A IRA DE AMON - Jeane Tertuliano
Jeane Tertuliano
Jeane Tertuliano é nordestina, escritora e acadêmica de Letras pela Uneal. Membro da União Brasileira de Escritores (UBE), Academia Literária Internacional de Artes, Letras e Ciências ‘A Palavra do Século 21’ (ALPAS 21), Academia de Artes e Letras da Baixada Fluminense e Brasil (AALIBB), Academia Independente de Letras (AIL) e comendadora das artes literárias no Brasil pela Ordem Scriptorium, é autora do livro (In)sanidade Lírica, coautora de diversas antologias e organizadora do projeto antológico “Sororidade em plena calamidade”. É amante das artes e, tratando-se de literatura, tem como inspiração Hilda Hilst, Clarice Lispector e Edgar Allan Poe. No ano corrente, foi selecionada no Prêmio Internacional Mulheres das Letras 2020, no 4º Concurso de Poesias - Prêmio Cecília Meireles e no XXXV Concurso de Poesia Brasil dos Reis. Atualmente, reside em Campo Alegre, cidade localizada no interior de Alagoas.







A IRA DE AMON

Chuva incessante banha a noite porta afora. Algumas pingueiras se fazem ouvir no cômodo ao lado, e eu tento bloquear o som incômodo pondo o grande travesseiro da minha finada mãe nos ouvidos. Amon ladra lá fora. Certamente, deseja se amparar, mas eu estou preguiçosa demais para pô-lo dentro de casa. São Miguel dos Campos nunca fora um lugar divertido, isso é indubitável; porém, há alguns dias que as ruas estão desertas, sequer ouço o choro irritante do bebê na casa vizinha.

De acordo com o calendário, injetei cocaína anteontem. Eu havia bebido o restante do whisky e permanecido numa sobriedade ensandecedora, por isso decidi pôr um fim no pó que escondi no meu porta-joias. O meu irmão viajou com a namorada e me deixou sozinha nessa casa velha e imunda. Amon continua ladrando, parece estar enfurecido e desesperado ao mesmo tempo. Pergunto-me se é certo ignorar as súplicas do pobre animal, e concluo que não sou obrigada a responder agora. Após alguns minutos de total concentração, consigo me erguer da cama. Titubeando, caminho até a cozinha e bebo um pouco de água. Sento-me em uma das cadeiras tortas da mesa ainda mais torta e tento comer uma banana meio apodrecida que estava solitária na fruteira. Lá fora, a chuva só piora. Os trovões silenciam o choramingo de Amon e eu encosto a cabeça na mesa com o intuito de amenizar a tontura que engolfou o meu corpo.

Repentinamente, faz-se ouvir um forte barulho na porta dos fundos, como se ela houvesse sido fortemente pressionada. Congelo. Amon já não ladra e eu me pego a imaginar o pior. Determinada a me pôr de pé, me ergo. A minha visão enturva e tento me apoiar nas laterais da mesa, forçando-me a manter um pouco de equilíbrio a cada passo. O silêncio incessante faz com que eu sinta o sabor amargo do medo e a sensação aterradora parece haver inundado as minhas veias, pois todo o meu corpo bamboleia e eu receio ir de encontro ao chão no instante seguinte.

─ Quem está aí? ─ minha voz enche o recinto com o questionamento lançado ao breu. Amedrontada, arrasto-me até a parede mais próxima e encaro o corredor escuro que antecede o quintal. O fato de eu não conseguir enxergar se há alguém encarando-me de volta, me submerge a um nível de agonia que eu jamais pensara existir. Mesmo estando totalmente incapaz, decido rumar à escuridão, pois não consigo suportar a falsa calmaria que se faz presente. Por trás do meu crânio, uma voz sussurra para eu permanecer dentro de casa, como se o Eu que a mim fala estivesse prenunciando o mal.

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Jeane Tertuliano
A IRA DE AMON

Chuva incessante banha a noite porta afora. Algumas pingueiras se fazem ouvir no cômodo ao lado, e eu tento bloquear o som incômodo pondo o grande travesseiro da minha finada mãe nos ouvidos. Amon ladra lá fora. Certamente, deseja se amparar, mas eu estou preguiçosa demais para pô-lo dentro de casa. São Miguel dos Campos nunca fora um lugar divertido, isso é indubitável; porém, há alguns dias que as ruas estão desertas, sequer ouço o choro irritante do bebê na casa vizinha.

De acordo com o calendário, injetei cocaína anteontem. Eu havia bebido o restante do whisky e permanecido numa sobriedade ensandecedora, por isso decidi pôr um fim no pó que escondi no meu porta-joias. O meu irmão viajou com a namorada e me deixou sozinha nessa casa velha e imunda. Amon continua ladrando, parece estar enfurecido e desesperado ao mesmo tempo. Pergunto-me se é certo ignorar as súplicas do pobre animal, e concluo que não sou obrigada a responder agora. Após alguns minutos de total concentração, consigo me erguer da cama. Titubeando, caminho até a cozinha e bebo um pouco de água. Sento-me em uma das cadeiras tortas da mesa ainda mais torta e tento comer uma banana meio apodrecida que estava solitária na fruteira. Lá fora, a chuva só piora. Os trovões silenciam o choramingo de Amon e eu encosto a cabeça na mesa com o intuito de amenizar a tontura que engolfou o meu corpo.

Repentinamente, faz-se ouvir um forte barulho na porta dos fundos, como se ela houvesse sido fortemente pressionada. Congelo. Amon já não ladra e eu me pego a imaginar o pior. Determinada a me pôr de pé, me ergo. A minha visão enturva e tento me apoiar nas laterais da mesa, forçando-me a manter um pouco de equilíbrio a cada passo. O silêncio incessante faz com que eu sinta o sabor amargo do medo e a sensação aterradora parece haver inundado as minhas veias, pois todo o meu corpo bamboleia e eu receio ir de encontro ao chão no instante seguinte.

─ Quem está aí? ─ minha voz enche o recinto com o questionamento lançado ao breu. Amedrontada, arrasto-me até a parede mais próxima e encaro o corredor escuro que antecede o quintal. O fato de eu não conseguir enxergar se há alguém encarando-me de volta, me submerge a um nível de agonia que eu jamais pensara existir. Mesmo estando totalmente incapaz, decido rumar à escuridão, pois não consigo suportar a falsa calmaria que se faz presente. Por trás do meu crânio, uma voz sussurra para eu permanecer dentro de casa, como se o Eu que a mim fala estivesse prenunciando o mal.

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