novo personagem entre suas caminhadas. Era um mendigo velho e maltrapilho, rodeado por pessoas e formigas que entravam e saíam pela sua boca e nariz. Pelo que parecia havia morrido em conseqüência do frio da madrugada.

Ezequiel nunca foi de rodear ”presuntos” ou acidentes, mas alguma coisa naquele homem (utilizando o termo “homem” somente para figuração, pois eu rosto contorcido e surrado pelo frio deixava-o longe de qualquer representação da espécie) chamou a sua atenção. No bolso do seu paletó encardido estava um pequeno disquete com a caixa protetora ainda lacrada.

-Por que não? – pensou, e como o vento agarrou o objeto sem que os populares notassem sua ação.

Chegando em casa a sua expectativa era enorme. Entrou como um raio no escritório com o disquete numa mão e meia garrafa de martini na outra. *CLICK*. A pequena tela de LCD lambia novamente o seu rosto que, ao invés de sisudo e preocupado, estava radiante e abobalhado. “Eu tenho certeza que agora finalmente te peguei!”

Um minuto. Dois. Cinco minutos e nada ocorria. A face do velho ia murchando novamente como uma flor no inverno até que de repente…o contato…
“pág. n° 104 do diário do Dr. Carlos Albuquerque – 15/06/1986. Muito me foi passado nestes anos de pesquisa sobre o livro do árabe louco Abdul Al-Hazed (a face de Ezequiel brilhou como uma supernova), mas temo em pagar pelos ensinamentos. A quem estiver lendo este documento peço que delete toda a informação arquivada e livre sua alma imediat… *CLICK*…
*CLICK*… pág n° 106 do diário do Dr. Carlos Albuquerque – 17/06/1986.

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