O ônibus - Ivandro Godoy
Ivandro Godoy
Nascido em São Paulo/SP num belo dia nublado do ano de 1974.
Escritor, colunista, fotógrafo, subversivo, libertino e um porra-louca sem noção do perigo.
Escrevo desde os tempos dos fanzines de papel e cola branca e minha única religião é o gênero horror.
Iniciei minha saga em 1997 com o fanzine Vrolok e desde então não parei mais de explorar o lado negro da literatura. No meio literário já participei das antologias Asgard: A Sagas dos Nove Reinos, Le Monde Bizarre: O Circo dos Horrores e Green Death: Ecoterrorismo Licantrópico.





O ônibus

10:12 min.- Histeria coletiva.

Nunca pensei que este veículo, com todos os seus vinte e quatro metros de comprimento ficasse tão pequeno e apertado. As pessoas gritavam e se debatiam umas com as outras, como um formigueiro batido com uma varinha de mato seco. Uma senhora com seus sessenta anos foi pisoteada uma dezena de vezes até que jazia morta no chão, arqueada, com seu colar de pérolas falsas espalhado pelo chão e com os olhos voltados para o alto como se perguntassem “Por quê?”. O pequeno cão que trazia consigo no colo como um bebê estúpido lambia o filete de sangue que escorria no canto de sua boca enrugada e vermelha.

Tôda essa cena me fêz pensar o quanto realmente estamos distantes do primitivismo humano apesar das facilidades tecnológicas e sociais da época…

10:53 min- Fôra necessário um bom tempo para que os passageiros do ônibus Nova Paulista se acalmassem e começassem a pensar. A primeira resolução fôra a água. Não foi difícil encontrar o sistema de refrigeração das turbinas do coletivo. Bastou apenas quebrar as camadas de gelo dos encanamentos e deixá-lo derreter. O gosto estranho que o gelo derretido tem não foi tão difícil ao paladar.

Mas então veio a fome…

03 de janeiro de 2400: 5:15 min.- Já se passaram dois dias desde que comi pela última vez. A fome apertava meu estômago como se usasse uma morsa e a água/gelo piorou a minha azia.

Alguns biscoitos resolveram o problema de alguns enquanto novas estratégias eram planejadas. No fundo do ônibus se ouvia um choro de criança. Sabíamos que uma atitude deveria ser tomada, pois os sinais do cansaço já se tornavam evidentes na maioria do grupo e eu temia que uma selvageria igual ao incidente da velha senhora acontecesse.

04 de janeiro de 2400: 4:07 min.- Um tumulto me acordou e a levantada brusca me causou uma náusea monstruosa, mas não menor do que a cena que eu presenciei.Um grupo de operários não agüentou a ameaça invisível da fome e devoraram o pobre cãozinho da finada. Comeram-no cru e pulsante. Aquela cena me causou uma repulsa tão grande que senti o meu estômago contrai-se num pré-vômito, aquela sensação horrível e aquele gosto gástricos que já me eram tão familiares.

Passados algumas horas a pequena população de famintos do ônibus Nova Paulista aumentou. As crianças choravam e não havia nada que seus pais pudessem fazer

8:23 min.- Depois de quatro horas de discussões e lamentos chegamos à uma conclusão. Para que as crianças pudessem sobreviver àquela horrível situação deveríamos comer os cadáveres (que já eram quatro no total), conseguindo assim distrair a fome e aumentar o espaço no veículo. Para cortar a carne dos defuntos, usamos um caco de plastimetal que se encontrava na porta de embarque e que possivelmente deveria ser a capa protetora de uma das chaves de emergência do ônibus. As partes da coxa, glúteos e antebraço eram as mais disputadas e o meu espírito se recusava diante aquela terrível barbárie antropofágica mesmo que meu estômago pensasse diferente.

E mais um dia eu fiquei sem comer.

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Ivandro Godoy
O ônibus

10:12 min.- Histeria coletiva.

Nunca pensei que este veículo, com todos os seus vinte e quatro metros de comprimento ficasse tão pequeno e apertado. As pessoas gritavam e se debatiam umas com as outras, como um formigueiro batido com uma varinha de mato seco. Uma senhora com seus sessenta anos foi pisoteada uma dezena de vezes até que jazia morta no chão, arqueada, com seu colar de pérolas falsas espalhado pelo chão e com os olhos voltados para o alto como se perguntassem “Por quê?”. O pequeno cão que trazia consigo no colo como um bebê estúpido lambia o filete de sangue que escorria no canto de sua boca enrugada e vermelha.

Tôda essa cena me fêz pensar o quanto realmente estamos distantes do primitivismo humano apesar das facilidades tecnológicas e sociais da época…

10:53 min- Fôra necessário um bom tempo para que os passageiros do ônibus Nova Paulista se acalmassem e começassem a pensar. A primeira resolução fôra a água. Não foi difícil encontrar o sistema de refrigeração das turbinas do coletivo. Bastou apenas quebrar as camadas de gelo dos encanamentos e deixá-lo derreter. O gosto estranho que o gelo derretido tem não foi tão difícil ao paladar.

Mas então veio a fome…

03 de janeiro de 2400: 5:15 min.- Já se passaram dois dias desde que comi pela última vez. A fome apertava meu estômago como se usasse uma morsa e a água/gelo piorou a minha azia.

Alguns biscoitos resolveram o problema de alguns enquanto novas estratégias eram planejadas. No fundo do ônibus se ouvia um choro de criança. Sabíamos que uma atitude deveria ser tomada, pois os sinais do cansaço já se tornavam evidentes na maioria do grupo e eu temia que uma selvageria igual ao incidente da velha senhora acontecesse.

04 de janeiro de 2400: 4:07 min.- Um tumulto me acordou e a levantada brusca me causou uma náusea monstruosa, mas não menor do que a cena que eu presenciei.Um grupo de operários não agüentou a ameaça invisível da fome e devoraram o pobre cãozinho da finada. Comeram-no cru e pulsante. Aquela cena me causou uma repulsa tão grande que senti o meu estômago contrai-se num pré-vômito, aquela sensação horrível e aquele gosto gástricos que já me eram tão familiares.

Passados algumas horas a pequena população de famintos do ônibus Nova Paulista aumentou. As crianças choravam e não havia nada que seus pais pudessem fazer

8:23 min.- Depois de quatro horas de discussões e lamentos chegamos à uma conclusão. Para que as crianças pudessem sobreviver àquela horrível situação deveríamos comer os cadáveres (que já eram quatro no total), conseguindo assim distrair a fome e aumentar o espaço no veículo. Para cortar a carne dos defuntos, usamos um caco de plastimetal que se encontrava na porta de embarque e que possivelmente deveria ser a capa protetora de uma das chaves de emergência do ônibus. As partes da coxa, glúteos e antebraço eram as mais disputadas e o meu espírito se recusava diante aquela terrível barbárie antropofágica mesmo que meu estômago pensasse diferente.

E mais um dia eu fiquei sem comer.

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