O ônibus - Ivandro Godoy
Ivandro Godoy
Nascido em São Paulo/SP num belo dia nublado do ano de 1974.
Escritor, colunista, fotógrafo, subversivo, libertino e um porra-louca sem noção do perigo.
Escrevo desde os tempos dos fanzines de papel e cola branca e minha única religião é o gênero horror.
Iniciei minha saga em 1997 com o fanzine Vrolok e desde então não parei mais de explorar o lado negro da literatura. No meio literário já participei das antologias Asgard: A Sagas dos Nove Reinos, Le Monde Bizarre: O Circo dos Horrores e Green Death: Ecoterrorismo Licantrópico.





O ônibus

18:04 min.- O caos cobria a noite.

Mais duas pessoas morreram no decorrer do dia entre elas um bebê de quatro meses. O meu estômago guinchava e se retorcia como um gato aleijado e eu já não conseguia pensar direito. A imagem do velho Isaac, com sua pele amarela e olhos lacrimosos, mastigando um pedaço de carne úmida e se lambuzando como uma criança me causava calafrios, mas eu estava febril de fome… e finalmente comi…

O gosto fibroso da carne humana nos meus dentes me enojava, mas me devolveu um pouco da razão, embora soassem como pensamentos de rapina. A centena de anos atrás os nossos antepassados (indígenas que só chegamos a conhecer por intermédio das hologravuras escolares, juntamente com a fauna e flora terrestre) devoravam seus entes queridos como um método de manterem a alma dos mortos sempre dentro da aldeia. Acontece que esta utopia não funcionava entre os passageiros da linha Nova Paulista. Era apenas fome…

Pura e feroz fome.

Dia 05 de janeiro de 2400: 12:24 min.- O frio começou a nos castigar agora. Somos apenas dez agora: cinco homens, duas mulheres e três crianças. E uma pilha fedorenta de cadáveres. A bateria solar do meu diário acabou á algumas horas. A partir de agora estarei escrevendo pelas paredes do coletivo. Não sei se isto será lido futuramente, mas a simples ação de escrever me devolve um pouco o sentimento de humanidade, bastante abandonado nesta situação.

17: 33 min.- O que eu vi (MEU DEUS!) nestes minutos vai ficar gravado na minha alma por toda a minha vida. O frio congelou os “mantimentos” tornando-os impossíveis de se comer e eu vi (oh, meu Deus… não!) pais devorarem seus filhos. Não sei se por necessidade ou para poupá-los de viverem o que estávamos vivendo.

20:12 min.- Algumas atitudes foram tomadas para a manutenção do grupo.Os mais fortes deveriam dormir de dia (se é que este conceito ainda existe) para proteger os mais fracos á noite. A situação chegou á um nível em que os que dormiam á noite eram atacados e devorados.

Somos agora apenas quatro; o velho antiquário, uma senhora que abraçava avidamente um bracinho roído, um grande e magrelo albino e eu.

Já se completaram três dias em que eu não durmo…

Dia 06 de janeiro de 2400 (a bateria interna do relógio parou)- Eu acho que peguei no sono, pois fui acordado bruscamente com os sons dos gritos daquela mulher. Estava deitada e se debatia histericamente enquanto o cadavérico albino a estuprava e lhe mordia ferozmente os seios. Esta cena me chocou bem menos do que a imagem do velho Isaac, que fitava tudo sem piscar, rindo esganiçadamente com aquela boca murcha e sem dentes enquanto batia palmas.

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Ivandro Godoy
O ônibus

18:04 min.- O caos cobria a noite.

Mais duas pessoas morreram no decorrer do dia entre elas um bebê de quatro meses. O meu estômago guinchava e se retorcia como um gato aleijado e eu já não conseguia pensar direito. A imagem do velho Isaac, com sua pele amarela e olhos lacrimosos, mastigando um pedaço de carne úmida e se lambuzando como uma criança me causava calafrios, mas eu estava febril de fome… e finalmente comi…

O gosto fibroso da carne humana nos meus dentes me enojava, mas me devolveu um pouco da razão, embora soassem como pensamentos de rapina. A centena de anos atrás os nossos antepassados (indígenas que só chegamos a conhecer por intermédio das hologravuras escolares, juntamente com a fauna e flora terrestre) devoravam seus entes queridos como um método de manterem a alma dos mortos sempre dentro da aldeia. Acontece que esta utopia não funcionava entre os passageiros da linha Nova Paulista. Era apenas fome…

Pura e feroz fome.

Dia 05 de janeiro de 2400: 12:24 min.- O frio começou a nos castigar agora. Somos apenas dez agora: cinco homens, duas mulheres e três crianças. E uma pilha fedorenta de cadáveres. A bateria solar do meu diário acabou á algumas horas. A partir de agora estarei escrevendo pelas paredes do coletivo. Não sei se isto será lido futuramente, mas a simples ação de escrever me devolve um pouco o sentimento de humanidade, bastante abandonado nesta situação.

17: 33 min.- O que eu vi (MEU DEUS!) nestes minutos vai ficar gravado na minha alma por toda a minha vida. O frio congelou os “mantimentos” tornando-os impossíveis de se comer e eu vi (oh, meu Deus… não!) pais devorarem seus filhos. Não sei se por necessidade ou para poupá-los de viverem o que estávamos vivendo.

20:12 min.- Algumas atitudes foram tomadas para a manutenção do grupo.Os mais fortes deveriam dormir de dia (se é que este conceito ainda existe) para proteger os mais fracos á noite. A situação chegou á um nível em que os que dormiam á noite eram atacados e devorados.

Somos agora apenas quatro; o velho antiquário, uma senhora que abraçava avidamente um bracinho roído, um grande e magrelo albino e eu.

Já se completaram três dias em que eu não durmo…

Dia 06 de janeiro de 2400 (a bateria interna do relógio parou)- Eu acho que peguei no sono, pois fui acordado bruscamente com os sons dos gritos daquela mulher. Estava deitada e se debatia histericamente enquanto o cadavérico albino a estuprava e lhe mordia ferozmente os seios. Esta cena me chocou bem menos do que a imagem do velho Isaac, que fitava tudo sem piscar, rindo esganiçadamente com aquela boca murcha e sem dentes enquanto batia palmas.

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