Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
J. L. Silva
J. L. Silva nasceu em 6 de março de 1990, é natural de São Paulo, capital, porém, reside atualmente na cidade de Sorocaba. É professor de português,jornalista, dramaturgo, roteirista e empresário, proprietário de uma empresa cultural, pela qual ministra oficinas e palestras sobre análise e criação literária. Intitula-se amante das Letras e da literatura brasileira clássica, porém, sempre fora apaixonado pela literatura fantástica e as histórias de terror. Acredita que não se deve haver distinções aos gêneros literários, por isso, procura escrever todos os tipos de textos, inclusive considera-se um poeta de nascença.
Ganhou alguns concursos literários, em prosa e poesia, e participou de algumas antologias de literatura fantástica. Desde os 8 anos queria ser escritor, arriscava-se a escrever histórias e poemas infantis, porém, somente em 2016 estreou na literatura nacional.
Autor dos livros: Velhos Suicidas (Editora Penalux, poemas, 2016), Da Infância à Inconstância (Amazon, poemas, 2016), A Bruxa de Itaquera (Editora Multifoco, contos, 2016) e Lira dos Vinte e Poucos Anos (Amazon, poemas, 2017).
E-mail: jlennonsmith@hotmail.com
Facebook: facebook.com/j.lennonsmith






Vinde a mim os curumins

      A índia caminhava sorrateiramente entre as árvores da floresta. Seus pés, apesar de ágeis, possuíam uma leveza no pisar que nem mesmo o som das folhas secas e galhos se partindo poderiam ser ouvidos. Ela nunca esteve por aquela mata, desconhecia a região, contudo, esse era mais um dos seus passatempos: explorar áreas desconhecidas.

      Depois de certo tempo, começou a caminhar mais devagar, pois, a essa altura, com certeza, tinha conseguido despistar os dois curumins que a seguiam. Seus irmãos mais novos tinham essa mania de segui-la quando ela saía para catar frutas para a tribo. Mas a verdade é que eles sabiam as verdadeiras intenções da índia por trás dessa desculpa.

      A índia cultuava o hábito da caça, adorava se aventurar pelas matas. Entretanto, com o aumento da fome da aldeia, a caça passou a ser mais do que um dos seus hobbies, tornou-se uma questão de necessidade e sobrevivência. Isso porque sua tribo andava com problemas, os índios mais saudáveis e os mais hábeis caçadores abandonaram as suas famílias e foram para outras áreas. Portanto, a aldeia agora era composta, em sua maioria, por velhos, mulheres e crianças.

      O calor anunciava que choveria mais tarde, o abafamento da floresta confirmava as suspeitas que a índia tivera antes mesmo de sair da aldeia. A natureza tem dessas coisas, principalmente a floresta amazônica, onde os dias mais quentes e úmidos estão misticamente ligados a chuvas vespertinas. E os índios, grandes detentores desses saberes do homem primitivo, conseguem ler tais enigmas como ninguém.

      Ela chegou até uma mangueira, deixou seu cesto de palha e sua bolsa de folha de bananeira ao pé da árvore e a escalou. Subiu ligeiramente através dos galhos até achar um bom lugar para observar o céu. Sentou-se e comeu uma manga a analisar o horizonte e ver se alguma nuvem escura surgia de alguma direção. A chuva ainda vai demorar para se aproximar, então tenho um bom tempo para conseguir alguma coisa para a tribo, pensou enquanto comia e lambuzava-se com o sumo amarelo da manga a escorrer pelos dedos e pela boca. Em seguida, jogou o bagaço da fruta ao chão e pegou mais uma dúzia de mangas, alinhou-se na direção certa e as lançou lá de cima direto no cesto de palha para depois saltar da árvore e apanhar suas coisas.

      Novamente se embrenhou em meio à mata até encontrar seu esconderijo, um buraco oco numa árvore centenária, tão grande quanto os próprios deuses. Retirou seu arco feito de tucum e sua aljava de lá de dentro, ambos confeccionados por ela mesma, e os prendeu às costas, depois, enfiou o braço mais fundo para apanhar algumas flechas, beijou o seu muiraquitã preso ao pescoço e seguiu para a caçada.

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J. L. Silva
Vinde a mim os curumins

      A índia caminhava sorrateiramente entre as árvores da floresta. Seus pés, apesar de ágeis, possuíam uma leveza no pisar que nem mesmo o som das folhas secas e galhos se partindo poderiam ser ouvidos. Ela nunca esteve por aquela mata, desconhecia a região, contudo, esse era mais um dos seus passatempos: explorar áreas desconhecidas.

      Depois de certo tempo, começou a caminhar mais devagar, pois, a essa altura, com certeza, tinha conseguido despistar os dois curumins que a seguiam. Seus irmãos mais novos tinham essa mania de segui-la quando ela saía para catar frutas para a tribo. Mas a verdade é que eles sabiam as verdadeiras intenções da índia por trás dessa desculpa.

      A índia cultuava o hábito da caça, adorava se aventurar pelas matas. Entretanto, com o aumento da fome da aldeia, a caça passou a ser mais do que um dos seus hobbies, tornou-se uma questão de necessidade e sobrevivência. Isso porque sua tribo andava com problemas, os índios mais saudáveis e os mais hábeis caçadores abandonaram as suas famílias e foram para outras áreas. Portanto, a aldeia agora era composta, em sua maioria, por velhos, mulheres e crianças.

      O calor anunciava que choveria mais tarde, o abafamento da floresta confirmava as suspeitas que a índia tivera antes mesmo de sair da aldeia. A natureza tem dessas coisas, principalmente a floresta amazônica, onde os dias mais quentes e úmidos estão misticamente ligados a chuvas vespertinas. E os índios, grandes detentores desses saberes do homem primitivo, conseguem ler tais enigmas como ninguém.

      Ela chegou até uma mangueira, deixou seu cesto de palha e sua bolsa de folha de bananeira ao pé da árvore e a escalou. Subiu ligeiramente através dos galhos até achar um bom lugar para observar o céu. Sentou-se e comeu uma manga a analisar o horizonte e ver se alguma nuvem escura surgia de alguma direção. A chuva ainda vai demorar para se aproximar, então tenho um bom tempo para conseguir alguma coisa para a tribo, pensou enquanto comia e lambuzava-se com o sumo amarelo da manga a escorrer pelos dedos e pela boca. Em seguida, jogou o bagaço da fruta ao chão e pegou mais uma dúzia de mangas, alinhou-se na direção certa e as lançou lá de cima direto no cesto de palha para depois saltar da árvore e apanhar suas coisas.

      Novamente se embrenhou em meio à mata até encontrar seu esconderijo, um buraco oco numa árvore centenária, tão grande quanto os próprios deuses. Retirou seu arco feito de tucum e sua aljava de lá de dentro, ambos confeccionados por ela mesma, e os prendeu às costas, depois, enfiou o braço mais fundo para apanhar algumas flechas, beijou o seu muiraquitã preso ao pescoço e seguiu para a caçada.

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