Fetiche estranho - João Paulo Effting
João Paulo Effting
João Paulo Effting teve sua paixão pelo terror despertada ainda quando criança, quando seu pai e sua mãe saíram para um baile, em uma sexta-feira, e ele ficou em casa assistindo TV. Eis então que começa o filme "O ataque dos tomates assassinos", e seus olhos brilharam e o coração bateu mais rápido. E dali pra frente foi só paixão por esse gênero. Noites mal dormidas esperando pelo Cine Trash e Cine Sinistro madrugada adentro, gravando em fitas VHC filmes que ele procurava na listinha da TV a Cabo. Mas foi só com vinte e poucos anos que juntou as peças da paixão pelos filmes de terror com a paixão pela leitura e um click soou em sua cabeça: por que não criar suas próprias histórias? E desde então ele se encontrou, dando vida a mundos cheios de criaturas (nem sempre boas, mas sempre más).





Fetiche estranho

            E com a trilha sonora das ondas do mar misturadas com a música eletrônica do vizinho barulhento, ela enfiou o bisturi no pescoço do homem. Ele não se moveu um centímetro se quer. Aos poucos foi cortando o pescoço, estraçalhando os músculos e arrebentando os nervos. A parte mais difícil foi (e sempre era) os ossos. Mas ela adquiriu alguma prática depois de tantas outras vítimas. Depois de tantas outras relíquias arrancadas precisamente do corpo de seus donos. Aquela noite acabaria bem para ela. E ela dormiria ali mesmo, com a cabeça embaixo dos seus braços e o corpo do sujeito do seu lado. Com o lençol coberto da cor rubra do sangue dele, ainda quente. Suas pernas estavam úmidas do tesão que aquilo lhe causava.

 

***

            Ela tinha um fetiche um pouco estranho, na qual trazia consigo desde pequena. Era apaixonada por cabeças e suas peculiaridades. Só de avistar uma com algum detalhe importante sentia uma quentura no meio das pernas e um ardor no rosto.

            Cabeças grandes, pequenas, cheias de cabelo ou até carecas. Cabeças com nariz gigante ou bem moldado e simétrico. Não sabia de onde aquilo tinha vindo e muito menos o porquê de se interessar por cabeças. Afinal, mesmo idolatrando essa parte do corpo, sabia que muitas eram extremamente feias. E eram essas que mais chamavam sua atenção.

            De uns tempos para cá algo de inusitado aconteceu: ela estava fissurada por sua própria cabeça. Tudo começou em uma noite de um sábado, enquanto se arrumava para sair com as amigas (e caçar alguma cabeça nova que lhe interessasse para integrar sua coleção). Já fazia mais de um mês que não sentia aquela vontade descomunal de conquistar o homem ou a mulher, levá-los para casa, batizar uma bebida com um boa-noite-cinderela, tirar seu bisturi da gaveta e arrancar a cabeça fora do corpo.

            Era um processo delicado, mas com o tempo ela foi pegando prática. O pior mesmo era se livrar do resto do corpo. Mas desde que assistiu o seriado Dexter, as coisas ficaram mais fáceis. Comprou um barco e dali para frente criou um cemitério aquático bem no meio do mar.

            Conservar as cabeças era o mais fácil. Como médica, aprendeu já nos primeiros anos da faculdade a fazer aquilo.

            Mas naquela noite de sábado sua mente lhe pregou uma peça. Ao olhar diretamente para uma pequena verruga que apareceu do nada abaixo do seu olho esquerdo, seu cérebro deu o clique. Ele queria a cabeça dela para a coleção.

            Ela removeu todos os espelhos de casa. Jogou fora todos os outros que levava na bolsa. Cobriu com fita isolante os do seu carro. Mas a mente gritava desejando que sua própria cabeça se juntasse a sua coleção. Mas como ela poderia fazer isso? Mesmo que tentasse, morreria antes de terminar o processo.

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João Paulo Effting
Fetiche estranho

            E com a trilha sonora das ondas do mar misturadas com a música eletrônica do vizinho barulhento, ela enfiou o bisturi no pescoço do homem. Ele não se moveu um centímetro se quer. Aos poucos foi cortando o pescoço, estraçalhando os músculos e arrebentando os nervos. A parte mais difícil foi (e sempre era) os ossos. Mas ela adquiriu alguma prática depois de tantas outras vítimas. Depois de tantas outras relíquias arrancadas precisamente do corpo de seus donos. Aquela noite acabaria bem para ela. E ela dormiria ali mesmo, com a cabeça embaixo dos seus braços e o corpo do sujeito do seu lado. Com o lençol coberto da cor rubra do sangue dele, ainda quente. Suas pernas estavam úmidas do tesão que aquilo lhe causava.

 

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            Ela tinha um fetiche um pouco estranho, na qual trazia consigo desde pequena. Era apaixonada por cabeças e suas peculiaridades. Só de avistar uma com algum detalhe importante sentia uma quentura no meio das pernas e um ardor no rosto.

            Cabeças grandes, pequenas, cheias de cabelo ou até carecas. Cabeças com nariz gigante ou bem moldado e simétrico. Não sabia de onde aquilo tinha vindo e muito menos o porquê de se interessar por cabeças. Afinal, mesmo idolatrando essa parte do corpo, sabia que muitas eram extremamente feias. E eram essas que mais chamavam sua atenção.

            De uns tempos para cá algo de inusitado aconteceu: ela estava fissurada por sua própria cabeça. Tudo começou em uma noite de um sábado, enquanto se arrumava para sair com as amigas (e caçar alguma cabeça nova que lhe interessasse para integrar sua coleção). Já fazia mais de um mês que não sentia aquela vontade descomunal de conquistar o homem ou a mulher, levá-los para casa, batizar uma bebida com um boa-noite-cinderela, tirar seu bisturi da gaveta e arrancar a cabeça fora do corpo.

            Era um processo delicado, mas com o tempo ela foi pegando prática. O pior mesmo era se livrar do resto do corpo. Mas desde que assistiu o seriado Dexter, as coisas ficaram mais fáceis. Comprou um barco e dali para frente criou um cemitério aquático bem no meio do mar.

            Conservar as cabeças era o mais fácil. Como médica, aprendeu já nos primeiros anos da faculdade a fazer aquilo.

            Mas naquela noite de sábado sua mente lhe pregou uma peça. Ao olhar diretamente para uma pequena verruga que apareceu do nada abaixo do seu olho esquerdo, seu cérebro deu o clique. Ele queria a cabeça dela para a coleção.

            Ela removeu todos os espelhos de casa. Jogou fora todos os outros que levava na bolsa. Cobriu com fita isolante os do seu carro. Mas a mente gritava desejando que sua própria cabeça se juntasse a sua coleção. Mas como ela poderia fazer isso? Mesmo que tentasse, morreria antes de terminar o processo.

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