Fetiche estranho - João Paulo Effting
João Paulo Effting
João Paulo Effting teve sua paixão pelo terror despertada ainda quando criança, quando seu pai e sua mãe saíram para um baile, em uma sexta-feira, e ele ficou em casa assistindo TV. Eis então que começa o filme "O ataque dos tomates assassinos", e seus olhos brilharam e o coração bateu mais rápido. E dali pra frente foi só paixão por esse gênero. Noites mal dormidas esperando pelo Cine Trash e Cine Sinistro madrugada adentro, gravando em fitas VHC filmes que ele procurava na listinha da TV a Cabo. Mas foi só com vinte e poucos anos que juntou as peças da paixão pelos filmes de terror com a paixão pela leitura e um click soou em sua cabeça: por que não criar suas próprias histórias? E desde então ele se encontrou, dando vida a mundos cheios de criaturas (nem sempre boas, mas sempre más).





Fetiche estranho

            Os dias se passavam e uma voz ecoava na sua mente ordenando-a para que cortasse-a fora. Colocasse-a na sua estante secreta, criada dentro de seu closet, onde todas as noites se dirigia para apreciar sua coleção.

            Resistiu por um tempo, mas em vão. Logo começou a perseguir seus amigos.

            “Corte minha cabeça por favor”, pedia, com os olhos vermelhos e arregalados.

            Eles a encaravam e riam. Mas ela não desistia, e um a um eles foram se afastando. Alguns recomendaram que procurasse ajuda psiquiátrica, mas ela se negava. Sabia que tudo pararia quando sua cabeça se juntasse a coleção.

            Percebendo que não receberia ajuda dos conhecidos, começou a ir atrás de estranhos pelas ruas. Adentrou vielas, percorreu favelas, gritando e abordando qualquer um com seu bisturi na mão.

            “CORTE MINHA CABEÇA POR FAVOR”, berrava para quem pudesse ouvir. Mas as pessoas apenas fugiam, com um olhar espantado não só pelo pedido, mas por ela empunhar um objeto cortante em mãos.

            Seus cabelos começaram a cair. Seu corpo começou a emagrecer. Ela já não comia e nem se alimentava mais. Vivia em virtude da cabeça. A cabeça que sua mente urrava para que ela cortasse fora. Para que posicionasse na estante junto das outras.

            Nem pensava mais que morreria caso fizesse isso. Estava tão fissurada na ideia de ter aquela peça na coleção que já não pensava direito. Tentou ajuda na deep web, mas não conseguiu usar aquilo direito e acabou causando-lhe mais frustração.

            Sentada no chão de sua casa, com o bisturi em mãos, decidiu que tentaria. Aplicou uma anestesia local para a dor, e diante de um espelho (agora ela trouxera um de volta para aquele ato final), começou o processo, tomando cuidado para que não atingisse veias importantes e caísse com o corpo inerte no chão antes de finalizar o processo.

            — VOCÊ SERÁ MINHA HOJE, DESGRAÇADA — berrava, dando altas risadas logo em seguida. — HOJE FINALMENTE MINHA COLEÇÃO VAI SER INCREMENTADA.

            E o processo quase foi um sucesso, se por um descuido da excitação ela não tivesse atingido uma veia. O sangue jorrou e em questão de segundos seu corpo estava jogado no chão. Os olhos não tinham mais vida, mas ainda brilhavam com a expectativa de realizar o seu último desejo.

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João Paulo Effting
Fetiche estranho

            Os dias se passavam e uma voz ecoava na sua mente ordenando-a para que cortasse-a fora. Colocasse-a na sua estante secreta, criada dentro de seu closet, onde todas as noites se dirigia para apreciar sua coleção.

            Resistiu por um tempo, mas em vão. Logo começou a perseguir seus amigos.

            “Corte minha cabeça por favor”, pedia, com os olhos vermelhos e arregalados.

            Eles a encaravam e riam. Mas ela não desistia, e um a um eles foram se afastando. Alguns recomendaram que procurasse ajuda psiquiátrica, mas ela se negava. Sabia que tudo pararia quando sua cabeça se juntasse a coleção.

            Percebendo que não receberia ajuda dos conhecidos, começou a ir atrás de estranhos pelas ruas. Adentrou vielas, percorreu favelas, gritando e abordando qualquer um com seu bisturi na mão.

            “CORTE MINHA CABEÇA POR FAVOR”, berrava para quem pudesse ouvir. Mas as pessoas apenas fugiam, com um olhar espantado não só pelo pedido, mas por ela empunhar um objeto cortante em mãos.

            Seus cabelos começaram a cair. Seu corpo começou a emagrecer. Ela já não comia e nem se alimentava mais. Vivia em virtude da cabeça. A cabeça que sua mente urrava para que ela cortasse fora. Para que posicionasse na estante junto das outras.

            Nem pensava mais que morreria caso fizesse isso. Estava tão fissurada na ideia de ter aquela peça na coleção que já não pensava direito. Tentou ajuda na deep web, mas não conseguiu usar aquilo direito e acabou causando-lhe mais frustração.

            Sentada no chão de sua casa, com o bisturi em mãos, decidiu que tentaria. Aplicou uma anestesia local para a dor, e diante de um espelho (agora ela trouxera um de volta para aquele ato final), começou o processo, tomando cuidado para que não atingisse veias importantes e caísse com o corpo inerte no chão antes de finalizar o processo.

            — VOCÊ SERÁ MINHA HOJE, DESGRAÇADA — berrava, dando altas risadas logo em seguida. — HOJE FINALMENTE MINHA COLEÇÃO VAI SER INCREMENTADA.

            E o processo quase foi um sucesso, se por um descuido da excitação ela não tivesse atingido uma veia. O sangue jorrou e em questão de segundos seu corpo estava jogado no chão. Os olhos não tinham mais vida, mas ainda brilhavam com a expectativa de realizar o seu último desejo.

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