Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Eterno retorno aos embalos de sábado à noite

Indiferente à tragédia da quadra anterior a rua estava iluminada pela vibração da vida noturna. Dos dois lados da calçada os transeuntes alcoolizados conversavam de forma alterada exibindo as mentiras cuidadosamente arquitetadas no dia anterior. Alguns músicos independentes tocavam nos cantos com aparelhagem precária e sorrisos sinceros enquanto as pessoas depositavam moedas nas cestas improvisadas. Filas se formavam para entrar nos clubes de comédia onde a plateia mostraria os sorrisos vazios para um palco sem mais atrativos que não o mero passatempo. Matteus, no auge de seus quarenta e sete anos, lembrava-se dos embalos de sábado à noite do passado. Aquele pedaço da metrópole fizera parte da adolescência de Matteus nos tempos em que a cerveja era barata e menos aguada. Acompanhara as mudanças e o avanço daquela região de dentro do Ford Escort XR3 de seu irmão. Fora dentro daquele carro que ele recebera o primeiro boquete de uma moça ruiva que, descobriu depois, era uma puta contratada por seu irmão mais velho. Quando ele iniciara na faculdade de direito, dois anos atrás, não imaginava que aquela rua voltasse a ganhar tamanho destaque em sua vida noturna. Os tempos eram outros, porém a Augusta continuava com o mesmo ar vivaz de sempre.

Três travestis que captararam a atenção de Anestor mostravam os peitos na porta de um puteiro iluminado pela luz fosca e chamavam o grupo para dentro enquanto Michele continuava puxando-o pela rua. Larga essa mocreia e vem descobrir o que é bom de verdade. Michele acabava-se de rir. Matteus percebeu que a Travesti bebia uma garrafa long neck de Wiederkunft. A nova cerveja do momento. O slogan era cafona, mas parecia estar funcionando.

Subiram mais um pouco e entraram em um bar com mesas vagas. O local parecia apropriado para tomar algumas cervejas e esquecer o dia cansativo de trabalho. A decoração sugeria um pé sujo tradicional com uma mesa de bilhar e balcão simples onde petiscos eram servidos aos clientes. Matteus sentiu o cheiro desagradável da gordura que impregnava o local enquanto Michele e Anestor se acomodavam na mesa feita de plástico.

Um homem acima do peso ideal e com olheiras fundas se apresentou para o grupo de amigos e distribuiu três folhas de papel plastificado sobre a mesa saindo logo em seguida.

– Vamos beber o que?

Anestor e Michele se entreolharam.

– Wiederkunft, é claro.

– Vocês não preferem cervejas pilsen?

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Jorge Machado
Eterno retorno aos embalos de sábado à noite

Indiferente à tragédia da quadra anterior a rua estava iluminada pela vibração da vida noturna. Dos dois lados da calçada os transeuntes alcoolizados conversavam de forma alterada exibindo as mentiras cuidadosamente arquitetadas no dia anterior. Alguns músicos independentes tocavam nos cantos com aparelhagem precária e sorrisos sinceros enquanto as pessoas depositavam moedas nas cestas improvisadas. Filas se formavam para entrar nos clubes de comédia onde a plateia mostraria os sorrisos vazios para um palco sem mais atrativos que não o mero passatempo. Matteus, no auge de seus quarenta e sete anos, lembrava-se dos embalos de sábado à noite do passado. Aquele pedaço da metrópole fizera parte da adolescência de Matteus nos tempos em que a cerveja era barata e menos aguada. Acompanhara as mudanças e o avanço daquela região de dentro do Ford Escort XR3 de seu irmão. Fora dentro daquele carro que ele recebera o primeiro boquete de uma moça ruiva que, descobriu depois, era uma puta contratada por seu irmão mais velho. Quando ele iniciara na faculdade de direito, dois anos atrás, não imaginava que aquela rua voltasse a ganhar tamanho destaque em sua vida noturna. Os tempos eram outros, porém a Augusta continuava com o mesmo ar vivaz de sempre.

Três travestis que captararam a atenção de Anestor mostravam os peitos na porta de um puteiro iluminado pela luz fosca e chamavam o grupo para dentro enquanto Michele continuava puxando-o pela rua. Larga essa mocreia e vem descobrir o que é bom de verdade. Michele acabava-se de rir. Matteus percebeu que a Travesti bebia uma garrafa long neck de Wiederkunft. A nova cerveja do momento. O slogan era cafona, mas parecia estar funcionando.

Subiram mais um pouco e entraram em um bar com mesas vagas. O local parecia apropriado para tomar algumas cervejas e esquecer o dia cansativo de trabalho. A decoração sugeria um pé sujo tradicional com uma mesa de bilhar e balcão simples onde petiscos eram servidos aos clientes. Matteus sentiu o cheiro desagradável da gordura que impregnava o local enquanto Michele e Anestor se acomodavam na mesa feita de plástico.

Um homem acima do peso ideal e com olheiras fundas se apresentou para o grupo de amigos e distribuiu três folhas de papel plastificado sobre a mesa saindo logo em seguida.

– Vamos beber o que?

Anestor e Michele se entreolharam.

– Wiederkunft, é claro.

– Vocês não preferem cervejas pilsen?

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