Cinefilia - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Cinefilia

Assim que fiquei sabendo que o conceituadíssimo diretor cinematográfico Ernesto Segalla havia concluído “Até os ossos”, sua obra experimental mais aguardada, fui imediatamente até o cinema mais próximo e comprei ingressos para apreciar esta verdadeira maravilha da sétima arte. Acabei de terminar de vê-lo e estou escrevendo este texto ainda no caminho de volta, dentro de um táxi, por isso me perdoem se meu parecer soar demasiadamente empolgado. Digo isso porque jamais tive uma experiência sensorial tão satisfatória com o cinema. O domínio que o senhor Segalla detém dessa arte é assombroso. O filme se destaca em seus muitos sublimes aspectos como uma marca divisória bastante clara na história das telas.

Para compreendermos completamente o marco colossal que essa obra representa, precisamos de um contexto teórico mais bem definido.

Pois bem:

Em um dos textos mais pertinazes produzidos no ocidente, André Bazin nos presenteia com a análise mais lúcida que já li a respeito da crítica de cinema. Em Ontologia da imagem fotográfica, Bazin desnuda a origem do cinema moderno e faz suas considerações acerca da evolução da linguagem cinematográfica. Direcionando seu olhar crítico para a confusão feita entre a dimensão psicológica e a dimensão estética da arte, o cinéfilo nos apresenta uma teoria objetiva da fotografia. Essa contraposição entre a simulação da realidade e a realidade propriamente dita; entre a pintura e a fotografia; subjetividade e objetividade.

Lembrem-se que a partir do século XV a pintura passou a buscar a imitação da realidade através de suas técnicas dando força a uma tendência quase universal de realismo artístico. Com o advento da tecnologia fotográfica, no entanto, a imitação perdeu sua razão de ser. Agora não havia mais necessidade real de buscar o arremedo: para que preferir uma pintura a uma fotografia?

A câmera objetiva captava a exata natureza do real e tornava obsoletas todas as outras formas imperfeitas de retratação. Notem que a pintura ganhou então uma nova liberdade estética e passou a seguir caminhos diferentes a partir disso vide van Gogh. A fotografia se tornou a nova arte da representação objetiva do mundo assim como o cinema o fez a posteriori.

O que Segalla faz nesse primoroso filme é levar até as últimas consequências o que Bazin assinalou no passado. A linguagem do cinema jamais será a mesma depois de “Até os ossos”.

O plot principal da trama se constitui de uma ideia simples: uma senhora amarrada em uma cadeira, presa em uma sala escura e observada por dois jovens — um deles o próprio Segalla — que conversam com ela. A dimensão claustrofóbica é acentuada pela iluminação deliberadamente precária e pelos ângulos de câmera inclinados levemente que causam certa vertigem no expectador. Tudo aqui é feito com maestria ímpar e nenhum detalhe é mero acaso. Do ponto de vista técnico o filme supera os clássicos mais bem executados de que posso me lembrar.

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Assim que fiquei sabendo que o conceituadíssimo diretor cinematográfico Ernesto Segalla havia concluído “Até os ossos”, sua obra experimental mais aguardada, fui imediatamente até o cinema mais próximo e comprei ingressos para apreciar esta verdadeira maravilha da sétima arte. Acabei de terminar de vê-lo e estou escrevendo este texto ainda no caminho de volta, dentro de um táxi, por isso me perdoem se meu parecer soar demasiadamente empolgado. Digo isso porque jamais tive uma experiência sensorial tão satisfatória com o cinema. O domínio que o senhor Segalla detém dessa arte é assombroso. O filme se destaca em seus muitos sublimes aspectos como uma marca divisória bastante clara na história das telas.

Para compreendermos completamente o marco colossal que essa obra representa, precisamos de um contexto teórico mais bem definido.

Pois bem:

Em um dos textos mais pertinazes produzidos no ocidente, André Bazin nos presenteia com a análise mais lúcida que já li a respeito da crítica de cinema. Em Ontologia da imagem fotográfica, Bazin desnuda a origem do cinema moderno e faz suas considerações acerca da evolução da linguagem cinematográfica. Direcionando seu olhar crítico para a confusão feita entre a dimensão psicológica e a dimensão estética da arte, o cinéfilo nos apresenta uma teoria objetiva da fotografia. Essa contraposição entre a simulação da realidade e a realidade propriamente dita; entre a pintura e a fotografia; subjetividade e objetividade.

Lembrem-se que a partir do século XV a pintura passou a buscar a imitação da realidade através de suas técnicas dando força a uma tendência quase universal de realismo artístico. Com o advento da tecnologia fotográfica, no entanto, a imitação perdeu sua razão de ser. Agora não havia mais necessidade real de buscar o arremedo: para que preferir uma pintura a uma fotografia?

A câmera objetiva captava a exata natureza do real e tornava obsoletas todas as outras formas imperfeitas de retratação. Notem que a pintura ganhou então uma nova liberdade estética e passou a seguir caminhos diferentes a partir disso vide van Gogh. A fotografia se tornou a nova arte da representação objetiva do mundo assim como o cinema o fez a posteriori.

O que Segalla faz nesse primoroso filme é levar até as últimas consequências o que Bazin assinalou no passado. A linguagem do cinema jamais será a mesma depois de “Até os ossos”.

O plot principal da trama se constitui de uma ideia simples: uma senhora amarrada em uma cadeira, presa em uma sala escura e observada por dois jovens — um deles o próprio Segalla — que conversam com ela. A dimensão claustrofóbica é acentuada pela iluminação deliberadamente precária e pelos ângulos de câmera inclinados levemente que causam certa vertigem no expectador. Tudo aqui é feito com maestria ímpar e nenhum detalhe é mero acaso. Do ponto de vista técnico o filme supera os clássicos mais bem executados de que posso me lembrar.

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