Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Eterno retorno aos embalos de sábado à noite

Matteus ergueu o copo de cristal e despejou parte do líquido no vaso sanitário. O material dourado caiu sobre a água e uma propriedade incomum se revelou aos seus olhos. O líquido formou uma pequena ilha por sobre a água encardida do vaso. Era como óleo ou alguma substância semelhante. Observou que pequenas gotas pareciam vibrar de forma insólita por sobre a água. Como se quisessem escapar. [Oh Deus essa coisa esta viva! tentando viva escapar viva Jesus viva] Seu coração batia acelarado na caixa torácica, o sangue rasgando pelas artérias e injetando oxigênio na massa encefálica em meio a uma superprodução de adrenalina. Lá embaixo a poção vibrava contra a louça do banheiro. Pequenas porções pulavam e escorregavam pela peça de cerâmica. Sua imaginação não conseguia conceber que tipos de micro-organismos eram aqueles. Foi então que lembrou da ausência de levedura na bebida. Que tipo de processos eram usados na fermentação? Não conhecia tão a fundo estes processos, mas sabia que o fungo unicelular era de longe o mais utilizado na fabricação de cervejas. Sabia também que a Wiederkunft era nova o suficiente para que a vigilância sanitária não tivesse detectado problemas significativos em seus processos internos de segurança alimentar. Sabia também que o salário dos agentes sanitários não era exatamente essa maravilha e que uma “ajuda amigável” ia bem para complementar a renda mensal. Sabia também que aquela coisa [Oh Deus Deus oh Deus bom Deus] estava dentro de seu organismo nesse exato instante. Podia ouvir um guincho histérico reverberando lá dentro. Um chiado arrepiante ricocheteando na caverna do sistema digestório.

Ele tragou o cigarro longamente e soltou a fumaça pelo nariz. Pegou o isqueiro BIC e acendeu a chama sobre o copo. O colarinho da loura se desfez e ele ouviu aquele chiado asmático novamente. O líquido maldito formou um pequeno vórtice no copo e gotas espirraram para fora; cada uma gritava em seu mundo de agonia. Matteus largou o copo instintivamente e ele se despedaçou nos ladrilhos de fórmica. A cerveja se espalhou por todo o banheiro e ele escorregou batendo a cabeça na porta. Assustado ele se levantou e comtemplou a dança macabra das gotas correndo pelo chão.

– Vai ficar a noite toda aí cagão?

Batidas ritmadas na porta.

Matteus se levantou e limpou a barra da calça. Desenlaçou o cinto da calça e resolveu mijar antes de sair. A pequena poça que se formara a seus pés começou a correr em círculos ao seu redor enquanto ele balançava o pinto fora da calça.

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Jorge Machado
Eterno retorno aos embalos de sábado à noite

Matteus ergueu o copo de cristal e despejou parte do líquido no vaso sanitário. O material dourado caiu sobre a água e uma propriedade incomum se revelou aos seus olhos. O líquido formou uma pequena ilha por sobre a água encardida do vaso. Era como óleo ou alguma substância semelhante. Observou que pequenas gotas pareciam vibrar de forma insólita por sobre a água. Como se quisessem escapar. [Oh Deus essa coisa esta viva! tentando viva escapar viva Jesus viva] Seu coração batia acelarado na caixa torácica, o sangue rasgando pelas artérias e injetando oxigênio na massa encefálica em meio a uma superprodução de adrenalina. Lá embaixo a poção vibrava contra a louça do banheiro. Pequenas porções pulavam e escorregavam pela peça de cerâmica. Sua imaginação não conseguia conceber que tipos de micro-organismos eram aqueles. Foi então que lembrou da ausência de levedura na bebida. Que tipo de processos eram usados na fermentação? Não conhecia tão a fundo estes processos, mas sabia que o fungo unicelular era de longe o mais utilizado na fabricação de cervejas. Sabia também que a Wiederkunft era nova o suficiente para que a vigilância sanitária não tivesse detectado problemas significativos em seus processos internos de segurança alimentar. Sabia também que o salário dos agentes sanitários não era exatamente essa maravilha e que uma “ajuda amigável” ia bem para complementar a renda mensal. Sabia também que aquela coisa [Oh Deus Deus oh Deus bom Deus] estava dentro de seu organismo nesse exato instante. Podia ouvir um guincho histérico reverberando lá dentro. Um chiado arrepiante ricocheteando na caverna do sistema digestório.

Ele tragou o cigarro longamente e soltou a fumaça pelo nariz. Pegou o isqueiro BIC e acendeu a chama sobre o copo. O colarinho da loura se desfez e ele ouviu aquele chiado asmático novamente. O líquido maldito formou um pequeno vórtice no copo e gotas espirraram para fora; cada uma gritava em seu mundo de agonia. Matteus largou o copo instintivamente e ele se despedaçou nos ladrilhos de fórmica. A cerveja se espalhou por todo o banheiro e ele escorregou batendo a cabeça na porta. Assustado ele se levantou e comtemplou a dança macabra das gotas correndo pelo chão.

– Vai ficar a noite toda aí cagão?

Batidas ritmadas na porta.

Matteus se levantou e limpou a barra da calça. Desenlaçou o cinto da calça e resolveu mijar antes de sair. A pequena poça que se formara a seus pés começou a correr em círculos ao seu redor enquanto ele balançava o pinto fora da calça.

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