O ônibus - Ivandro Godoy
Ivandro Godoy
Nascido em São Paulo/SP num belo dia nublado do ano de 1974.
Escritor, colunista, fotógrafo, subversivo, libertino e um porra-louca sem noção do perigo.
Escrevo desde os tempos dos fanzines de papel e cola branca e minha única religião é o gênero horror.
Iniciei minha saga em 1997 com o fanzine Vrolok e desde então não parei mais de explorar o lado negro da literatura. No meio literário já participei das antologias Asgard: A Sagas dos Nove Reinos, Le Monde Bizarre: O Circo dos Horrores e Green Death: Ecoterrorismo Licantrópico.





O ônibus

HORÁRIO LOCAL * 8:30 min.- Faltam (pelo menos em meus cálculos) apenas alguns minutos para que eu chegue em casa e esqueça estes manequins orgânicos, com seus problemas e suas crises de humor. E quanto à estas anotações talvez eu as guarde. Quem sabe um dia algum desocupado se interesse no dia a dia de um usuário de transporte coletivo. Em casa, o velho Springgle deve estar com fome e com certeza roendo um dos pés dos meus melhores sapatos. Preciso aumentar a minha cota de serviço para poder comprar um alojamento maior, com conforto pra mim e para aquele velho vira-latas.

O meu alojamento fica situa-se na Rua Atanásio de Sá, COD.104A-1.COURB. Logo após o túnel, que se aproxima devagar. Ao adentrar no túnel me veio uma má impressão. Algo como se fosse engolido por uma enorme serpente com um estômago de neon.

– “Faltam apenas alguns metros!”- pensava eu, insistentemente, a tamborilar com os dedos as costas do bloco digital quando tudo parou. As portas travaram e as luzes se apagaram momentaneamente, até que uma voz robótica começou a avisar sobre uma queda repentina de energia solar que deixaria o coletivo desativado até que as baterias de emergência se ativassem.

É… os séculos passaram, mas algumas coisa nunca mudam!

Os geradores de emergência foram ativados e uma luz alaranjada inundou o interior do coletivo Nova Paulista. Alguns manuais de instruções sobre o uso correto das máscaras de oxigênio foram projetados pelo monitor holográfico do ônibus, despertando certo pânico nos passageiros. Alguns cochichavam que as grandes empresas não estavam pagando suas contas e que um corte de energia seria iminente.

É, pode ser isto. Apenas um blecaute.

HORÁRIO LOCAL * 9:45 min.- Já se passou mais de uma hora e o veículo continuava inerte como uma montanha de granito. Alguns passageiros começaram a ficar claustrofóbicos. Nenhuma comunicação do “mundo exterior” chegava aos nossos ouvidos e isso deixava certo desconforto. Será que havia outros coletivos presos em outras partes da cidade ou seríamos nós os únicos seres ilhados da grande metrópole? Algo como dezenas de interpretes do Jonas bíblico, encarcerados no estômago desta gigantesca baleia de aço.

Minhas reflexões foram interrompidas por um ruído estranho, algo como um chiado em meio à varias vozes e música. Olho para trás e vejo que uma multidão se aglomerava em torno do velho Isaac como formigas em um doce caído. Caminho em direção do reboliço e qual não foi a minha surpresa ao ver o velho antiquário tentando sintonizar um velho rádio valvulado, com seus parafusos e transistores, tão obsoletos. A estática que dele emanava me lembrava aqueles holo-programas educativos sobre nuvens de gafanhotos…

A única estação compreensível informava sobre mais uma banda de rock que dizia ser melhor que os Beatles (eles não aprendem nunca) até que veio a notícia. Eu havia chegado perto da dura realidade do fato…

O Sol finalmente havia se apagado.

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Ivandro Godoy
O ônibus

HORÁRIO LOCAL * 8:30 min.- Faltam (pelo menos em meus cálculos) apenas alguns minutos para que eu chegue em casa e esqueça estes manequins orgânicos, com seus problemas e suas crises de humor. E quanto à estas anotações talvez eu as guarde. Quem sabe um dia algum desocupado se interesse no dia a dia de um usuário de transporte coletivo. Em casa, o velho Springgle deve estar com fome e com certeza roendo um dos pés dos meus melhores sapatos. Preciso aumentar a minha cota de serviço para poder comprar um alojamento maior, com conforto pra mim e para aquele velho vira-latas.

O meu alojamento fica situa-se na Rua Atanásio de Sá, COD.104A-1.COURB. Logo após o túnel, que se aproxima devagar. Ao adentrar no túnel me veio uma má impressão. Algo como se fosse engolido por uma enorme serpente com um estômago de neon.

– “Faltam apenas alguns metros!”- pensava eu, insistentemente, a tamborilar com os dedos as costas do bloco digital quando tudo parou. As portas travaram e as luzes se apagaram momentaneamente, até que uma voz robótica começou a avisar sobre uma queda repentina de energia solar que deixaria o coletivo desativado até que as baterias de emergência se ativassem.

É… os séculos passaram, mas algumas coisa nunca mudam!

Os geradores de emergência foram ativados e uma luz alaranjada inundou o interior do coletivo Nova Paulista. Alguns manuais de instruções sobre o uso correto das máscaras de oxigênio foram projetados pelo monitor holográfico do ônibus, despertando certo pânico nos passageiros. Alguns cochichavam que as grandes empresas não estavam pagando suas contas e que um corte de energia seria iminente.

É, pode ser isto. Apenas um blecaute.

HORÁRIO LOCAL * 9:45 min.- Já se passou mais de uma hora e o veículo continuava inerte como uma montanha de granito. Alguns passageiros começaram a ficar claustrofóbicos. Nenhuma comunicação do “mundo exterior” chegava aos nossos ouvidos e isso deixava certo desconforto. Será que havia outros coletivos presos em outras partes da cidade ou seríamos nós os únicos seres ilhados da grande metrópole? Algo como dezenas de interpretes do Jonas bíblico, encarcerados no estômago desta gigantesca baleia de aço.

Minhas reflexões foram interrompidas por um ruído estranho, algo como um chiado em meio à varias vozes e música. Olho para trás e vejo que uma multidão se aglomerava em torno do velho Isaac como formigas em um doce caído. Caminho em direção do reboliço e qual não foi a minha surpresa ao ver o velho antiquário tentando sintonizar um velho rádio valvulado, com seus parafusos e transistores, tão obsoletos. A estática que dele emanava me lembrava aqueles holo-programas educativos sobre nuvens de gafanhotos…

A única estação compreensível informava sobre mais uma banda de rock que dizia ser melhor que os Beatles (eles não aprendem nunca) até que veio a notícia. Eu havia chegado perto da dura realidade do fato…

O Sol finalmente havia se apagado.

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