Autópsia - J. A. de Nardo
J. A. de Nardo
João decidiu dar vida aos seus mórbidos pesadelos e compartilhar feitos e devaneios nada memoráveis com o público. 
O medo, o estranho e o cotidiano banal são as suas inspirações para a escrita. Escreve como uma forma de canalizar seus sentimentos, da forma mais clichê possível. 
Se perde em pensamento abstratos e overdoses filosóficas, crê que o horror é um universo a ser explorado, e o pavor é o sentimento mais puro a ser sentido. Se perde também em alguns pseudônimos para poder escrever o que há de mais bizarro em si, não gosta muito de mostrar o rosto para não perturbar os leitores, usa máscaras como referência ao baile de máscaras do plano físico. 
Diretor da Revista Aterrorizante e autor de algumas obras em conjunto e originais nada comuns, sempre terror com doses de perturbação e humor negro.
Sua conquista mais memorável foi um concurso de poesias quando tinha 10 anos, desde então vem colecionando fracassos e insucessos. Muitas vezes confundido com um demônio sem função na terra, transita entre funções aleatórias, como um traficante de inutilidades ou vendedor de ideias natimortas. 
Email: Jaoanm@gmail.com 
Instagram: @joaodenardo






Autópsia

Macabro. Essa é a primeira palavra que se passa na cabeça de uma pessoa quando comento sobre o meu trabalho no necrotério. Bom, eu sei que não é algo limpo e agradável como as pessoas desejam que um bom trabalho seja, porém eu ganho meu sustento dessa forma.

 

Meu filho sempre sofreu um pouco na escola quando seus amiguinhos lhe perguntavam a profissão do pai. Os meninos tinham pais engenheiros, médicos, advogados… O que o dele fazia, ajudava pessoas? Fazia algo útil para elas? Dissecava corpos para analisar a causa da morte… Depois de se chatear muito por isso, com o passar dos tempos ele foi se acostumando e levando numa boa. Conforme ele crescia se interessou pelo mórbido, assim como eu, pelos filmes de terror, pelo macabro e o que as pessoas normalmente não gostam de abordar.

 

Dia dos pais era uma alegria para o pequeno George. Na tradição da cidade os filhos acompanhavam os pais na rotina do trabalho daquele dia. Anteriormente era algo que meu filho odiava, mas os anos fizeram ele se interessar e nos últimos 2 anos ele pediu para me auxiliar, recusei por achar que ele não estaria pronto.

Mas agora que ele já está com dezoito anos e já é um homem, pode ajudar seu pai até mesmo no trabalho sujo do dia-a-dia.

 

Ao acordar na manhã daquele dia dos pais ganhei uma carteira, não uma de couro comum, mas uma de papel e com um desenho surrealista, George adorava essas coisas e eu sorri para lhe agradecer mesmo não gostando tanto. Preferia uma coisa que combinaria com meu ambiente de trabalho, aliás passava quase o dia todo lá, uma carteira colorida e viva não combina com um lugar de morte.

Páginas: 1 2 3 4 5 6

J. A. de Nardo
Autópsia

Macabro. Essa é a primeira palavra que se passa na cabeça de uma pessoa quando comento sobre o meu trabalho no necrotério. Bom, eu sei que não é algo limpo e agradável como as pessoas desejam que um bom trabalho seja, porém eu ganho meu sustento dessa forma.

 

Meu filho sempre sofreu um pouco na escola quando seus amiguinhos lhe perguntavam a profissão do pai. Os meninos tinham pais engenheiros, médicos, advogados… O que o dele fazia, ajudava pessoas? Fazia algo útil para elas? Dissecava corpos para analisar a causa da morte… Depois de se chatear muito por isso, com o passar dos tempos ele foi se acostumando e levando numa boa. Conforme ele crescia se interessou pelo mórbido, assim como eu, pelos filmes de terror, pelo macabro e o que as pessoas normalmente não gostam de abordar.

 

Dia dos pais era uma alegria para o pequeno George. Na tradição da cidade os filhos acompanhavam os pais na rotina do trabalho daquele dia. Anteriormente era algo que meu filho odiava, mas os anos fizeram ele se interessar e nos últimos 2 anos ele pediu para me auxiliar, recusei por achar que ele não estaria pronto.

Mas agora que ele já está com dezoito anos e já é um homem, pode ajudar seu pai até mesmo no trabalho sujo do dia-a-dia.

 

Ao acordar na manhã daquele dia dos pais ganhei uma carteira, não uma de couro comum, mas uma de papel e com um desenho surrealista, George adorava essas coisas e eu sorri para lhe agradecer mesmo não gostando tanto. Preferia uma coisa que combinaria com meu ambiente de trabalho, aliás passava quase o dia todo lá, uma carteira colorida e viva não combina com um lugar de morte.

Páginas: 1 2 3 4 5 6