Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Eu, Jeff the Killer

          …por favor, não repare no cheiro de morte que vem do porão. Está uma verdadeira bagunça lá embaixo e eu estava com uma preguiça danada de limpar, mas acho que o cheiro não o está incomodando muito, não é mesmo? Eu tomei o cuidado de borrifar um pouco de purificador de ar pela casa de modo que está bem disfarçado. Não pense muito no cheiro, pois, pode começar a sentir as poucas partículas de sangue adocicado que estão misturadas com o odor de lavanda. Vamos pensar em coisas mais agradáveis, que tal?

          Aqui: tome um chá. Se quiser posso lhe oferecer biscoitos também. Tem uma caixa cheia deles na cozinha. Não? Não é do tipo que come enquanto lê? Eu também não. Prefiro desfrutar de uma leitura mais tranquila. No máximo um bom chá ou uma xícara de café bem quente.

          Você deve estar se perguntando sobre minha aparência física neste exato instante. Não fique acanhado, caro leitor. Eu não tenho mais traumas em relação a isso. Foram tempos difíceis na adolescência, mas tudo já passou e tudo o que posso dizer sobre meu rosto desfigurado é que tenho orgulho dele hoje. Meu sorriso é belo e se mantém indefinidamente esculpido em meio às cicatrizes e queimaduras. Eu mesmo fiz o desenho com uma faca de cozinha Tramontina. Não dói mais como antigamente e posso dizer que me orgulho imensamente desse belo sorriso. Sei que causa repulsa em algumas pessoas, mas o que posso fazer a esse respeito? Em mim causa repulsa um rosto lisinho e bem cuidado como o seu. Rostos assim pedem para ser desfeito a faca. Às vezes me imagino redesenhando rostos assim com um serrote. Cortar pedacinhos de carne indesejados e costurar com fio de náilon até ver nascer um rosto novo e mais adequado. Desculpe, não queria ser rude. Você é um convidado aqui e a última coisa que quero que pense é que lhe farei mal.

          Se quiser falar de meu rosto saiba que tenho uma história emocionante pra contar. Assim saberá o que estás por trás dessa horrenda deformação. Eu sempre fui uma criança muito tímida e tinha certa dificuldade em me relacionar. Tenho certeza de que muitas pessoas se identificariam comigo nesse quesito. A adolescência pode ser uma época muito difícil pela qual podem passar algumas pessoas. É certo que esse período é marcante também pela quantidade de mudanças pelas quais você passa. Pelos crescendo pelo corpo, novos desejos florescendo através dos hormônios, novas responsabilidades, escola nova, é tudo muito complicado, é cheio de segredos a serem desvendados. Algumas pessoas podem simplesmente entrar em parafuso com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo. É como meu pai sempre dizia: “-É preciso aprender a mudar o mundo antes que ele te mude para sempre”. E naquele outono o mundo estava me mudando rapidamente.

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Jorge Machado
Eu, Jeff the Killer

          …por favor, não repare no cheiro de morte que vem do porão. Está uma verdadeira bagunça lá embaixo e eu estava com uma preguiça danada de limpar, mas acho que o cheiro não o está incomodando muito, não é mesmo? Eu tomei o cuidado de borrifar um pouco de purificador de ar pela casa de modo que está bem disfarçado. Não pense muito no cheiro, pois, pode começar a sentir as poucas partículas de sangue adocicado que estão misturadas com o odor de lavanda. Vamos pensar em coisas mais agradáveis, que tal?

          Aqui: tome um chá. Se quiser posso lhe oferecer biscoitos também. Tem uma caixa cheia deles na cozinha. Não? Não é do tipo que come enquanto lê? Eu também não. Prefiro desfrutar de uma leitura mais tranquila. No máximo um bom chá ou uma xícara de café bem quente.

          Você deve estar se perguntando sobre minha aparência física neste exato instante. Não fique acanhado, caro leitor. Eu não tenho mais traumas em relação a isso. Foram tempos difíceis na adolescência, mas tudo já passou e tudo o que posso dizer sobre meu rosto desfigurado é que tenho orgulho dele hoje. Meu sorriso é belo e se mantém indefinidamente esculpido em meio às cicatrizes e queimaduras. Eu mesmo fiz o desenho com uma faca de cozinha Tramontina. Não dói mais como antigamente e posso dizer que me orgulho imensamente desse belo sorriso. Sei que causa repulsa em algumas pessoas, mas o que posso fazer a esse respeito? Em mim causa repulsa um rosto lisinho e bem cuidado como o seu. Rostos assim pedem para ser desfeito a faca. Às vezes me imagino redesenhando rostos assim com um serrote. Cortar pedacinhos de carne indesejados e costurar com fio de náilon até ver nascer um rosto novo e mais adequado. Desculpe, não queria ser rude. Você é um convidado aqui e a última coisa que quero que pense é que lhe farei mal.

          Se quiser falar de meu rosto saiba que tenho uma história emocionante pra contar. Assim saberá o que estás por trás dessa horrenda deformação. Eu sempre fui uma criança muito tímida e tinha certa dificuldade em me relacionar. Tenho certeza de que muitas pessoas se identificariam comigo nesse quesito. A adolescência pode ser uma época muito difícil pela qual podem passar algumas pessoas. É certo que esse período é marcante também pela quantidade de mudanças pelas quais você passa. Pelos crescendo pelo corpo, novos desejos florescendo através dos hormônios, novas responsabilidades, escola nova, é tudo muito complicado, é cheio de segredos a serem desvendados. Algumas pessoas podem simplesmente entrar em parafuso com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo. É como meu pai sempre dizia: “-É preciso aprender a mudar o mundo antes que ele te mude para sempre”. E naquele outono o mundo estava me mudando rapidamente.

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