Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Ivandro Godoy
Nascido em São Paulo/SP num belo dia nublado do ano de 1974.
Escritor, colunista, fotógrafo, subversivo, libertino e um porra-louca sem noção do perigo.
Escrevo desde os tempos dos fanzines de papel e cola branca e minha única religião é o gênero horror.
Iniciei minha saga em 1997 com o fanzine Vrolok e desde então não parei mais de explorar o lado negro da literatura. No meio literário já participei das antologias Asgard: A Sagas dos Nove Reinos, Le Monde Bizarre: O Circo dos Horrores e Green Death: Ecoterrorismo Licantrópico.





O ônibus

DIA 01 DE JANEIRO DE 2400 – HORÁRIO LOCAL * 6:30 min.

O caminho que eu levava apenas alguns minutos se alargou por quase uma hora. Comemoramos ontem o quarto centenário pós-milênio e nada mudou. Nada.

As doses de saturno-duplo que tomei no réveillon ainda dançavam na minha cabeça, deixando um gosto amargo na língua e no estômago. Espero chegar logo em casa e inventar uma boa desculpa por atrasar um encontro e utilizar o bloco digital do meu comunicador para escrever este relato insosso. Marianna sempre reclama quando esgoto a bateria do comunicador escrevendo no ônibus pra passar o tempo…

O ônibus da linha Nova Paulista desliza gravitacionalmente pelas estradas de metal e a única coisa em que penso é no seio quente da minha garota e no gosto refrescante da minha cerveja sintética. No veículo, lotado de faces amargas com nuvens de ressaca, penso em quão longo se tornou o caminho que tantas vezes segui em rotina, dia após dia, em exaustiva monotonia. Nunca havia percebido as cores do neon dos prédios e suas fachadas flutuantes. Os vendedores ambulantes em seus quiosques barulhentos, anunciando as ofertas e pechinchas do dia. E os pedestres…

Os pedestres eram uma minoria ínfima, pois com a subida do R-al no mercado mundial foi possível para que mais de 70% da população obtivesse seu tão sonhado automóvel. Era estranho como eu estava a divagar sobre tudo aquilo naquele instante… Era como se estivesse vendo tudo aquilo como se fosse a última vez.

HORÁRIO LOCAL * 6:45 min.- O Nova Paulista não completara nem metade do seu percurso e para que eu afastasse o mal humor e o tédio continuei a prestar atenção às coisas lá fora:

– “Será que era assim a algumas centenas de anos atrás? Rostos amarelos, riso sério e individualismo em pessoas que se encontram por meses a fio?”

Bom, quem sou eu pra responder. Divagando sobre esta realidade social futura -não por ser um intelectual ou homem de letras e sim para espantar o amargor da azia – noto um grande outdoor com seu neon vermelho e branco piscando majestosamente enquanto singrava a avenida propulsionado por turbinas que fariam um Miata 2300 cantar pneus (hahahaha… essa foi boa!). Nele piscava um anúncio de refrigerante que deveria fazer aniversário com os dinossauros.

DINOSSAUROS???  Nossa, hoje estou nostálgico.

HORÁRIO LOCAL * 8:10 min.- Em frente a Av. Prestes Maia, o ônibus pára e desce sua escada metálica sobre a plataforma para o embarque e desembarque dos passageiros. Aquela grande língua de ferro descendo vagarosamente sobre o ponto chega a ser até um pouco obscena. Noto então uma figura que há alguns anos me pego a pesquisar. Seu nome é Isaac, um antiquário do centro-cosmo de São Paulo. É um homem velho (devem também aniversariar com os dinossauros!) com uma cabeça careca levemente enfeitada com tufos de cabelos brancos e uns óculos “fundo de garrafa” com uma curiosa armação de arame. Nada no velho Isaac demonstrava sequer um mínimo de evolução. O estranho velhinho arqueado então se senta, pigarreia alto e começa a ler um livro velho e malcheiroso, cheio de anotações.

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Ivandro Godoy
O ônibus

DIA 01 DE JANEIRO DE 2400 – HORÁRIO LOCAL * 6:30 min.

O caminho que eu levava apenas alguns minutos se alargou por quase uma hora. Comemoramos ontem o quarto centenário pós-milênio e nada mudou. Nada.

As doses de saturno-duplo que tomei no réveillon ainda dançavam na minha cabeça, deixando um gosto amargo na língua e no estômago. Espero chegar logo em casa e inventar uma boa desculpa por atrasar um encontro e utilizar o bloco digital do meu comunicador para escrever este relato insosso. Marianna sempre reclama quando esgoto a bateria do comunicador escrevendo no ônibus pra passar o tempo…

O ônibus da linha Nova Paulista desliza gravitacionalmente pelas estradas de metal e a única coisa em que penso é no seio quente da minha garota e no gosto refrescante da minha cerveja sintética. No veículo, lotado de faces amargas com nuvens de ressaca, penso em quão longo se tornou o caminho que tantas vezes segui em rotina, dia após dia, em exaustiva monotonia. Nunca havia percebido as cores do neon dos prédios e suas fachadas flutuantes. Os vendedores ambulantes em seus quiosques barulhentos, anunciando as ofertas e pechinchas do dia. E os pedestres…

Os pedestres eram uma minoria ínfima, pois com a subida do R-al no mercado mundial foi possível para que mais de 70% da população obtivesse seu tão sonhado automóvel. Era estranho como eu estava a divagar sobre tudo aquilo naquele instante… Era como se estivesse vendo tudo aquilo como se fosse a última vez.

HORÁRIO LOCAL * 6:45 min.- O Nova Paulista não completara nem metade do seu percurso e para que eu afastasse o mal humor e o tédio continuei a prestar atenção às coisas lá fora:

– “Será que era assim a algumas centenas de anos atrás? Rostos amarelos, riso sério e individualismo em pessoas que se encontram por meses a fio?”

Bom, quem sou eu pra responder. Divagando sobre esta realidade social futura -não por ser um intelectual ou homem de letras e sim para espantar o amargor da azia – noto um grande outdoor com seu neon vermelho e branco piscando majestosamente enquanto singrava a avenida propulsionado por turbinas que fariam um Miata 2300 cantar pneus (hahahaha… essa foi boa!). Nele piscava um anúncio de refrigerante que deveria fazer aniversário com os dinossauros.

DINOSSAUROS???  Nossa, hoje estou nostálgico.

HORÁRIO LOCAL * 8:10 min.- Em frente a Av. Prestes Maia, o ônibus pára e desce sua escada metálica sobre a plataforma para o embarque e desembarque dos passageiros. Aquela grande língua de ferro descendo vagarosamente sobre o ponto chega a ser até um pouco obscena. Noto então uma figura que há alguns anos me pego a pesquisar. Seu nome é Isaac, um antiquário do centro-cosmo de São Paulo. É um homem velho (devem também aniversariar com os dinossauros!) com uma cabeça careca levemente enfeitada com tufos de cabelos brancos e uns óculos “fundo de garrafa” com uma curiosa armação de arame. Nada no velho Isaac demonstrava sequer um mínimo de evolução. O estranho velhinho arqueado então se senta, pigarreia alto e começa a ler um livro velho e malcheiroso, cheio de anotações.

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