Devaneios - J. A. de Nardo
J. A. de Nardo
João decidiu dar vida aos seus mórbidos pesadelos e compartilhar feitos e devaneios nada memoráveis com o público. 
O medo, o estranho e o cotidiano banal são as suas inspirações para a escrita. Escreve como uma forma de canalizar seus sentimentos, da forma mais clichê possível. 
Se perde em pensamento abstratos e overdoses filosóficas, crê que o horror é um universo a ser explorado, e o pavor é o sentimento mais puro a ser sentido. Se perde também em alguns pseudônimos para poder escrever o que há de mais bizarro em si, não gosta muito de mostrar o rosto para não perturbar os leitores, usa máscaras como referência ao baile de máscaras do plano físico. 
Diretor da Revista Aterrorizante e autor de algumas obras em conjunto e originais nada comuns, sempre terror com doses de perturbação e humor negro.
Sua conquista mais memorável foi um concurso de poesias quando tinha 10 anos, desde então vem colecionando fracassos e insucessos. Muitas vezes confundido com um demônio sem função na terra, transita entre funções aleatórias, como um traficante de inutilidades ou vendedor de ideias natimortas. 
Email: Jaoanm@gmail.com 
Instagram: @joaodenardo






Devaneios

 

Consigo me lembrar das noites bêbado em um bar qualquer. Estava rodeado de amigos, e me sentia sozinho. Todos estavam a minha volta, conversas inúteis sobre assuntos mais ainda, porém eu sentia que todos ali tinham o mesmo sentimento que eu, a solidão. A sensação que pode contar com todos nos bons momentos, mas quando se está no outro extremo não haverá ninguém, cercado de pensamentos negativos. Apesar de estarmos reunidos era algo estranho, conversávamos sobre o último jogo de futebol, mas não sobre os nossos mais profundos e medonhos sentimentos.

 

Um dos maiores é o medo, é o que estou sentindo agora, medo do que poderá vir a ocorrer. Todos sentimos em algum momento, pode ser o mais bobo; dormir no escuro ou até mesmo um inseto inofensivo.

O maior medo que as pessoas podem sentir é o da morte, não pelo fato de simplesmente morrer, mas pelo fato de ser inesperado na maioria das vezes e pelo que vai acontecer depois.

Morrer em plena caminhada ao sucesso, morrer no seu grande auge da felicidade. E depois? Vamos para um céu? Vamos voltar à vida em um corpo diferente e começar tudo novamente? Todo aquele conhecimento adquirido e conquistas serão jogados no lixo para sermos novos protótipos de pessoas? Nenhum esforço é realmente válido, tudo que fazemos não passa de um tiro no escuro, onde buscamos a sorte.

 

Argumentos covardes vêm de todos os lados, devo acreditar em algo para me salvar? Onde está a nossa liberdade?

 

Perco-me em devaneios e aos poucos percebo que só perco tempo. Ideias que me tornam um paranoico e com dúvida de todos, e isso no final não me levará a lugar nenhum, aqui onde estou já perdi minhas esperanças. Não há chances de eu escapar ou então voltar a minha vida medíocre e sem sentido, trabalhando para ter dinheiro e comer, comendo para poder trabalhar e ter dinheiro pra comer. Um ciclo que acho impossível de se quebrar.

 

Passo a pensar em atitudes impensadas que tomei, e foram as melhores da minha vida. Lembro-me que ao completar 18 anos resolvi roubar um carro, isso pode ser louco, nunca fiz nada parecido. Eu me tremia todo, segurava um canivete que amedrontou o velho dono de um carro bem gasto, mas eu consegui, eu peguei o carro e viajei por cerca de seis meses pela América do Sul. Tudo era novo, jamais havia viajado fora do estado, imagina para outros países. Mal sabia dirigir, porém me virei, ia atrás de comida ganhando uns trocados e o meu carro era meu abrigo. Pude ver paisagens lindas e conhecer pessoas maravilhosas, foi uma experiência única até encontrar uma pessoa que me desse o troco na Bolívia, furtaram o carro que assaltei. Fiz o meu caminho de volta após esse fato, me senti frustrado, porém estava preparado para recomeçar minha vida e dar satisfações às autoridades. No mesmo dia em um café perto da fronteira da Bolívia com Brasil eu vi na o carro que eu estava, haviam pegado o cara que pegou o carro roubado de mim, e era ele que iria pagar. Existe algum tipo de carma? Gastei meus últimos trocados em um café amargo e uma passagem de ônibus, foi o suficiente. Meu pai não era nada presente, depois do falecimento da minha mãe foi pior ainda. Talvez esse seja um dos motivos de eu sair por aí sem rumo. Eu me lembro de quando cheguei em casa após meio ano, ele não esboçou um sorriso sequer, apenas disse friamente tirando o cigarro da boca:

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J. A. de Nardo
Devaneios

 

Consigo me lembrar das noites bêbado em um bar qualquer. Estava rodeado de amigos, e me sentia sozinho. Todos estavam a minha volta, conversas inúteis sobre assuntos mais ainda, porém eu sentia que todos ali tinham o mesmo sentimento que eu, a solidão. A sensação que pode contar com todos nos bons momentos, mas quando se está no outro extremo não haverá ninguém, cercado de pensamentos negativos. Apesar de estarmos reunidos era algo estranho, conversávamos sobre o último jogo de futebol, mas não sobre os nossos mais profundos e medonhos sentimentos.

 

Um dos maiores é o medo, é o que estou sentindo agora, medo do que poderá vir a ocorrer. Todos sentimos em algum momento, pode ser o mais bobo; dormir no escuro ou até mesmo um inseto inofensivo.

O maior medo que as pessoas podem sentir é o da morte, não pelo fato de simplesmente morrer, mas pelo fato de ser inesperado na maioria das vezes e pelo que vai acontecer depois.

Morrer em plena caminhada ao sucesso, morrer no seu grande auge da felicidade. E depois? Vamos para um céu? Vamos voltar à vida em um corpo diferente e começar tudo novamente? Todo aquele conhecimento adquirido e conquistas serão jogados no lixo para sermos novos protótipos de pessoas? Nenhum esforço é realmente válido, tudo que fazemos não passa de um tiro no escuro, onde buscamos a sorte.

 

Argumentos covardes vêm de todos os lados, devo acreditar em algo para me salvar? Onde está a nossa liberdade?

 

Perco-me em devaneios e aos poucos percebo que só perco tempo. Ideias que me tornam um paranoico e com dúvida de todos, e isso no final não me levará a lugar nenhum, aqui onde estou já perdi minhas esperanças. Não há chances de eu escapar ou então voltar a minha vida medíocre e sem sentido, trabalhando para ter dinheiro e comer, comendo para poder trabalhar e ter dinheiro pra comer. Um ciclo que acho impossível de se quebrar.

 

Passo a pensar em atitudes impensadas que tomei, e foram as melhores da minha vida. Lembro-me que ao completar 18 anos resolvi roubar um carro, isso pode ser louco, nunca fiz nada parecido. Eu me tremia todo, segurava um canivete que amedrontou o velho dono de um carro bem gasto, mas eu consegui, eu peguei o carro e viajei por cerca de seis meses pela América do Sul. Tudo era novo, jamais havia viajado fora do estado, imagina para outros países. Mal sabia dirigir, porém me virei, ia atrás de comida ganhando uns trocados e o meu carro era meu abrigo. Pude ver paisagens lindas e conhecer pessoas maravilhosas, foi uma experiência única até encontrar uma pessoa que me desse o troco na Bolívia, furtaram o carro que assaltei. Fiz o meu caminho de volta após esse fato, me senti frustrado, porém estava preparado para recomeçar minha vida e dar satisfações às autoridades. No mesmo dia em um café perto da fronteira da Bolívia com Brasil eu vi na o carro que eu estava, haviam pegado o cara que pegou o carro roubado de mim, e era ele que iria pagar. Existe algum tipo de carma? Gastei meus últimos trocados em um café amargo e uma passagem de ônibus, foi o suficiente. Meu pai não era nada presente, depois do falecimento da minha mãe foi pior ainda. Talvez esse seja um dos motivos de eu sair por aí sem rumo. Eu me lembro de quando cheguei em casa após meio ano, ele não esboçou um sorriso sequer, apenas disse friamente tirando o cigarro da boca:

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