A Aranha - Jean Souza
Jean Souza
Nascido em Salvador Bahia no início dos anos 80 Bast o transformou em gato por causa de uma aposta perdida o que ele adorou, condenado ao exílio do submundo escreve para poder passar o tempo na eternidade, lembra de sua vida como humano quando ouvia sludge metal, industrial e noise alisando seus gatos Adolfinho e Tina Turner. Pode ver as outras dimensões e dessas experiências tinge sua pena e começa a escrever, se inspira em Lautréamont, Gogól, Strindberg, Lovecraft, Augustos Dos Anjos, Balzac, Jack Kerauac e seres fantásticos como a alma atormentada de Barba Azul, as divindades Abbuto, Yebá Beló por exemplo, é uma nova entidade que não procura por riquezas ou títulos humanos, o que faz é apenas registro de mundos.





A Aranha

                                                                                       

                                                                                          “Quem diria Q’huma peninha Mataria Huma aranha Tamanha?! – Quem  adevinha?!”

                                                                                                        Qorpo-Santo

 

 

 

A feiura que está dentro de mim transbordou e tudo em volta se tornou feio. Vejo o vídeo da grande aranha em movimentos predatórios, o inseto encapsulado na teia e o sumo de vida sendo sorvido. No final, apenas a casca seca abandonada. Estou mergulhando no mar de lixo, excrementos humanos se misturam a fluidos de toda espécie de máquinas. Observo um grande pedaço de merda fumegante mergulhada na poça de óleo velho, dentro do supra corpo me sinto confortável, esse modelo pode ser antigo e apenas uma armadura barata, mas é com isso que me sinto bem.

 

 Faz semanas que estou nos esgotos me arrastando atrás de alguma preciosidade, qualquer componente que eu possa trocar por comida, não necessito de muito, apenas da ração de nutrientes para sobreviver. Só contei o tempo aqui em baixo durante três dias, e no último, encontrei ninhadas de ratos, desesperado pisei em milhares. O som do meu peso estalando e desmanchando seus corpos me deram prazer, mas o cheiro de sangue com esgoto me causa náusea. Mesmo assim foi o passatempo para o tédio e frustração, os amassava com os pés e às vezes com as mãos, pude ver centenas de olhinhos soltando dos buracos, olhinhos de vida simples que não imaginavam morrer tragicamente, imaginei várias estórias de vida, dei dignidade aos roedores… Nome, endereço, uma vida confortável, dava mais prazer estourar suas cabecinhas, pisá-los freneticamente, esmigalhar suas espinhas, estourar seus pulmõezinhos, amassar convulsivamente os coraçõezinhos. Puro prazer demente, mas logo cansei pela rotina que se tornaria eterna, só às vezes piso em um ou outro.

 

Atravessei correndo uma galeria, duas, três, quatro… em supervelocidade não parecia que estava saindo do lugar, então descobri um lugar onde existiam autônomos antigos que pareciam recentemente desativados, era o paraíso desatualizado, antiquíssimo, cheio de ferrugem e lodo. Poderia saciar a fome e quem sabe nunca mais trabalhar, eram centenas de androides e componentes. Alguma coisa, com certeza, poderia ser reutilizada. Quando estava revirando um modelo doméstico, algo estranhamente fantástico aconteceu. Havia uma mão de criança embaixo do corpo do androide, não só a mão, mas um corpo inteiro e com vida, era mais fascinante que as ninhadas que matei, era a possibilidade de um futuro bem melhor, vender humano de carne primitiva é garantia de ascensão social e créditos infinitos, ela andava e apontava para frente então comecei a segui-la.

 

A criança me guiava pelas galerias mofadas de ferrugem, excremento e lodo, às vezes parávamos esperando a maré baixar deixando mais restos orgânicos misturados à peças descartáveis, ondas traziam a inutilidade cotidiana, pedaços de androides domésticos, componentes eletrônicos descartáveis, capsulas de dejetos biológicos de toda espécie boiando nos esgotos. Ás vezes aos milhares, chocando-se e rompendo, mudando de várias cores o caldo imundo onde estávamos. Ela não falava, mas me guiava por caminhos que até então desconhecia, portões estranhos de um mundo ainda mais antigo que eu nem imaginava, escotilhas que esmigalhavam com um simples empurrão, esgotos com fedores diferentes, restos de máquinas que não faço ideia da utilidade, alguns cadáveres de humanoides, galerias extremamente escuras e cheias de insetos estranhos, uma infinidade de mundos no subsolo.

 

Chegamos onde ela queria e na minha frente uma escultura de touro segurando uma criança num ritual de imolação, era uma estátua mediana com proporções um pouco maiores que a de humanos, era de ferro antigo e muitas partes estavam enferrujadas, mas notava-se seu caráter sombrio e assassino. Tive a impressão de sentir o cheiro de sangue e parecia que emanava da escultura. A criança apontou para frente então iluminei o caminho, centenas de cadáveres, boa parte esmigalhada e o que sobravam dos corpos estavam cauterizados, não era uma simples chacina, percebi que era uma execução programada e que foi usado armamento pesado. A Corporação no subsolo tem outro tipo de conduta, lá em cima nos dopam com tecnologias descartáveis, trabalho inútil, objetos estranhos para comprarmos escravos moloides para prazeres hipócritas, mas aqui em baixo a Corporação deixa os miseráveis livres, procriando, roubando, matando e outras mazelas do mundo antigo para monitorar, fazer experimentos e quando enjoam, massacram para dar lugar às pragas urbanas e outros humanoides miseráveis como eu, que caça lixo pra sobreviver, que tem que alugar supra corpos obsoletos e de segunda mão e vive mais na escuridão imunda das galerias do que na cidade com o sol artificial brilhante mesmo que borrado às vezes.

 

Olhei para uma poça de esgoto que era iluminada pela única lâmpada funcionando na galeria e vi meu rosto sintético refletido e que se desfazia de segundos em segundos quando caíam gotas do teto, quando olhei para cima vi uma inscrição com grafia e desenho de um ser estranho e logo a frente uma bizarra estátua ao lado de outra, touros segurando uma criança como se fossem parti-la ao meio. Comecei a ouvir vozes que pareciam sussurros, vinham de muito longe, cheguei numa sala que tinha um monitor antigo ainda funcionando e com a imagem do símbolo da Corporação que hora mudava para frases de um alfabeto desconhecido. As vozes iam aumentando até que cheguei à sala onde o fedor de tudo que é imundo levitou até minhas narinas, é inenarrável o que brotava daquela sala, todos os sentidos estavam oprimidos, nem depois que desativei as sensações do meu corpo pude esquecer-me daquela primeira impressão, havia uma população de humanoides de carne, todos reunidos, uns de joelhos e outros em pé, reunidos num imenso poço que certamente era de onde o fedor impregnava o local. A criança apontou para frente, não entendi se ela estava feliz ou com medo, eu sabia que estava com medo, tudo ali me parecia hostil; a morte, a selvageria primitiva. Ela apontou para o poço que estava cheio de lodo pastoso, vi que muitos estavam tomando banho usando aquela substância, suas bocas de animais cantavam o que parecia uma coisa melancólica, eles sorriam nervosamente, alguns pulavam, a criança correu em direção ao poço.

 

 

Era um monstro meio aracnídeo meio parasita e sintético, de sua carne horrenda brotavam pústulas que estouravam, revelando no fundo, cabeças de humanos ou de autômatos. Ele saiu das profundezas do esgoto com a cabecinha meio humanoide de imensos olhos vermelhos e bocarra salivando a pasta pútrida. Parecia um tipo de ser que nasceu de milhares e milhares de cruzamentos com humanos, máquinas e aracnídeos, daquelas mutações causadas pelo abandono de máquinas criogênicas em qualquer lugar, coito pervertido entre tecnologia estranha, esgoto e humanos do submundo, todos dançavam convulsivos. A criatura despedaçou a criança, vi com clareza o estômago primitivo esfacelado jorrando sangue, todos na sala entraram em êxtase, a estátua de touro cresceu ainda mais e seus olhos ficaram da mesma cor da hedionda criatura, o bebê em suas mãos foi levado ao seu ventre com a fornalha em alta chama, mais dois humanoides despedaçados, suas cabeças foram arrancadas, a criatura estava de costas para mim e vi uma grande pústula estourar, parte do líquido fétido caiu em cima do meu supra corpo, papa fervilhante, era o líquido corpóreo do demônio que diziam vindos de antigas estórias. Fez-se um buraco enorme no lugar do abcesso e lá de dentro se formou o rosto sofrido da criança que a pouco havia sido destroçada, era um rosto mal e de sofrimento, era a forma mais completa do meu temor, uma das pernas da criatura estava fundida com metal de algum veículo abandonado há muito tempo, e quando se movia, arranhava o chão de forma irregular causando agonia, outra presa foi pega, ele sugou todo sumo de vida.

 

 

Não podia mais ficar naquela galeria, minha ganância perdeu para o instinto de sobrevivência. Não queria virar um pedaço de ser e nem passar minha vida toda pagando o seguro de reativação de vida, pago um seguro que deixa minha existência numa unidade remota, mas nunca se sabe se realmente voltamos mesmo ou se apenas pagamos por uma mentira, pode ser os dois ou pode ser o medo da morte, a morte ainda dói e não é divertida, meu plano de seguro de vida é dos mais baratos, então todo efeito colateral da morte será sentido.

 

 

 

Corri o máximo que pude, tinha esperança de escapar seguindo o mapa que criei, percorrendo o caminho que antes me era desconhecido. Mas logo descobri que estava num labirinto, todos os corredores ganharam nova configuração, fiquei tempos incontáveis andando em círculos e cada segundo estava congelado na eternidade da angústia. O meu maior medo poderia acontecer a qualquer momento, de ficar cara a cara com a bizarra criatura. As galerias pareciam ter encolhido e a cada passo e som de pisar nas poças de esgoto sendo o meu ou de qualquer coisa viva e inofensiva me causava dor violenta, não tinha nenhuma arma e nenhuma ideia de como sair do subsolo.

 

 

Apesar de usar o supra corpo, eu precisava dormir, talvez o medo e a fome que desativei tenham minado toda resistência que possuía, nem adiantava acelerar as sinapses cerebrais para suportar mais tempo, essa versão é apenas uma armadura e não um corpo sintético completo e ainda mais uma armadura de segunda mão, malmente posso armazenar minha identidade neural e energética para a unidade remota da empresa, o que poderia fazer era conseguir um lugar seguro para dormir umas cinco horas ou até menos. A exaustão estava tão intensa que ultrapassou o bloqueio senciente que eu vinha usando a não sei quanto tempo. Achei um buraco que só consegui caber dobrando as pernas, estava dentro de um útero pútrido e neurótico sem nenhum conforto característico que seres provetas possuem na fase de maturação.

 

 

Acordei sentindo dor nos braços e no rosto, era a vingança dos ratos, esses eram diferentes. Boa parte do supra corpo havia sido roída, vi seus olhinhos vermelhos injetados de ódio e parecia que eles sabiam que eu havia massacrado milhões de seus irmãos e não só pelo extermínio, mas também pelo requinte de crueldade. Senti ardor nas costas e agarrei um que covardemente me roía, senti sua respiraçãozinha atrás da orelha, outro raivoso roeu parte dela, desesperado esmaguei alguns com as duas mãos, eram milhares que estavam dividindo lugar comigo. Arrastei-me pelo chão a meio palmo de esgoto me banhado, o meu sangue sintético estava deixando rastro.

Quando consegui levantar, percebi o quão precário e andrajoso tinha me tornado, pude me ver mais uma vez refletido numa poça, não sei chorar, não sei sorrir, a única expressão que possuo é a indiferença, me vejo sublimado, sou quase um autônomo, a diferença é que suprimo os sentimentos, enquanto um modelo AI emula, não sei quem é mais real, eu ou eles, talvez eles sejam superiores, são escravos glamourizados que imitam algo que nos foi perdido e em comparação a isso aqui, lixo que cata lixo, lixo que se diferencia apenas por falar e se mover, não possuo o mesmo valor e não tenho nenhum tipo de função. A imitação muitas vezes supera e se adapta melhor que o original. Levanto sentindo ódio de mim mesmo em um gesto de auto piedade.

 

 

Vejo filetes de sangue fluir de minha mão e gotejar no esgoto e a fome esbofeteia o estômago, a energia do supra corpo está na reserva e estou cada vez mais pesado, sou um animal que aprisionado há muito tempo tem medo de escapar. Morrer, deixar de existir me parecia tentador como ganhar um banquete ou achar uma preciosidade no lixo, mas me rendi ao instinto de vida.

Ali mesmo onde estava me livrei do resto da carapaça de metal e componentes de bioplásticos, era meu outro eu ali descarnado, montei os restos e fiquei encarando aquele receptáculo maior e melhor que eu, olhei para aquela máscara de aço e os olhos piscando vermelho. Comparei-me, mesmo a armadura estando velha e decadente, estava em melhores condições que meu corpo debilitado cheio de feridas que futuramente estariam purulentas. Dei o último adeus para aquele eu que até então representava conforto e liberdade.

 

 

 

 

 

Abandonei minha carcaça com certo sentimento de culpa, arrastei-me pelos corredores, salivando e tremendo de fome. Como desejei encontrar algum rato e despedaçá-lo com os dentes, queria muito saciar as dores e ruídos do estômago, como meu salivar descontrolado se parecia por demais com o gotejar do esgoto, me senti mais miserável inalando o seu fedor, o suor escorria às vezes tampando a visão e aumentando toda a tensão e infinito desprezo que sentia de minha vida naquele momento, mas tudo é passageiro, até mesmo a morte e o sofrimento. Eu estava contemplando o êxtase do silêncio que às vezes a mente é absorvida para esquecer as dores físicas, ajoelhei e desmaiei, enfiando a cara no esgoto, inconsciente, bebi e inalei o sumo das galerias.

Quando despertei estava numa cama improvisada com algum modelo antigo de planador que não mais levitava, senti a pele sendo tocada por cobertores de tecido que o corpo desconhecia, esse mundo antigo me trazia sensações contraditórias e isso me incomodava… gemi e desmaiei. Outra vez abri os olhos e um deles estava perto de mim oferecendo comprimidos alimentares, alguns embolorados. Fez sinal pra eu raspar e fiz vorazmente, as pílulas são péssimas para engolir e o gosto inicial é amargo, engoli. Não era alimento normal, tinha substâncias que me doparam e tive uma viagem, pequenas aranhas apareciam aos montes e formou a criatura dos meus pesadelos, os rostos distorcidos e derretidos, autônomo antigo dentro daquela coisa imunda juntos a cabeças humanoides em desespero me olhava e abria a boca para me engolir. Eu estava lá dentro da criatura e era ela, minha cara igual à deles distorcida num sonho patético, eu envelhecia como monstro, dissecava, minhas presas bebendo o sulco dos corpos, retalhava e tinha que controlar as milhões de personas que assimilava uma besta envelhecendo até a morte com as patas aracnídeas entortando convulsivamente nos espasmos da morte, virando um bolo gigante de carne estranha e olhos opacos. A estátua de touro apareceu mais imensa e perversa me tragando para dentro, eu ardia desfazendo-me em poeira que flutuava no miasma gelado e solitário onde os fragmentos caíam nos esgotos e boiavam lentamente. Despertei do transe narcoléptico, agora estava amarrado tossindo, mas alimentado, essas pílulas nos deixam saciados durante dias.

 

 

Senti imenso frio, algo que tinha perdido costume, os ossos doeram e os espasmos musculares drenavam meus pensamentos e força, tinha um copo com um líquido quente ao meu lado, mesmo tremendo, respirando e sorvendo o ar gelado, despejei o líquido fervente pela garganta, voltar a me acostumar com a carne do meu corpo só tinha um prazer que era o alívio das dores. Passei muito tempo dormindo e não entendia porque estava ali sendo cuidado, quando melhorei, comecei a acompanhá-los em alguns setores da galeria onde habitavam e não havia muita coisa diferente a não ser a arquitetura arcaica e símbolos estranhos, éramos iluminados pelo branco irritante de lâmpadas com energia moto perpétua defeituosa, às vezes tudo ficava nítido dando para ver todo detalhe degradante de onde estávamos e de repente cegueira branca e escuridão, tudo muito aleatório. Certa vez antes da explosão de luz, percebi que esses humanoides de carne primitiva tinham a pele cinzenta, olhos avermelhados e rostos pálidos… Eram como ratos.

Não nos comunicávamos e eles me deixavam a vontade. Até o dia que um deles chegou até mim e com entonação de voz que eu poderia chamar de hostil, me arrastou pelo braço. Não pude fazer nada a não ser ir com ele.

 

 

Havia uma fonte muito parecida como aquela que brotou a criatura horrenda, o medo sem o supra corpo me paralisa, eles começam a gritar, se aproximam do lago, com uma espécie de prato feito com resto de alguma peça pesada de metal, provavelmente parte de algum mecanismo antigo de aero móvel, mergulham e colhem uma gosma estranha, agora claramente vejo o que tem no lago, eles me oferecem e eu recuso, todos eles gritam de euforia e bebem.

 

 

Percebo que eles são viciados, essa papa é uma versão antiga de Imortalidade com prazo de validade vencida, percebo pelo símbolo e em volta da piscina de gosma posso entender o que está escrito, muito mal consigo ler que é um produto altamente viciante e corrosivo, eles estão condenados, talvez pela escassez de alimento tenham sido forçados a ingerirem veneno, entendo todo sonho estranho que tive, eles misturaram as pílulas à essa coisa. Dançam alucinados, e a luz explode causando cegueira branca.

 

 

Antes de voltar a enxergar, ouvi gritos e sons metálicos, estávamos sendo massacrados aos poucos. Como num pesadelo colorido, as formas dos objetos e humanoides foram retornando em seu caráter horroroso de morte, havia pedaços deles por todo lado, canhões disparavam sem parar de forma aleatória, um pedaço de humanoide estava debaixo de um mecanismo de defesa, apesar de estarmos numa galeria antiga, os mecanismos de defesa ainda funcionam, são os melhores produtos da Corporação, nada funciona direito a não ser os mecanismos de morte. Meu braço esquerdo toca no inferno fervilhando, tento gritar e a voz não sai, meu braço foi pulverizado.

 

 

Contorço-me de dor, estou babando desesperado. Antes da cegueira branca pude observar vários canhões disparando energia em nossa direção, humanoides sendo desintegrados inteiros ou parcialmente. Fui dos poucos a estar vivo e por pouco tempo. Perdi a esperança e a vontade prima de sobrevivência. Quando o clarão branco passou, ainda vivo, fui capturado por um autônomo que usava a própria estrutura do seu corpo como prisão, estava enjaulado no seu ventre artificial e das paredes de seu intestino prisão saíram agulhas escorrendo o líquido que eu já conhecia o cheiro, fui espetado por quase todo corpo, até mesmo nos olhos. Sentido dor nos olhos e cego, fui jogado de volta ao mundo do subsolo, caindo parido pela máquina, me tornei um natimorto para os humanoides, mas nem autônomo eu era.

 

 

Em algumas horas minha visão retornou e já sabia que era igual aos moradores dessa galeria, vermelho como os ratos e por mais algum tempo a dor do braço tinha se intensificado, então descobri a glória e o horror de mim mesmo, nasceu um novo braço. Encontrei a galeria dos que me ajudaram.

 

 

Agora posso entender o que eles falam, ouvi relatos quase religiosos de uma criatura monstruosa que vaga pelas galerias abandonadas, imortal e extremamente violenta, alguns me disseram que era um tipo de guarda que protegia algum setor que a Corporação possui experimentos militares, já outros me disseram que não era apenas um monstro, mas várias mutações causadas pelo abandono de máquinas criogênicas, muitos não limpavam nem jogavam seus dejetos no lixo apropriado, fiquei com medo de narrar minha última aventura, mas como me olhavam, provavelmente já sabiam o que estava dentro de mim.

 

 

Notei que meu apetite estava mudando e a percepção que tinha dos meus novos companheiros, começava a olhá-los como alimento, evitei ingerir as pílulas e me isolei de todos. Nesses dias tive vários pesadelos, eu era a estranha criatura que devoraria a todos e nasceriam todos deformados na minha carne.

 

Só haviam duas saídas: Aceitar o que me tornara ou o suicídio. E torcer para ser ressuscitado e dessa vez o seguro me dar um corpo descente e a Corporação um emprego melhor que esse. Não quero que eles ganhem dessa vez, não posso ser indiferente. Apesar de estar no subsolo e com criaturas estranhas, somos todos humanoides tentando sobreviver da melhor forma possível. Descobri que eles tinham um pequeno arsenal de armas de energia e nem ao menos sabiam a serventia, tentei explicar, mas eles não se importaram. Eram um tipo muito ingênuo de pacifistas, não entendia como no maior dos horrores eles não se defendiam e nem ao menos esboçavam raiva ou sentimento de preservação, tinha tomado a decisão.

 

 

Estava só observando meu novo eu refletido numa placa de metal, estava irregular e bastante esticado no reflexo, peguei a arma e apontei para a cabeça, a ideia mais sedutora de toda minha existência, saberia, por fim, se o seguro funcionaria. Apertei o gatilho e desintegrei meu crânio, pude ver a mim mesmo com a cabeça esmigalhada e todo sangue e massa encefálica que se espalhou em jatadas vermelhas, que logo se tornariam roxas assim que o plasma se separasse do sangue. Por fim retornei a vida com emprego diferente, ganho menos operando máquina de tele transporte, mas sempre com essas lembranças que não sei se é delírio ou uma realidade que neguei por um altruísmo que não sinto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Souza
A Aranha

                                                                                       

                                                                                          “Quem diria Q’huma peninha Mataria Huma aranha Tamanha?! – Quem  adevinha?!”

                                                                                                        Qorpo-Santo

 

 

 

A feiura que está dentro de mim transbordou e tudo em volta se tornou feio. Vejo o vídeo da grande aranha em movimentos predatórios, o inseto encapsulado na teia e o sumo de vida sendo sorvido. No final, apenas a casca seca abandonada. Estou mergulhando no mar de lixo, excrementos humanos se misturam a fluidos de toda espécie de máquinas. Observo um grande pedaço de merda fumegante mergulhada na poça de óleo velho, dentro do supra corpo me sinto confortável, esse modelo pode ser antigo e apenas uma armadura barata, mas é com isso que me sinto bem.

 

 Faz semanas que estou nos esgotos me arrastando atrás de alguma preciosidade, qualquer componente que eu possa trocar por comida, não necessito de muito, apenas da ração de nutrientes para sobreviver. Só contei o tempo aqui em baixo durante três dias, e no último, encontrei ninhadas de ratos, desesperado pisei em milhares. O som do meu peso estalando e desmanchando seus corpos me deram prazer, mas o cheiro de sangue com esgoto me causa náusea. Mesmo assim foi o passatempo para o tédio e frustração, os amassava com os pés e às vezes com as mãos, pude ver centenas de olhinhos soltando dos buracos, olhinhos de vida simples que não imaginavam morrer tragicamente, imaginei várias estórias de vida, dei dignidade aos roedores… Nome, endereço, uma vida confortável, dava mais prazer estourar suas cabecinhas, pisá-los freneticamente, esmigalhar suas espinhas, estourar seus pulmõezinhos, amassar convulsivamente os coraçõezinhos. Puro prazer demente, mas logo cansei pela rotina que se tornaria eterna, só às vezes piso em um ou outro.

 

Atravessei correndo uma galeria, duas, três, quatro… em supervelocidade não parecia que estava saindo do lugar, então descobri um lugar onde existiam autônomos antigos que pareciam recentemente desativados, era o paraíso desatualizado, antiquíssimo, cheio de ferrugem e lodo. Poderia saciar a fome e quem sabe nunca mais trabalhar, eram centenas de androides e componentes. Alguma coisa, com certeza, poderia ser reutilizada. Quando estava revirando um modelo doméstico, algo estranhamente fantástico aconteceu. Havia uma mão de criança embaixo do corpo do androide, não só a mão, mas um corpo inteiro e com vida, era mais fascinante que as ninhadas que matei, era a possibilidade de um futuro bem melhor, vender humano de carne primitiva é garantia de ascensão social e créditos infinitos, ela andava e apontava para frente então comecei a segui-la.

 

A criança me guiava pelas galerias mofadas de ferrugem, excremento e lodo, às vezes parávamos esperando a maré baixar deixando mais restos orgânicos misturados à peças descartáveis, ondas traziam a inutilidade cotidiana, pedaços de androides domésticos, componentes eletrônicos descartáveis, capsulas de dejetos biológicos de toda espécie boiando nos esgotos. Ás vezes aos milhares, chocando-se e rompendo, mudando de várias cores o caldo imundo onde estávamos. Ela não falava, mas me guiava por caminhos que até então desconhecia, portões estranhos de um mundo ainda mais antigo que eu nem imaginava, escotilhas que esmigalhavam com um simples empurrão, esgotos com fedores diferentes, restos de máquinas que não faço ideia da utilidade, alguns cadáveres de humanoides, galerias extremamente escuras e cheias de insetos estranhos, uma infinidade de mundos no subsolo.

 

Chegamos onde ela queria e na minha frente uma escultura de touro segurando uma criança num ritual de imolação, era uma estátua mediana com proporções um pouco maiores que a de humanos, era de ferro antigo e muitas partes estavam enferrujadas, mas notava-se seu caráter sombrio e assassino. Tive a impressão de sentir o cheiro de sangue e parecia que emanava da escultura. A criança apontou para frente então iluminei o caminho, centenas de cadáveres, boa parte esmigalhada e o que sobravam dos corpos estavam cauterizados, não era uma simples chacina, percebi que era uma execução programada e que foi usado armamento pesado. A Corporação no subsolo tem outro tipo de conduta, lá em cima nos dopam com tecnologias descartáveis, trabalho inútil, objetos estranhos para comprarmos escravos moloides para prazeres hipócritas, mas aqui em baixo a Corporação deixa os miseráveis livres, procriando, roubando, matando e outras mazelas do mundo antigo para monitorar, fazer experimentos e quando enjoam, massacram para dar lugar às pragas urbanas e outros humanoides miseráveis como eu, que caça lixo pra sobreviver, que tem que alugar supra corpos obsoletos e de segunda mão e vive mais na escuridão imunda das galerias do que na cidade com o sol artificial brilhante mesmo que borrado às vezes.

 

Olhei para uma poça de esgoto que era iluminada pela única lâmpada funcionando na galeria e vi meu rosto sintético refletido e que se desfazia de segundos em segundos quando caíam gotas do teto, quando olhei para cima vi uma inscrição com grafia e desenho de um ser estranho e logo a frente uma bizarra estátua ao lado de outra, touros segurando uma criança como se fossem parti-la ao meio. Comecei a ouvir vozes que pareciam sussurros, vinham de muito longe, cheguei numa sala que tinha um monitor antigo ainda funcionando e com a imagem do símbolo da Corporação que hora mudava para frases de um alfabeto desconhecido. As vozes iam aumentando até que cheguei à sala onde o fedor de tudo que é imundo levitou até minhas narinas, é inenarrável o que brotava daquela sala, todos os sentidos estavam oprimidos, nem depois que desativei as sensações do meu corpo pude esquecer-me daquela primeira impressão, havia uma população de humanoides de carne, todos reunidos, uns de joelhos e outros em pé, reunidos num imenso poço que certamente era de onde o fedor impregnava o local. A criança apontou para frente, não entendi se ela estava feliz ou com medo, eu sabia que estava com medo, tudo ali me parecia hostil; a morte, a selvageria primitiva. Ela apontou para o poço que estava cheio de lodo pastoso, vi que muitos estavam tomando banho usando aquela substância, suas bocas de animais cantavam o que parecia uma coisa melancólica, eles sorriam nervosamente, alguns pulavam, a criança correu em direção ao poço.

 

 

Era um monstro meio aracnídeo meio parasita e sintético, de sua carne horrenda brotavam pústulas que estouravam, revelando no fundo, cabeças de humanos ou de autômatos. Ele saiu das profundezas do esgoto com a cabecinha meio humanoide de imensos olhos vermelhos e bocarra salivando a pasta pútrida. Parecia um tipo de ser que nasceu de milhares e milhares de cruzamentos com humanos, máquinas e aracnídeos, daquelas mutações causadas pelo abandono de máquinas criogênicas em qualquer lugar, coito pervertido entre tecnologia estranha, esgoto e humanos do submundo, todos dançavam convulsivos. A criatura despedaçou a criança, vi com clareza o estômago primitivo esfacelado jorrando sangue, todos na sala entraram em êxtase, a estátua de touro cresceu ainda mais e seus olhos ficaram da mesma cor da hedionda criatura, o bebê em suas mãos foi levado ao seu ventre com a fornalha em alta chama, mais dois humanoides despedaçados, suas cabeças foram arrancadas, a criatura estava de costas para mim e vi uma grande pústula estourar, parte do líquido fétido caiu em cima do meu supra corpo, papa fervilhante, era o líquido corpóreo do demônio que diziam vindos de antigas estórias. Fez-se um buraco enorme no lugar do abcesso e lá de dentro se formou o rosto sofrido da criança que a pouco havia sido destroçada, era um rosto mal e de sofrimento, era a forma mais completa do meu temor, uma das pernas da criatura estava fundida com metal de algum veículo abandonado há muito tempo, e quando se movia, arranhava o chão de forma irregular causando agonia, outra presa foi pega, ele sugou todo sumo de vida.

 

 

Não podia mais ficar naquela galeria, minha ganância perdeu para o instinto de sobrevivência. Não queria virar um pedaço de ser e nem passar minha vida toda pagando o seguro de reativação de vida, pago um seguro que deixa minha existência numa unidade remota, mas nunca se sabe se realmente voltamos mesmo ou se apenas pagamos por uma mentira, pode ser os dois ou pode ser o medo da morte, a morte ainda dói e não é divertida, meu plano de seguro de vida é dos mais baratos, então todo efeito colateral da morte será sentido.

 

 

 

Corri o máximo que pude, tinha esperança de escapar seguindo o mapa que criei, percorrendo o caminho que antes me era desconhecido. Mas logo descobri que estava num labirinto, todos os corredores ganharam nova configuração, fiquei tempos incontáveis andando em círculos e cada segundo estava congelado na eternidade da angústia. O meu maior medo poderia acontecer a qualquer momento, de ficar cara a cara com a bizarra criatura. As galerias pareciam ter encolhido e a cada passo e som de pisar nas poças de esgoto sendo o meu ou de qualquer coisa viva e inofensiva me causava dor violenta, não tinha nenhuma arma e nenhuma ideia de como sair do subsolo.

 

 

Apesar de usar o supra corpo, eu precisava dormir, talvez o medo e a fome que desativei tenham minado toda resistência que possuía, nem adiantava acelerar as sinapses cerebrais para suportar mais tempo, essa versão é apenas uma armadura e não um corpo sintético completo e ainda mais uma armadura de segunda mão, malmente posso armazenar minha identidade neural e energética para a unidade remota da empresa, o que poderia fazer era conseguir um lugar seguro para dormir umas cinco horas ou até menos. A exaustão estava tão intensa que ultrapassou o bloqueio senciente que eu vinha usando a não sei quanto tempo. Achei um buraco que só consegui caber dobrando as pernas, estava dentro de um útero pútrido e neurótico sem nenhum conforto característico que seres provetas possuem na fase de maturação.

 

 

Acordei sentindo dor nos braços e no rosto, era a vingança dos ratos, esses eram diferentes. Boa parte do supra corpo havia sido roída, vi seus olhinhos vermelhos injetados de ódio e parecia que eles sabiam que eu havia massacrado milhões de seus irmãos e não só pelo extermínio, mas também pelo requinte de crueldade. Senti ardor nas costas e agarrei um que covardemente me roía, senti sua respiraçãozinha atrás da orelha, outro raivoso roeu parte dela, desesperado esmaguei alguns com as duas mãos, eram milhares que estavam dividindo lugar comigo. Arrastei-me pelo chão a meio palmo de esgoto me banhado, o meu sangue sintético estava deixando rastro.

Quando consegui levantar, percebi o quão precário e andrajoso tinha me tornado, pude me ver mais uma vez refletido numa poça, não sei chorar, não sei sorrir, a única expressão que possuo é a indiferença, me vejo sublimado, sou quase um autônomo, a diferença é que suprimo os sentimentos, enquanto um modelo AI emula, não sei quem é mais real, eu ou eles, talvez eles sejam superiores, são escravos glamourizados que imitam algo que nos foi perdido e em comparação a isso aqui, lixo que cata lixo, lixo que se diferencia apenas por falar e se mover, não possuo o mesmo valor e não tenho nenhum tipo de função. A imitação muitas vezes supera e se adapta melhor que o original. Levanto sentindo ódio de mim mesmo em um gesto de auto piedade.

 

 

Vejo filetes de sangue fluir de minha mão e gotejar no esgoto e a fome esbofeteia o estômago, a energia do supra corpo está na reserva e estou cada vez mais pesado, sou um animal que aprisionado há muito tempo tem medo de escapar. Morrer, deixar de existir me parecia tentador como ganhar um banquete ou achar uma preciosidade no lixo, mas me rendi ao instinto de vida.

Ali mesmo onde estava me livrei do resto da carapaça de metal e componentes de bioplásticos, era meu outro eu ali descarnado, montei os restos e fiquei encarando aquele receptáculo maior e melhor que eu, olhei para aquela máscara de aço e os olhos piscando vermelho. Comparei-me, mesmo a armadura estando velha e decadente, estava em melhores condições que meu corpo debilitado cheio de feridas que futuramente estariam purulentas. Dei o último adeus para aquele eu que até então representava conforto e liberdade.

 

 

 

 

 

Abandonei minha carcaça com certo sentimento de culpa, arrastei-me pelos corredores, salivando e tremendo de fome. Como desejei encontrar algum rato e despedaçá-lo com os dentes, queria muito saciar as dores e ruídos do estômago, como meu salivar descontrolado se parecia por demais com o gotejar do esgoto, me senti mais miserável inalando o seu fedor, o suor escorria às vezes tampando a visão e aumentando toda a tensão e infinito desprezo que sentia de minha vida naquele momento, mas tudo é passageiro, até mesmo a morte e o sofrimento. Eu estava contemplando o êxtase do silêncio que às vezes a mente é absorvida para esquecer as dores físicas, ajoelhei e desmaiei, enfiando a cara no esgoto, inconsciente, bebi e inalei o sumo das galerias.

Quando despertei estava numa cama improvisada com algum modelo antigo de planador que não mais levitava, senti a pele sendo tocada por cobertores de tecido que o corpo desconhecia, esse mundo antigo me trazia sensações contraditórias e isso me incomodava… gemi e desmaiei. Outra vez abri os olhos e um deles estava perto de mim oferecendo comprimidos alimentares, alguns embolorados. Fez sinal pra eu raspar e fiz vorazmente, as pílulas são péssimas para engolir e o gosto inicial é amargo, engoli. Não era alimento normal, tinha substâncias que me doparam e tive uma viagem, pequenas aranhas apareciam aos montes e formou a criatura dos meus pesadelos, os rostos distorcidos e derretidos, autônomo antigo dentro daquela coisa imunda juntos a cabeças humanoides em desespero me olhava e abria a boca para me engolir. Eu estava lá dentro da criatura e era ela, minha cara igual à deles distorcida num sonho patético, eu envelhecia como monstro, dissecava, minhas presas bebendo o sulco dos corpos, retalhava e tinha que controlar as milhões de personas que assimilava uma besta envelhecendo até a morte com as patas aracnídeas entortando convulsivamente nos espasmos da morte, virando um bolo gigante de carne estranha e olhos opacos. A estátua de touro apareceu mais imensa e perversa me tragando para dentro, eu ardia desfazendo-me em poeira que flutuava no miasma gelado e solitário onde os fragmentos caíam nos esgotos e boiavam lentamente. Despertei do transe narcoléptico, agora estava amarrado tossindo, mas alimentado, essas pílulas nos deixam saciados durante dias.

 

 

Senti imenso frio, algo que tinha perdido costume, os ossos doeram e os espasmos musculares drenavam meus pensamentos e força, tinha um copo com um líquido quente ao meu lado, mesmo tremendo, respirando e sorvendo o ar gelado, despejei o líquido fervente pela garganta, voltar a me acostumar com a carne do meu corpo só tinha um prazer que era o alívio das dores. Passei muito tempo dormindo e não entendia porque estava ali sendo cuidado, quando melhorei, comecei a acompanhá-los em alguns setores da galeria onde habitavam e não havia muita coisa diferente a não ser a arquitetura arcaica e símbolos estranhos, éramos iluminados pelo branco irritante de lâmpadas com energia moto perpétua defeituosa, às vezes tudo ficava nítido dando para ver todo detalhe degradante de onde estávamos e de repente cegueira branca e escuridão, tudo muito aleatório. Certa vez antes da explosão de luz, percebi que esses humanoides de carne primitiva tinham a pele cinzenta, olhos avermelhados e rostos pálidos… Eram como ratos.

Não nos comunicávamos e eles me deixavam a vontade. Até o dia que um deles chegou até mim e com entonação de voz que eu poderia chamar de hostil, me arrastou pelo braço. Não pude fazer nada a não ser ir com ele.

 

 

Havia uma fonte muito parecida como aquela que brotou a criatura horrenda, o medo sem o supra corpo me paralisa, eles começam a gritar, se aproximam do lago, com uma espécie de prato feito com resto de alguma peça pesada de metal, provavelmente parte de algum mecanismo antigo de aero móvel, mergulham e colhem uma gosma estranha, agora claramente vejo o que tem no lago, eles me oferecem e eu recuso, todos eles gritam de euforia e bebem.

 

 

Percebo que eles são viciados, essa papa é uma versão antiga de Imortalidade com prazo de validade vencida, percebo pelo símbolo e em volta da piscina de gosma posso entender o que está escrito, muito mal consigo ler que é um produto altamente viciante e corrosivo, eles estão condenados, talvez pela escassez de alimento tenham sido forçados a ingerirem veneno, entendo todo sonho estranho que tive, eles misturaram as pílulas à essa coisa. Dançam alucinados, e a luz explode causando cegueira branca.

 

 

Antes de voltar a enxergar, ouvi gritos e sons metálicos, estávamos sendo massacrados aos poucos. Como num pesadelo colorido, as formas dos objetos e humanoides foram retornando em seu caráter horroroso de morte, havia pedaços deles por todo lado, canhões disparavam sem parar de forma aleatória, um pedaço de humanoide estava debaixo de um mecanismo de defesa, apesar de estarmos numa galeria antiga, os mecanismos de defesa ainda funcionam, são os melhores produtos da Corporação, nada funciona direito a não ser os mecanismos de morte. Meu braço esquerdo toca no inferno fervilhando, tento gritar e a voz não sai, meu braço foi pulverizado.

 

 

Contorço-me de dor, estou babando desesperado. Antes da cegueira branca pude observar vários canhões disparando energia em nossa direção, humanoides sendo desintegrados inteiros ou parcialmente. Fui dos poucos a estar vivo e por pouco tempo. Perdi a esperança e a vontade prima de sobrevivência. Quando o clarão branco passou, ainda vivo, fui capturado por um autônomo que usava a própria estrutura do seu corpo como prisão, estava enjaulado no seu ventre artificial e das paredes de seu intestino prisão saíram agulhas escorrendo o líquido que eu já conhecia o cheiro, fui espetado por quase todo corpo, até mesmo nos olhos. Sentido dor nos olhos e cego, fui jogado de volta ao mundo do subsolo, caindo parido pela máquina, me tornei um natimorto para os humanoides, mas nem autônomo eu era.

 

 

Em algumas horas minha visão retornou e já sabia que era igual aos moradores dessa galeria, vermelho como os ratos e por mais algum tempo a dor do braço tinha se intensificado, então descobri a glória e o horror de mim mesmo, nasceu um novo braço. Encontrei a galeria dos que me ajudaram.

 

 

Agora posso entender o que eles falam, ouvi relatos quase religiosos de uma criatura monstruosa que vaga pelas galerias abandonadas, imortal e extremamente violenta, alguns me disseram que era um tipo de guarda que protegia algum setor que a Corporação possui experimentos militares, já outros me disseram que não era apenas um monstro, mas várias mutações causadas pelo abandono de máquinas criogênicas, muitos não limpavam nem jogavam seus dejetos no lixo apropriado, fiquei com medo de narrar minha última aventura, mas como me olhavam, provavelmente já sabiam o que estava dentro de mim.

 

 

Notei que meu apetite estava mudando e a percepção que tinha dos meus novos companheiros, começava a olhá-los como alimento, evitei ingerir as pílulas e me isolei de todos. Nesses dias tive vários pesadelos, eu era a estranha criatura que devoraria a todos e nasceriam todos deformados na minha carne.

 

Só haviam duas saídas: Aceitar o que me tornara ou o suicídio. E torcer para ser ressuscitado e dessa vez o seguro me dar um corpo descente e a Corporação um emprego melhor que esse. Não quero que eles ganhem dessa vez, não posso ser indiferente. Apesar de estar no subsolo e com criaturas estranhas, somos todos humanoides tentando sobreviver da melhor forma possível. Descobri que eles tinham um pequeno arsenal de armas de energia e nem ao menos sabiam a serventia, tentei explicar, mas eles não se importaram. Eram um tipo muito ingênuo de pacifistas, não entendia como no maior dos horrores eles não se defendiam e nem ao menos esboçavam raiva ou sentimento de preservação, tinha tomado a decisão.

 

 

Estava só observando meu novo eu refletido numa placa de metal, estava irregular e bastante esticado no reflexo, peguei a arma e apontei para a cabeça, a ideia mais sedutora de toda minha existência, saberia, por fim, se o seguro funcionaria. Apertei o gatilho e desintegrei meu crânio, pude ver a mim mesmo com a cabeça esmigalhada e todo sangue e massa encefálica que se espalhou em jatadas vermelhas, que logo se tornariam roxas assim que o plasma se separasse do sangue. Por fim retornei a vida com emprego diferente, ganho menos operando máquina de tele transporte, mas sempre com essas lembranças que não sei se é delírio ou uma realidade que neguei por um altruísmo que não sinto.