Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
João Paulo Effting
João Paulo Effting teve sua paixão pelo terror despertada ainda quando criança, quando seu pai e sua mãe saíram para um baile, em uma sexta-feira, e ele ficou em casa assistindo TV. Eis então que começa o filme "O ataque dos tomates assassinos", e seus olhos brilharam e o coração bateu mais rápido. E dali pra frente foi só paixão por esse gênero. Noites mal dormidas esperando pelo Cine Trash e Cine Sinistro madrugada adentro, gravando em fitas VHC filmes que ele procurava na listinha da TV a Cabo. Mas foi só com vinte e poucos anos que juntou as peças da paixão pelos filmes de terror com a paixão pela leitura e um click soou em sua cabeça: por que não criar suas próprias histórias? E desde então ele se encontrou, dando vida a mundos cheios de criaturas (nem sempre boas, mas sempre más).





Fetiche estranho

            Os cabelos negros e compridos dela dançavam os passos de dança do vento. Estava na sacada de seu duplex, fumando um cigarro e ouvindo as ondas do mar quebrarem e jogarem seu som relaxante no ar para quem estivesse disposto a ouvir.  O céu estava limpo e a lua agraciava as águas com sua luz que era refletida como forma de gratidão pelo mar.

            De longe o som de música eletrônica ecoava da sacada do prédio de algum filho de papai. Uma festa que incomodaria os vizinhos caso o dono dela não tivesse dinheiro suficiente para silenciá-los. Deu mais uma tragada no cigarro que agora encontrava-se perto do fim e soltou logo em seguida. Quando a fumaça se foi, seu bafo quente misturou-se a ela como uma extensão, já não podendo-se distinguir o que era o que. A noite estava fria, fazendo seus pelos arrepiarem-se em cada sopro gélido. E como reflexo, ela se encolhia, espremendo seu braço no outro a fim de se aquecer um pouco.

            Em sua cama encontrava-se um homem sem roupas, roncando tão alto que ela foi obrigada a fechar a porta de vidro da sacada para que o som não a irritasse. Logo ele não faria mais som algum.

            Jogou o cigarro da sacada para baixo, torcendo para que acertasse alguém que passasse lá por baixo naquela hora. Abriu a porta e entrou. Foi até seu compartimento secreto onde sua coleção encontrava-se devidamente conservada e segura. Retirou um bisturi de lá e voltou para o quarto. O homem lá deitado não despertaria nem se o prédio estivesse desabando. Resultado do boa-noite-cinderela que ela tinha colocado na bebida dele.

            Subiu em cima da cama e sentou sobre o corpo do sujeito. Os cabelos amarelados dele estavam bagunçados e por sobre os olhos fechados. Era um rosto bonito. Uma cabeça bonita, para ser mais exata. Mas o que chamou a atenção dela não foram os cabelos e muito menos os olhos azuis e encantadores dele. O que atraiu sua atenção e fez o clique do seu cérebro estalar foi o nariz. A leve curvatura para a direita que o grande nariz torto do sujeito dava. Aquele detalhe pequeno que muitas mulheres deixariam passar despercebido (ou até perceberiam, mas achariam um tanto estranho ou feio) foi o que a encantou. E ela queria aquela cabeça para a sua coleção. E naquela noite ela a teria. Mais uma entre suas dezenas que encontravam-se enfileiradas na sua estante de cabeças. Um sorriso brotou no rosto dela antes que desferisse o primeiro corte abaixo do pescoço. Ela não percebeu, mas um filete de saliva escorria de sua boca, sedenta para que mais uma peça se juntasse à coleção.

Páginas: 1 2 3 4

João Paulo Effting
Fetiche estranho

            Os cabelos negros e compridos dela dançavam os passos de dança do vento. Estava na sacada de seu duplex, fumando um cigarro e ouvindo as ondas do mar quebrarem e jogarem seu som relaxante no ar para quem estivesse disposto a ouvir.  O céu estava limpo e a lua agraciava as águas com sua luz que era refletida como forma de gratidão pelo mar.

            De longe o som de música eletrônica ecoava da sacada do prédio de algum filho de papai. Uma festa que incomodaria os vizinhos caso o dono dela não tivesse dinheiro suficiente para silenciá-los. Deu mais uma tragada no cigarro que agora encontrava-se perto do fim e soltou logo em seguida. Quando a fumaça se foi, seu bafo quente misturou-se a ela como uma extensão, já não podendo-se distinguir o que era o que. A noite estava fria, fazendo seus pelos arrepiarem-se em cada sopro gélido. E como reflexo, ela se encolhia, espremendo seu braço no outro a fim de se aquecer um pouco.

            Em sua cama encontrava-se um homem sem roupas, roncando tão alto que ela foi obrigada a fechar a porta de vidro da sacada para que o som não a irritasse. Logo ele não faria mais som algum.

            Jogou o cigarro da sacada para baixo, torcendo para que acertasse alguém que passasse lá por baixo naquela hora. Abriu a porta e entrou. Foi até seu compartimento secreto onde sua coleção encontrava-se devidamente conservada e segura. Retirou um bisturi de lá e voltou para o quarto. O homem lá deitado não despertaria nem se o prédio estivesse desabando. Resultado do boa-noite-cinderela que ela tinha colocado na bebida dele.

            Subiu em cima da cama e sentou sobre o corpo do sujeito. Os cabelos amarelados dele estavam bagunçados e por sobre os olhos fechados. Era um rosto bonito. Uma cabeça bonita, para ser mais exata. Mas o que chamou a atenção dela não foram os cabelos e muito menos os olhos azuis e encantadores dele. O que atraiu sua atenção e fez o clique do seu cérebro estalar foi o nariz. A leve curvatura para a direita que o grande nariz torto do sujeito dava. Aquele detalhe pequeno que muitas mulheres deixariam passar despercebido (ou até perceberiam, mas achariam um tanto estranho ou feio) foi o que a encantou. E ela queria aquela cabeça para a sua coleção. E naquela noite ela a teria. Mais uma entre suas dezenas que encontravam-se enfileiradas na sua estante de cabeças. Um sorriso brotou no rosto dela antes que desferisse o primeiro corte abaixo do pescoço. Ela não percebeu, mas um filete de saliva escorria de sua boca, sedenta para que mais uma peça se juntasse à coleção.

Páginas: 1 2 3 4