O avarento que vomitava moedas de ouro - Jean Souza
Jean Souza
Nascido em Salvador Bahia no início dos anos 80 Bast o transformou em gato por causa de uma aposta perdida o que ele adorou, condenado ao exílio do submundo escreve para poder passar o tempo na eternidade, lembra de sua vida como humano quando ouvia sludge metal, industrial e noise alisando seus gatos Adolfinho e Tina Turner. Pode ver as outras dimensões e dessas experiências tinge sua pena e começa a escrever, se inspira em Lautréamont, Gogól, Strindberg, Lovecraft, Augustos Dos Anjos, Balzac, Jack Kerauac e seres fantásticos como a alma atormentada de Barba Azul, as divindades Abbuto, Yebá Beló por exemplo, é uma nova entidade que não procura por riquezas ou títulos humanos, o que faz é apenas registro de mundos.





O avarento que vomitava moedas de ouro

Tentava ver o futuro sem o marido e só sentia o vazio do escravo liberto que de tanto apanhar não sabe sentir outra coisa além de medo e dor. Ela não tinha como se sustentar.

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Depois de comer até quase explodir cochilou perdendo o momento que teria sua vingancinha semanal que era de chegar na casa do irmão no horário de almoço e mesmo engulhando a papa verde comia e repetia só pra ver a cara vermelha ficar roxa, mas hoje não tinha importância teria seus milhões de volta teria a dignidade restaurada, seria homem outra vez de qualquer jeito, de qualquer jeito. Repetiu a frase gritando quase soluçando não aguentava mais a falta dos prazeres: uísque, mulheres, carros, viagens, hotéis de luxo, todo o poder que uma fortuna oferece, mas principalmente os lacaios que fingem idolatria e massageiam o ego com mentiras que serve pra autoestima, sentia falta de falar qualquer frase e todos silenciarem pra escutar as sabedorias, o sorriso congelado e plastificado quando o viam passear por qualquer lugar com suas roupas luxuosas, o aperto de mão falso e necessário dos colegas de profissão que se contentavam até com seus abusos de poder, os sorrisos congelados e petrificados das mulheres que levou pra cama e nem sentiam ao menos o prazer de sua companhia, muitas colegas de trabalho querendo promoção, o poder de desdenhar dos homens e humilhar os mais fracos, o sorriso congelado e plastificado de alguém que recebia uma esmola, gorjeta ou propina, sentia falta de todas as portas da felicidade abertas. Era hoje ou nunca o retorno a vida.

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O escritório estava em completa desordem, havia um mar de papel na mesinha, só havia um papel intacto que possuía cálculos de matemática financeira, o computador ligado dava luminosidade viva, porém melancólica, gráficos com setas pra baixo de várias cores e incontáveis números negativos queimavam sua retina, estava falido, como? Sempre economizou e aprendeu tudo sobre o negócio, há vinte anos domina todo mercado, esse computador mente. Tentou se acalmar, pensou em todas as hipóteses de salvação e nenhuma era possível, poderia admitir falência, não pagar os funcionários e a justiça ajudaria, mas não poderia voltar, não seria pobrezinho, mas perderia quase sessenta por cento de todo patrimônio, isso não!!! Ficou roxo e depois pálido, abriu a gaveta e tirou uma garrafa de uísque, nem usou o copo, deu uma tragada com força pra matar a sede, não havia nada a ser feito e chorou feito um bebe sem o peito da mãe ou um viciado de crack que tomaram a força seu único meio de satisfação, deu outro gole e outro e mais outro, outro gole até deixar a garrafa pela metade. A sala girava, mas a sensação de perda não fugia, tentou dar outro gole, estava enjoado demais pra isso e dormiu, a garrafa caiu no chão molhando o caro sapato marrom, adormeceu batendo com força a cara na mesinha partindo os lábios gananciosos.

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Jean Souza
O avarento que vomitava moedas de ouro

Tentava ver o futuro sem o marido e só sentia o vazio do escravo liberto que de tanto apanhar não sabe sentir outra coisa além de medo e dor. Ela não tinha como se sustentar.

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Depois de comer até quase explodir cochilou perdendo o momento que teria sua vingancinha semanal que era de chegar na casa do irmão no horário de almoço e mesmo engulhando a papa verde comia e repetia só pra ver a cara vermelha ficar roxa, mas hoje não tinha importância teria seus milhões de volta teria a dignidade restaurada, seria homem outra vez de qualquer jeito, de qualquer jeito. Repetiu a frase gritando quase soluçando não aguentava mais a falta dos prazeres: uísque, mulheres, carros, viagens, hotéis de luxo, todo o poder que uma fortuna oferece, mas principalmente os lacaios que fingem idolatria e massageiam o ego com mentiras que serve pra autoestima, sentia falta de falar qualquer frase e todos silenciarem pra escutar as sabedorias, o sorriso congelado e plastificado quando o viam passear por qualquer lugar com suas roupas luxuosas, o aperto de mão falso e necessário dos colegas de profissão que se contentavam até com seus abusos de poder, os sorrisos congelados e petrificados das mulheres que levou pra cama e nem sentiam ao menos o prazer de sua companhia, muitas colegas de trabalho querendo promoção, o poder de desdenhar dos homens e humilhar os mais fracos, o sorriso congelado e plastificado de alguém que recebia uma esmola, gorjeta ou propina, sentia falta de todas as portas da felicidade abertas. Era hoje ou nunca o retorno a vida.

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O escritório estava em completa desordem, havia um mar de papel na mesinha, só havia um papel intacto que possuía cálculos de matemática financeira, o computador ligado dava luminosidade viva, porém melancólica, gráficos com setas pra baixo de várias cores e incontáveis números negativos queimavam sua retina, estava falido, como? Sempre economizou e aprendeu tudo sobre o negócio, há vinte anos domina todo mercado, esse computador mente. Tentou se acalmar, pensou em todas as hipóteses de salvação e nenhuma era possível, poderia admitir falência, não pagar os funcionários e a justiça ajudaria, mas não poderia voltar, não seria pobrezinho, mas perderia quase sessenta por cento de todo patrimônio, isso não!!! Ficou roxo e depois pálido, abriu a gaveta e tirou uma garrafa de uísque, nem usou o copo, deu uma tragada com força pra matar a sede, não havia nada a ser feito e chorou feito um bebe sem o peito da mãe ou um viciado de crack que tomaram a força seu único meio de satisfação, deu outro gole e outro e mais outro, outro gole até deixar a garrafa pela metade. A sala girava, mas a sensação de perda não fugia, tentou dar outro gole, estava enjoado demais pra isso e dormiu, a garrafa caiu no chão molhando o caro sapato marrom, adormeceu batendo com força a cara na mesinha partindo os lábios gananciosos.

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