Devaneios - J. A. de Nardo
J. A. de Nardo
João decidiu dar vida aos seus mórbidos pesadelos e compartilhar feitos e devaneios nada memoráveis com o público. 
O medo, o estranho e o cotidiano banal são as suas inspirações para a escrita. Escreve como uma forma de canalizar seus sentimentos, da forma mais clichê possível. 
Se perde em pensamento abstratos e overdoses filosóficas, crê que o horror é um universo a ser explorado, e o pavor é o sentimento mais puro a ser sentido. Se perde também em alguns pseudônimos para poder escrever o que há de mais bizarro em si, não gosta muito de mostrar o rosto para não perturbar os leitores, usa máscaras como referência ao baile de máscaras do plano físico. 
Diretor da Revista Aterrorizante e autor de algumas obras em conjunto e originais nada comuns, sempre terror com doses de perturbação e humor negro.
Sua conquista mais memorável foi um concurso de poesias quando tinha 10 anos, desde então vem colecionando fracassos e insucessos. Muitas vezes confundido com um demônio sem função na terra, transita entre funções aleatórias, como um traficante de inutilidades ou vendedor de ideias natimortas. 
Email: Jaoanm@gmail.com 
Instagram: @joaodenardo






Devaneios

– Se quiser jantar, que faça.

Lembro também que em menos de uma semana ainda continuava o rebelde de sempre, na verdade eu era o certinho que buscava ser diferente. Uma surra em plena praça me fez mudar, me fez ser igual a tudo aquilo que eu odiava e lutava para não ser. Uns três policiais me espancaram depois de tentar vender algumas pulseiras na calçada, tentando ganhar uns trocados por uma arte fácil. Foi o suficiente para quebrar meus dois braços e me deixar bons dias no hospital.

 

A partir daí iniciei um emprego chato, com pessoas chatas e sem esperança. Mas continuei sendo o mesmo jovem sem graça pensando em mudar tudo. Vivendo em um cubículo cinza e mórbido que me lembrava à prisão, que me faz lembrar o meu momento atual. Estou sem beber a dias, cansado e sem forças para resistir.

 

Eu só queria entender o porquê. Deixaram-me com esse gravador, e estou falando besteiras que me vem à mente, deve ser algum teste. Deve ser meu último dia.

 

Passos são escutados ao fundo, e breves cochichos.

Um homem de voz rouca e grossa, acompanhado de mais dois igualmente bem vestidos tira um cigarro da boca e profere;

– Então você está vivo? Pensei que não fosse suportar mais.

 

Ajoelha-se e olha nos olhos do rapaz que está ali amarrado, refletindo sobre a vida e tudo que passou com um gravador ao seu lado.

O homem não pensa duas vezes antes de apagar o cigarro recém-tirado da boca, na coxa do rapaz nu.

Um grande grito ecoa pela sala suja e repleta de detritos.

 

– Você vai finalmente me contar sobre o que seus amigos estão planejando ou terei que fazer mais? – fala de uma forma cínica, querendo tirar algo do pobre homem.

– Eu já disse, eu já disse que não sei sobre o que tá falando – um choro interrompe a fala – eu não sei quem você está procurando, meu nome não é Carlos.

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J. A. de Nardo
Devaneios

– Se quiser jantar, que faça.

Lembro também que em menos de uma semana ainda continuava o rebelde de sempre, na verdade eu era o certinho que buscava ser diferente. Uma surra em plena praça me fez mudar, me fez ser igual a tudo aquilo que eu odiava e lutava para não ser. Uns três policiais me espancaram depois de tentar vender algumas pulseiras na calçada, tentando ganhar uns trocados por uma arte fácil. Foi o suficiente para quebrar meus dois braços e me deixar bons dias no hospital.

 

A partir daí iniciei um emprego chato, com pessoas chatas e sem esperança. Mas continuei sendo o mesmo jovem sem graça pensando em mudar tudo. Vivendo em um cubículo cinza e mórbido que me lembrava à prisão, que me faz lembrar o meu momento atual. Estou sem beber a dias, cansado e sem forças para resistir.

 

Eu só queria entender o porquê. Deixaram-me com esse gravador, e estou falando besteiras que me vem à mente, deve ser algum teste. Deve ser meu último dia.

 

Passos são escutados ao fundo, e breves cochichos.

Um homem de voz rouca e grossa, acompanhado de mais dois igualmente bem vestidos tira um cigarro da boca e profere;

– Então você está vivo? Pensei que não fosse suportar mais.

 

Ajoelha-se e olha nos olhos do rapaz que está ali amarrado, refletindo sobre a vida e tudo que passou com um gravador ao seu lado.

O homem não pensa duas vezes antes de apagar o cigarro recém-tirado da boca, na coxa do rapaz nu.

Um grande grito ecoa pela sala suja e repleta de detritos.

 

– Você vai finalmente me contar sobre o que seus amigos estão planejando ou terei que fazer mais? – fala de uma forma cínica, querendo tirar algo do pobre homem.

– Eu já disse, eu já disse que não sei sobre o que tá falando – um choro interrompe a fala – eu não sei quem você está procurando, meu nome não é Carlos.

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