Autópsia - J. A. de Nardo
J. A. de Nardo
João decidiu dar vida aos seus mórbidos pesadelos e compartilhar feitos e devaneios nada memoráveis com o público. 
O medo, o estranho e o cotidiano banal são as suas inspirações para a escrita. Escreve como uma forma de canalizar seus sentimentos, da forma mais clichê possível. 
Se perde em pensamento abstratos e overdoses filosóficas, crê que o horror é um universo a ser explorado, e o pavor é o sentimento mais puro a ser sentido. Se perde também em alguns pseudônimos para poder escrever o que há de mais bizarro em si, não gosta muito de mostrar o rosto para não perturbar os leitores, usa máscaras como referência ao baile de máscaras do plano físico. 
Diretor da Revista Aterrorizante e autor de algumas obras em conjunto e originais nada comuns, sempre terror com doses de perturbação e humor negro.
Sua conquista mais memorável foi um concurso de poesias quando tinha 10 anos, desde então vem colecionando fracassos e insucessos. Muitas vezes confundido com um demônio sem função na terra, transita entre funções aleatórias, como um traficante de inutilidades ou vendedor de ideias natimortas. 
Email: Jaoanm@gmail.com 
Instagram: @joaodenardo






Autópsia

 

O primeiro corpo da noite chegou ao local, uma indigente, por isso o procedimento todo deveria ser filmado. Sua morte não havia sido violenta como as últimas que tinha recebido; isso me tranquilizou, pois meu filho não teria de ver uma coisa tão gráfica. A garota teve uma overdose de heroína, nada comum na região, porém quem quer fugir desse mundo sempre dá um jeito. Seu nariz sangrava, e sua língua estava muito inchada.

 

O cadáver é colocado na maca. Como de costume deixo uma música tranquila de ambiente para poder começar o procedimento com cuidado, o local é refrigerado e meu corpo até se acostumou com dado frio. Não vou mentir que meu sonho não era cuidar da vida das pessoas, ser um médico cirurgião quem sabe, poder salvar vidas, porém quis o destino que eu cuidasse das pessoas pós a morte. Creio que é um trabalho fundamental; principalmente por aquelas mortes suspeitas, às vezes posso fazer justiça e esclarecer dúvidas. A madrugada sempre é calma, e me acostumei com a solidão ao lado de corpos que nunca respondem quando converso sozinho.

 

O primeiro passo a ser realizado é a autópsia externa, George observa se existem hematomas ou qualquer vestígio estranho, além de checar todos os orifícios. Tudo normal até a chegar à genitália, ele parecia desconfortável e eu entendo o garoto, pode ser estranho fazer isso na frente de seu pai, e ainda é capaz de nunca ter visto uma tão perto em sua vida, desde o parto.

 

Após analisar o corpo e suas marcas podemos avançar para a autópsia interna. Guio sua mão enquanto ele corta aquele corpo sem vida em um formato de Y, um corte cirúrgico. 

 

O clima permanecia congelante e o garoto estava empolgado; tudo seguia normal, até que me assusto com o braço que se levanta do corpo. Isso deve ter assustado ainda mais o garoto. Mesmo após anos de experiência, ainda é assustador, aplico formol e tudo volta ao normal. Foi apenas um espasmo, lembro ainda da minha reação ao ver pela primeira vez um cadáver com espasmo. Confesso que entrei em pânico e tentei sair do prédio correndo, até que um legista mais experiente me explicou que se tratava de uma rigidez muscular pós mortem, conhecida mais como Rigor Mortis (Rigidez Cadavérica). Essa rigidez é causada pela falta de uma substância química que nos ajuda a obter energia, como a pessoa está morta, essa substância passa a ficar escassa e os músculos iniciam o processo de rigidez, principalmente nas articulações. Mas imagine você sem saber quase nada sobre ciência e dando de cara com um morto levantando o braço? George me surpreendeu ao não esboçar medo, nem um pouco de susto. Acho que ele chegou a ver algumas filmagens antes e se acostumou com as coisas que poderiam acontecer.

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J. A. de Nardo
Autópsia

 

O primeiro corpo da noite chegou ao local, uma indigente, por isso o procedimento todo deveria ser filmado. Sua morte não havia sido violenta como as últimas que tinha recebido; isso me tranquilizou, pois meu filho não teria de ver uma coisa tão gráfica. A garota teve uma overdose de heroína, nada comum na região, porém quem quer fugir desse mundo sempre dá um jeito. Seu nariz sangrava, e sua língua estava muito inchada.

 

O cadáver é colocado na maca. Como de costume deixo uma música tranquila de ambiente para poder começar o procedimento com cuidado, o local é refrigerado e meu corpo até se acostumou com dado frio. Não vou mentir que meu sonho não era cuidar da vida das pessoas, ser um médico cirurgião quem sabe, poder salvar vidas, porém quis o destino que eu cuidasse das pessoas pós a morte. Creio que é um trabalho fundamental; principalmente por aquelas mortes suspeitas, às vezes posso fazer justiça e esclarecer dúvidas. A madrugada sempre é calma, e me acostumei com a solidão ao lado de corpos que nunca respondem quando converso sozinho.

 

O primeiro passo a ser realizado é a autópsia externa, George observa se existem hematomas ou qualquer vestígio estranho, além de checar todos os orifícios. Tudo normal até a chegar à genitália, ele parecia desconfortável e eu entendo o garoto, pode ser estranho fazer isso na frente de seu pai, e ainda é capaz de nunca ter visto uma tão perto em sua vida, desde o parto.

 

Após analisar o corpo e suas marcas podemos avançar para a autópsia interna. Guio sua mão enquanto ele corta aquele corpo sem vida em um formato de Y, um corte cirúrgico. 

 

O clima permanecia congelante e o garoto estava empolgado; tudo seguia normal, até que me assusto com o braço que se levanta do corpo. Isso deve ter assustado ainda mais o garoto. Mesmo após anos de experiência, ainda é assustador, aplico formol e tudo volta ao normal. Foi apenas um espasmo, lembro ainda da minha reação ao ver pela primeira vez um cadáver com espasmo. Confesso que entrei em pânico e tentei sair do prédio correndo, até que um legista mais experiente me explicou que se tratava de uma rigidez muscular pós mortem, conhecida mais como Rigor Mortis (Rigidez Cadavérica). Essa rigidez é causada pela falta de uma substância química que nos ajuda a obter energia, como a pessoa está morta, essa substância passa a ficar escassa e os músculos iniciam o processo de rigidez, principalmente nas articulações. Mas imagine você sem saber quase nada sobre ciência e dando de cara com um morto levantando o braço? George me surpreendeu ao não esboçar medo, nem um pouco de susto. Acho que ele chegou a ver algumas filmagens antes e se acostumou com as coisas que poderiam acontecer.

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