Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
João Paulo Effting
João Paulo Effting teve sua paixão pelo terror despertada ainda quando criança, quando seu pai e sua mãe saíram para um baile, em uma sexta-feira, e ele ficou em casa assistindo TV. Eis então que começa o filme "O ataque dos tomates assassinos", e seus olhos brilharam e o coração bateu mais rápido. E dali pra frente foi só paixão por esse gênero. Noites mal dormidas esperando pelo Cine Trash e Cine Sinistro madrugada adentro, gravando em fitas VHC filmes que ele procurava na listinha da TV a Cabo. Mas foi só com vinte e poucos anos que juntou as peças da paixão pelos filmes de terror com a paixão pela leitura e um click soou em sua cabeça: por que não criar suas próprias histórias? E desde então ele se encontrou, dando vida a mundos cheios de criaturas (nem sempre boas, mas sempre más).





Ele vê

            E então eu vejo. Um olho negro com pupila vermelha, quase que escondido entre as horas daquele velho relógio de parede. Penso que talvez seja coisa da minha cabeça. Fecho meus olhos e falo para mim mesmo que nada estará lá quando voltar a abri-los. Porém, quando os abro de novo, ele me encara. E eu sei que é ele, a criatura do sonho, pois aquele único olho sorri da mesma forma que ele sorria através da escuridão com sua boca nebulosa. E ele me observa. E meu corpo não se solta.

            Meu coração começa a bater descontroladamente. Tento berrar, mas minhas cordas vocais me abandonam. E mesmo que conseguisse o vizinho mais próximo mora no andar de baixo. Se ele me ouvir, até chegar aqui, poderei estar morto. Fecho os olhos e começo a rezar.

            “Esse Deus não vai te ajudar putinha. Acredite em mim. Não vou lhe fazer mal. A única coisa que quero é seu corpo. Me deliciar nas imundícies da carne humana.”

            Não dou ouvidos ao que ele fala. Continuo de olhos apertados e rezando enquanto ele não para de repetir aquelas palavras e de rir. Depois de alguns minutos sinto meu corpo se desprendendo das amarras invisíveis que o acorrentava e então saio correndo de lá sem nem pensar em olhar para trás. Corro para fora do apartamento. Para fora do prédio. Para fora do bairro. Nem me dou conta de pensar onde estou indo até que vejo o apartamento de Pedro. Então sinto um alívio. Sei que ele me deixará ficar ali até de manhã. Mas algo me diz que o dono daquele olho que me encarava através do velho relógio de parede me seguiu. Que não importa para onde eu corra, ele correrá atrás de mim. Mas não ouço mais as vozes e isso me tranquiliza um pouco. Toco a campainha no número 512 e aguardo. E nunca na minha vida pensei que ouvir a voz do meu ex me faria tão feliz.

 

***

            Vejo através do espelho o corpo de Pedro sobre a cama e a faca ainda incrustada em seu peito. O lençol está coberto de sangue seco. Já faz mais de três dias que o corpo dele está assim. Mas é dessa forma que ele me visita. O homem do relógio. Aguardo o relógio marcar 3:00h, a hora que ele vem me visitar e me tomar como seu homem. Olho para o reflexo do meu corpo. Estou em forma. Peitoral e abdômen torneados. É assim que ele gosta.

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            E então eu vejo. Um olho negro com pupila vermelha, quase que escondido entre as horas daquele velho relógio de parede. Penso que talvez seja coisa da minha cabeça. Fecho meus olhos e falo para mim mesmo que nada estará lá quando voltar a abri-los. Porém, quando os abro de novo, ele me encara. E eu sei que é ele, a criatura do sonho, pois aquele único olho sorri da mesma forma que ele sorria através da escuridão com sua boca nebulosa. E ele me observa. E meu corpo não se solta.

            Meu coração começa a bater descontroladamente. Tento berrar, mas minhas cordas vocais me abandonam. E mesmo que conseguisse o vizinho mais próximo mora no andar de baixo. Se ele me ouvir, até chegar aqui, poderei estar morto. Fecho os olhos e começo a rezar.

            “Esse Deus não vai te ajudar putinha. Acredite em mim. Não vou lhe fazer mal. A única coisa que quero é seu corpo. Me deliciar nas imundícies da carne humana.”

            Não dou ouvidos ao que ele fala. Continuo de olhos apertados e rezando enquanto ele não para de repetir aquelas palavras e de rir. Depois de alguns minutos sinto meu corpo se desprendendo das amarras invisíveis que o acorrentava e então saio correndo de lá sem nem pensar em olhar para trás. Corro para fora do apartamento. Para fora do prédio. Para fora do bairro. Nem me dou conta de pensar onde estou indo até que vejo o apartamento de Pedro. Então sinto um alívio. Sei que ele me deixará ficar ali até de manhã. Mas algo me diz que o dono daquele olho que me encarava através do velho relógio de parede me seguiu. Que não importa para onde eu corra, ele correrá atrás de mim. Mas não ouço mais as vozes e isso me tranquiliza um pouco. Toco a campainha no número 512 e aguardo. E nunca na minha vida pensei que ouvir a voz do meu ex me faria tão feliz.

 

***

            Vejo através do espelho o corpo de Pedro sobre a cama e a faca ainda incrustada em seu peito. O lençol está coberto de sangue seco. Já faz mais de três dias que o corpo dele está assim. Mas é dessa forma que ele me visita. O homem do relógio. Aguardo o relógio marcar 3:00h, a hora que ele vem me visitar e me tomar como seu homem. Olho para o reflexo do meu corpo. Estou em forma. Peitoral e abdômen torneados. É assim que ele gosta.

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