Autópsia - J. A. de Nardo
J. A. de Nardo
João decidiu dar vida aos seus mórbidos pesadelos e compartilhar feitos e devaneios nada memoráveis com o público. 
O medo, o estranho e o cotidiano banal são as suas inspirações para a escrita. Escreve como uma forma de canalizar seus sentimentos, da forma mais clichê possível. 
Se perde em pensamento abstratos e overdoses filosóficas, crê que o horror é um universo a ser explorado, e o pavor é o sentimento mais puro a ser sentido. Se perde também em alguns pseudônimos para poder escrever o que há de mais bizarro em si, não gosta muito de mostrar o rosto para não perturbar os leitores, usa máscaras como referência ao baile de máscaras do plano físico. 
Diretor da Revista Aterrorizante e autor de algumas obras em conjunto e originais nada comuns, sempre terror com doses de perturbação e humor negro.
Sua conquista mais memorável foi um concurso de poesias quando tinha 10 anos, desde então vem colecionando fracassos e insucessos. Muitas vezes confundido com um demônio sem função na terra, transita entre funções aleatórias, como um traficante de inutilidades ou vendedor de ideias natimortas. 
Email: Jaoanm@gmail.com 
Instagram: @joaodenardo






Autópsia

 

George estava animado, seria a primeira vez praticando a profissão que queria herdar do pai, isso o deixava empolgado. Após sair do seu trabalho em um novo mercadinho do bairro ele aparece no necrotério pronto para ter sua primeira experiência cuidando de um cadáver.

 

O local não era muito grande, mas havia várias salas, o garoto conhecia como a palma de sua mão cada uma delas e seus segredos; acompanhou várias lendas em noites de terror com seu pai. O velho adorava amedrontar o garoto que aos poucos se acostumou com o ambiente medonho. Quando criança seu maior medo era um dos cadáveres voltar à vida. Quando viu um dos corpos levantar o braço pela primeira vez foi um choque imenso, mas nada que um pouco de formol não ajude.

 

O prédio cinza não era nada convidativo, pra falar a verdade amedrontava todos que passavam pela frente. Um lugar onde ficam os mortos não é lá muito querido pelo pessoal.

 

O cheiro forte percorria os corredores, era o odor da morte, porém sempre estava disposto a tomar um forte café, aliás eu deveria estar de pé durante toda a madrugada, coisa que os meus colegas de trabalho não faziam.

 

Após o conduzir pelo prédio eu o levo para um pequeno vestiário, lá pode trocar suas roupas para o trabalho. Ele parece nervoso, como se fosse sua primeira vez no lugar. Seu braço tremia enquanto colocava as grandes luvas em suas mãos. Tento o acalmar, digo que ele se dará bem e não será nada difícil.

 

Para entrar no ramo precisa-se de muita precisão e paciência, e é claro, muita coragem para não enlouquecer entre tantos corpos e mortes violentas. Aqui é o lugar perfeito para vermos como nossa vida não vale nada e que em breve todas nossas carcaças serão jogadas na terra para serem devoradas por vermes, tão insignificantes como nós. E a nossa alma? Irá viver em outro corpo, novos sofrimentos, novos conhecimentos para enfim trocar de pele novamente, um grande círculo vicioso; isso se a alma realmente existir. Se nem Platão, Aristóteles e São Tomas de Aquino entraram em consenso, quem seria eu para confirmar algo?

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J. A. de Nardo
Autópsia

 

George estava animado, seria a primeira vez praticando a profissão que queria herdar do pai, isso o deixava empolgado. Após sair do seu trabalho em um novo mercadinho do bairro ele aparece no necrotério pronto para ter sua primeira experiência cuidando de um cadáver.

 

O local não era muito grande, mas havia várias salas, o garoto conhecia como a palma de sua mão cada uma delas e seus segredos; acompanhou várias lendas em noites de terror com seu pai. O velho adorava amedrontar o garoto que aos poucos se acostumou com o ambiente medonho. Quando criança seu maior medo era um dos cadáveres voltar à vida. Quando viu um dos corpos levantar o braço pela primeira vez foi um choque imenso, mas nada que um pouco de formol não ajude.

 

O prédio cinza não era nada convidativo, pra falar a verdade amedrontava todos que passavam pela frente. Um lugar onde ficam os mortos não é lá muito querido pelo pessoal.

 

O cheiro forte percorria os corredores, era o odor da morte, porém sempre estava disposto a tomar um forte café, aliás eu deveria estar de pé durante toda a madrugada, coisa que os meus colegas de trabalho não faziam.

 

Após o conduzir pelo prédio eu o levo para um pequeno vestiário, lá pode trocar suas roupas para o trabalho. Ele parece nervoso, como se fosse sua primeira vez no lugar. Seu braço tremia enquanto colocava as grandes luvas em suas mãos. Tento o acalmar, digo que ele se dará bem e não será nada difícil.

 

Para entrar no ramo precisa-se de muita precisão e paciência, e é claro, muita coragem para não enlouquecer entre tantos corpos e mortes violentas. Aqui é o lugar perfeito para vermos como nossa vida não vale nada e que em breve todas nossas carcaças serão jogadas na terra para serem devoradas por vermes, tão insignificantes como nós. E a nossa alma? Irá viver em outro corpo, novos sofrimentos, novos conhecimentos para enfim trocar de pele novamente, um grande círculo vicioso; isso se a alma realmente existir. Se nem Platão, Aristóteles e São Tomas de Aquino entraram em consenso, quem seria eu para confirmar algo?

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