A IRA DE AMON - Jeane Tertuliano
Jeane Tertuliano
Jeane Tertuliano é nordestina, escritora e acadêmica de Letras pela Uneal. Membro da União Brasileira de Escritores (UBE), Academia Literária Internacional de Artes, Letras e Ciências ‘A Palavra do Século 21’ (ALPAS 21), Academia de Artes e Letras da Baixada Fluminense e Brasil (AALIBB), Academia Independente de Letras (AIL) e comendadora das artes literárias no Brasil pela Ordem Scriptorium, é autora do livro (In)sanidade Lírica, coautora de diversas antologias e organizadora do projeto antológico “Sororidade em plena calamidade”. É amante das artes e, tratando-se de literatura, tem como inspiração Hilda Hilst, Clarice Lispector e Edgar Allan Poe. No ano corrente, foi selecionada no Prêmio Internacional Mulheres das Letras 2020, no 4º Concurso de Poesias - Prêmio Cecília Meireles e no XXXV Concurso de Poesia Brasil dos Reis. Atualmente, reside em Campo Alegre, cidade localizada no interior de Alagoas.







A IRA DE AMON

─ Crrrr ─ escuto a porta abrir. Ainda sem enxergar nada à minha frente, estagno; e um gelor absurdo invade a minha pele e se instala em meus ossos. Através da minha visão periférica, vejo o cômodo atrás de mim escurecer, enquanto um vulto mais negro que a própria escuridão começa a tomar forma diante dos meus olhos. Socorro ─ tento gritar, mas é como se a minha voz estivesse aprisionada em minha garganta. Na penumbra, vislumbro algo vindo em minha direção enquanto um rastejar inumano se faz audível. Paralisada, aguardo em estado de mortificação enquanto o negrume se achega cada vez mais, sibilando coisas que não consigo compreender. Insanamente apavorada, fecho os olhos, clamando para que tudo não passe de um terrível pesadelo, jurando aos céus que não mais buscarei por entorpecentes quando me sentir demasiado infeliz. Silêncio… Conto até dez e abro os olhos. À minha frente, olhos vermelhos enormes me encaram. A luz que anteriormente havia apagado, agora está acesa, possibilitando uma visão mais ampla do ser hediondo que está me observando. A coisa em si lembra um cão, pois possui duas grandes patas frontais e na parte traseira assemelha-se a uma cobra; por isso o rastejar, penso. As grandes esferas que me fitam são de uma coruja macabra que parece estar se divertindo com o meu assombro.

─ O que é você? ─     pergunto, e a minha voz soa inegavelmente chorosa.

─ AMON! ─ a besta esbraveja num guincho que mais parecia um rosnado. Eu havia deixado o cachorro do meu irmão no frio e agora a criatura está berrando o nome dele sem parar. Pesar domina o meu ser quando imagino que a coisa à minha frente possivelmente haja posto um fim nele. À medida que ouso me afastar da coisa, calor invade-me a epiderme. Olho ligeiramente para trás e vejo que a mesa está logo ali, basta eu caminhar mais um pouco e… Assim que retomo o foco, espavoro-me com a visão pavorosa da coisa: ela vem em minha direção tal qual uma ave de rapina prestes a alcançar a sua presa. O desespero me consome e esforço-me para correr até o meu quarto, mas acabo escorregando na pequena poça d’água, amaldiçoando as inúmeras pingueiras no telhado. Quando me recomponho, sinto o meu corpo ser lançado violentamente contra a parede, e sucumbo íntima e intensamente à costumeira escuridão.

É noite. As pingueiras estrondosas fazem com que a dor na minha cabeça aumente de um modo que chega a ser insuportável. Todo o meu corpo está dolorido, e a minha garganta está seca a ponto de eu sentir uma pungência ao engolir minha saliva. Meio grogue, saio da cama. Rumo à cozinha e apanho uma banana na fruteira, eu estou tão faminta! Amon ladra lá fora. Caminho em direção ao quintal para ver o motivo da algazarra. Abro a porta, nada vejo. Não me surpreendo com o negror mórbido, pois as nuvens carregadas de chuva fizeram a luminosidade da lua dissipar.

─ Amon?! ─ nenhum sinal dele. Resquícios de um pesadelo surgem abruptamente em minha mente no mesmo instante em que Amon torna a ladrar.

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Jeane Tertuliano
A IRA DE AMON

─ Crrrr ─ escuto a porta abrir. Ainda sem enxergar nada à minha frente, estagno; e um gelor absurdo invade a minha pele e se instala em meus ossos. Através da minha visão periférica, vejo o cômodo atrás de mim escurecer, enquanto um vulto mais negro que a própria escuridão começa a tomar forma diante dos meus olhos. Socorro ─ tento gritar, mas é como se a minha voz estivesse aprisionada em minha garganta. Na penumbra, vislumbro algo vindo em minha direção enquanto um rastejar inumano se faz audível. Paralisada, aguardo em estado de mortificação enquanto o negrume se achega cada vez mais, sibilando coisas que não consigo compreender. Insanamente apavorada, fecho os olhos, clamando para que tudo não passe de um terrível pesadelo, jurando aos céus que não mais buscarei por entorpecentes quando me sentir demasiado infeliz. Silêncio… Conto até dez e abro os olhos. À minha frente, olhos vermelhos enormes me encaram. A luz que anteriormente havia apagado, agora está acesa, possibilitando uma visão mais ampla do ser hediondo que está me observando. A coisa em si lembra um cão, pois possui duas grandes patas frontais e na parte traseira assemelha-se a uma cobra; por isso o rastejar, penso. As grandes esferas que me fitam são de uma coruja macabra que parece estar se divertindo com o meu assombro.

─ O que é você? ─     pergunto, e a minha voz soa inegavelmente chorosa.

─ AMON! ─ a besta esbraveja num guincho que mais parecia um rosnado. Eu havia deixado o cachorro do meu irmão no frio e agora a criatura está berrando o nome dele sem parar. Pesar domina o meu ser quando imagino que a coisa à minha frente possivelmente haja posto um fim nele. À medida que ouso me afastar da coisa, calor invade-me a epiderme. Olho ligeiramente para trás e vejo que a mesa está logo ali, basta eu caminhar mais um pouco e… Assim que retomo o foco, espavoro-me com a visão pavorosa da coisa: ela vem em minha direção tal qual uma ave de rapina prestes a alcançar a sua presa. O desespero me consome e esforço-me para correr até o meu quarto, mas acabo escorregando na pequena poça d’água, amaldiçoando as inúmeras pingueiras no telhado. Quando me recomponho, sinto o meu corpo ser lançado violentamente contra a parede, e sucumbo íntima e intensamente à costumeira escuridão.

É noite. As pingueiras estrondosas fazem com que a dor na minha cabeça aumente de um modo que chega a ser insuportável. Todo o meu corpo está dolorido, e a minha garganta está seca a ponto de eu sentir uma pungência ao engolir minha saliva. Meio grogue, saio da cama. Rumo à cozinha e apanho uma banana na fruteira, eu estou tão faminta! Amon ladra lá fora. Caminho em direção ao quintal para ver o motivo da algazarra. Abro a porta, nada vejo. Não me surpreendo com o negror mórbido, pois as nuvens carregadas de chuva fizeram a luminosidade da lua dissipar.

─ Amon?! ─ nenhum sinal dele. Resquícios de um pesadelo surgem abruptamente em minha mente no mesmo instante em que Amon torna a ladrar.

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