Eterno retorno aos embalos de sábado à noite - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Eterno retorno aos embalos de sábado à noite

– Você não vai beber? Perguntou Anestor.

Matteus observou-os por alguns segundos enquanto se perguntava quanto tempo demoraria para que eles caíssem na gargalhada e reconhecessem que aquele fora um comportamento estranho.

– Bem… Acho que vou, mas…

Agora Matteus percebia que os dois não eram os únicos a olhar para ele. Algumas pessoas nas outras mesas haviam interrompido suas conversas e olhavam meio curiosas, meio impacientes para o advogado. O atendente que estava agora na chapa fazendo hamburgueres também lançava olhares esporádicos para sua mesa. O som de algumas garrafas se movimentando e de poucas conversas que vinham de fora do estabelecimento se faziam presentes como um ruído de fundo diacrônico que era lentamente apagado pelo silêncio que reinava no bar. Você não vai beber? A pergunta explodia na sua mente perturbada. Ele olhou para o líquido estranhamente espesso em seu copo.

Wiederkunft. A cor dourada da cerveja tinha um toque estranho contra a luz. O colarinho branquinho flutuava sobre o mar de ouro num movimento hipnótico. Sua mão não estava balançando a bebida. O movimento circular que ele observava [Oh Deus estou ficando louco] era produzido naturalmente pela composição da cerveja. A American Lager Brilhava de uma forma curiosa também. Emitia uma centelha buxuleante no fundo do cristal.

– Beba, disse Michele.

Matteus a olhou um tanto assustado.

– Beba! disse a mão que tocou seu ombro.

Matteus olhou para cima e viu um homem de barba grisalha e feições marcadas. O homem olhava como se ele tivesse proferido uma ofensa grave a sua familia. A mão que pousara em seu ombro começava lentamente a aumentar a força do aperto e a respiração anasalada do velho com bandana do Iron Maiden gerava um sopro quente em seu pescoço e enregelava seus ossos.

– Beba! Gritou.

Matteus bebeu o líquido no mesmo instante. Primeiro um amargor proveniente dos conservantes naturais de lúpulo, depois uma sensação estranha de formigamento. Os dedos da bebida [Oh Deus são dedos!] fizeram cócegas na superfície da garganta e arranharam levemente despertando sensações novas para o estudante de direito. O gosto não era muito diferente de todas as bebidas que custavam menos de dez Temers, mas ele pôde sentir que a fermentação daquela cerveja era decorrente de um processo diferente do usual. Não havia o gosto característico da levedura. Os movimentos peristálticos se encarregaram de fazer o alcool percorrer o caminho devido e explodir [Oh Deus uma explosão!] nas paredes do estômago. Ele sentiu o liquido chiando dentro dele. Sentiu o corpo se adaptando com dificuldade à estranha poção. Uma sensação de entorpecimento incomum para uma dose como aquela o assaltava. Os dedos agora pareciam brincar em seu interior.

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Jorge Machado
Eterno retorno aos embalos de sábado à noite

– Você não vai beber? Perguntou Anestor.

Matteus observou-os por alguns segundos enquanto se perguntava quanto tempo demoraria para que eles caíssem na gargalhada e reconhecessem que aquele fora um comportamento estranho.

– Bem… Acho que vou, mas…

Agora Matteus percebia que os dois não eram os únicos a olhar para ele. Algumas pessoas nas outras mesas haviam interrompido suas conversas e olhavam meio curiosas, meio impacientes para o advogado. O atendente que estava agora na chapa fazendo hamburgueres também lançava olhares esporádicos para sua mesa. O som de algumas garrafas se movimentando e de poucas conversas que vinham de fora do estabelecimento se faziam presentes como um ruído de fundo diacrônico que era lentamente apagado pelo silêncio que reinava no bar. Você não vai beber? A pergunta explodia na sua mente perturbada. Ele olhou para o líquido estranhamente espesso em seu copo.

Wiederkunft. A cor dourada da cerveja tinha um toque estranho contra a luz. O colarinho branquinho flutuava sobre o mar de ouro num movimento hipnótico. Sua mão não estava balançando a bebida. O movimento circular que ele observava [Oh Deus estou ficando louco] era produzido naturalmente pela composição da cerveja. A American Lager Brilhava de uma forma curiosa também. Emitia uma centelha buxuleante no fundo do cristal.

– Beba, disse Michele.

Matteus a olhou um tanto assustado.

– Beba! disse a mão que tocou seu ombro.

Matteus olhou para cima e viu um homem de barba grisalha e feições marcadas. O homem olhava como se ele tivesse proferido uma ofensa grave a sua familia. A mão que pousara em seu ombro começava lentamente a aumentar a força do aperto e a respiração anasalada do velho com bandana do Iron Maiden gerava um sopro quente em seu pescoço e enregelava seus ossos.

– Beba! Gritou.

Matteus bebeu o líquido no mesmo instante. Primeiro um amargor proveniente dos conservantes naturais de lúpulo, depois uma sensação estranha de formigamento. Os dedos da bebida [Oh Deus são dedos!] fizeram cócegas na superfície da garganta e arranharam levemente despertando sensações novas para o estudante de direito. O gosto não era muito diferente de todas as bebidas que custavam menos de dez Temers, mas ele pôde sentir que a fermentação daquela cerveja era decorrente de um processo diferente do usual. Não havia o gosto característico da levedura. Os movimentos peristálticos se encarregaram de fazer o alcool percorrer o caminho devido e explodir [Oh Deus uma explosão!] nas paredes do estômago. Ele sentiu o liquido chiando dentro dele. Sentiu o corpo se adaptando com dificuldade à estranha poção. Uma sensação de entorpecimento incomum para uma dose como aquela o assaltava. Os dedos agora pareciam brincar em seu interior.

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