Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Bondage

        Laura está sedenta e ele sabe disso. As cordas entrelaçadas começam na perna e terminam em um nó que liga os pulsos à garganta. Ela engole em seco enquanto o amante caminha sobre o carpete e deixa o apartamento. O gemido de angústia é abafado pela mordaça, a porta bate e o silêncio deságua preenchendo cada canto do apartamento —, o recinto vazio solta um peso de outro mundo nos ombros dela.

        A palavra era chocolate. Era a palavra escolhida por seu amante para encerrar a sessão de sadismo caso se sentisse desconfortável. Ela não está exatamente confortável agora, mas os ouvidos de seu amante já estão distantes demais para ouvir qualquer coisa, o grito mais desesperado se igualaria a um leve sussurro. Havia o lenço cobrindo sua boca também, isto abafaria qualquer tentativa de berrar. Os vizinhos tinham ouvidos sensíveis, disse Mario alguns minutos atrás.

        Ela gosta da sensação na maioria das vezes. Hoje é um pouco diferente porque o céu não está bonito como costumava estar nas tardes de junho. Ainda assim parecia um dia bom para o sexo casual. Ela já estava cansada de ver aqueles caras (como o Jonathan do boliche ou o Paulo da loja de calçados) metendo com força entre suas pernas sem causar nenhuma sensação inesperada. Gostava mesmo do jogo de dominação que Mario havia proposto. Parecia uma ideia boa. Mesmo que o céu não estivesse bonito como deveria.

        As cordas começam a apertar enquanto Laura se move na tentativa de olhar para trás. A rede de nós que a prende de bruços à cadeira não quer desatar, a pele está ficando roxa como berinjela e as escoriações já são visíveis a essa altura. A corda parece adquirir vida própria: o aperto aumenta jogando uma centena de facas pela região lombar.

        A trança de seda tem função erógena quando passa levemente sobre a pele, mas o erotismo se perde quando a força do aperto rasga o tecido celular. Ela tenta gritar e sente que a respiração a está abandonando aos poucos, assim como Mário fez um instante atrás. O desamparo a esmaga neste momento, seu corpo não consegue mais lutar contra o aperto da enorme cobra que a envolve.

        Ela olha para baixo – Ali embaixo, entre seus pelos pubianos aparados, as amarras bifurcadas deslizam sobre a pele alva dando a volta nas coxas. As cerdas cortam como se estivessem embebidas de cerol. A dor percorre seu crânio fazendo os músculos trincarem com os espasmos. Ela sabe que de alguma maneira as cordas estão vivas e ela, dentro de alguns segundos, estará morta.

        Laura tenta se levantar mais uma vez. As cordas pressionam o corpo e o resultado é como aqueles moedores de carne com as lâminas cegas: o sangue escorre, claro, mas o corte está longe de ser uma coisa limpa; ela vê o corpo se desabrochar como pétalas de rosas no verão, rosas-vermelhas oferecidas por seu amor.

 

Jorge Machado
Bondage

        Laura está sedenta e ele sabe disso. As cordas entrelaçadas começam na perna e terminam em um nó que liga os pulsos à garganta. Ela engole em seco enquanto o amante caminha sobre o carpete e deixa o apartamento. O gemido de angústia é abafado pela mordaça, a porta bate e o silêncio deságua preenchendo cada canto do apartamento —, o recinto vazio solta um peso de outro mundo nos ombros dela.

        A palavra era chocolate. Era a palavra escolhida por seu amante para encerrar a sessão de sadismo caso se sentisse desconfortável. Ela não está exatamente confortável agora, mas os ouvidos de seu amante já estão distantes demais para ouvir qualquer coisa, o grito mais desesperado se igualaria a um leve sussurro. Havia o lenço cobrindo sua boca também, isto abafaria qualquer tentativa de berrar. Os vizinhos tinham ouvidos sensíveis, disse Mario alguns minutos atrás.

        Ela gosta da sensação na maioria das vezes. Hoje é um pouco diferente porque o céu não está bonito como costumava estar nas tardes de junho. Ainda assim parecia um dia bom para o sexo casual. Ela já estava cansada de ver aqueles caras (como o Jonathan do boliche ou o Paulo da loja de calçados) metendo com força entre suas pernas sem causar nenhuma sensação inesperada. Gostava mesmo do jogo de dominação que Mario havia proposto. Parecia uma ideia boa. Mesmo que o céu não estivesse bonito como deveria.

        As cordas começam a apertar enquanto Laura se move na tentativa de olhar para trás. A rede de nós que a prende de bruços à cadeira não quer desatar, a pele está ficando roxa como berinjela e as escoriações já são visíveis a essa altura. A corda parece adquirir vida própria: o aperto aumenta jogando uma centena de facas pela região lombar.

        A trança de seda tem função erógena quando passa levemente sobre a pele, mas o erotismo se perde quando a força do aperto rasga o tecido celular. Ela tenta gritar e sente que a respiração a está abandonando aos poucos, assim como Mário fez um instante atrás. O desamparo a esmaga neste momento, seu corpo não consegue mais lutar contra o aperto da enorme cobra que a envolve.

        Ela olha para baixo – Ali embaixo, entre seus pelos pubianos aparados, as amarras bifurcadas deslizam sobre a pele alva dando a volta nas coxas. As cerdas cortam como se estivessem embebidas de cerol. A dor percorre seu crânio fazendo os músculos trincarem com os espasmos. Ela sabe que de alguma maneira as cordas estão vivas e ela, dentro de alguns segundos, estará morta.

        Laura tenta se levantar mais uma vez. As cordas pressionam o corpo e o resultado é como aqueles moedores de carne com as lâminas cegas: o sangue escorre, claro, mas o corte está longe de ser uma coisa limpa; ela vê o corpo se desabrochar como pétalas de rosas no verão, rosas-vermelhas oferecidas por seu amor.