Eterno retorno aos embalos de sábado à noite - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Eterno retorno aos embalos de sábado à noite

 – Que nojeira, disse Matteus.

Michele acendeu o cigarro e assentiu.

– Repulsivo, sem dúvida…

O corpo estava estraçalhado. O que um dia fora um homem agora se reduzia a uma pasta disforme que fora prensada contra o asfalto. O sangue e os miolos espalhados no meio da sujeira e do lixo causavam uma confusão simbiótica. Algumas pessoas ajudavam os policiais militares a retirar os restos da pista enquanto uma dúzia de curiosos ocupava o camarote do espetáculo macabro. Alguns riam para disfarçar o nervosismo. As pás trabalhavam para remover a carne prensada no solo e os policiais usavam as linhas de rádio para comunicar o ocorrido. Não haviam motivos para chamar o resgate, porque para todos ali era evidente que não haviam chances de reanimação do corpo. O rastro de sangue e pedacinhos de carne desembocava no caminhão de carga Scania que estava inclinado na avenida um pouco a frente do corpo do motociclista. Wiederkunft, dizia o anúncio estampado no veículo de vinte toneladas. A nova cerveja do momento, dizia o slogan.

Alguns passantes comentavam que algo horrível tinha acontecido com o motorista e que ele provavelmente perdera o controle da direção.

– Vamos embora, disse Michele

– Quero ver como eles vão fazer para remover a carcaça, retrucou Anestor.

– Não seja idiota, vamos logo.

Matteus e Anestor foram puxados pelos braços pela garota e começaram novamente a subir a rua em direção à Augusta.

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Jorge Machado
Eterno retorno aos embalos de sábado à noite

 – Que nojeira, disse Matteus.

Michele acendeu o cigarro e assentiu.

– Repulsivo, sem dúvida…

O corpo estava estraçalhado. O que um dia fora um homem agora se reduzia a uma pasta disforme que fora prensada contra o asfalto. O sangue e os miolos espalhados no meio da sujeira e do lixo causavam uma confusão simbiótica. Algumas pessoas ajudavam os policiais militares a retirar os restos da pista enquanto uma dúzia de curiosos ocupava o camarote do espetáculo macabro. Alguns riam para disfarçar o nervosismo. As pás trabalhavam para remover a carne prensada no solo e os policiais usavam as linhas de rádio para comunicar o ocorrido. Não haviam motivos para chamar o resgate, porque para todos ali era evidente que não haviam chances de reanimação do corpo. O rastro de sangue e pedacinhos de carne desembocava no caminhão de carga Scania que estava inclinado na avenida um pouco a frente do corpo do motociclista. Wiederkunft, dizia o anúncio estampado no veículo de vinte toneladas. A nova cerveja do momento, dizia o slogan.

Alguns passantes comentavam que algo horrível tinha acontecido com o motorista e que ele provavelmente perdera o controle da direção.

– Vamos embora, disse Michele

– Quero ver como eles vão fazer para remover a carcaça, retrucou Anestor.

– Não seja idiota, vamos logo.

Matteus e Anestor foram puxados pelos braços pela garota e começaram novamente a subir a rua em direção à Augusta.

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