Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Eu, Jeff the Killer

          Morava com minha família e tínhamos acabado de mudar para uma nova casa. Minha mãe e meu pai haviam trabalhado duro para comprar uma casinha humilde em um bairro problemático e, apesar dos pesares, tudo ia melhor do que esperávamos. A nova rotina era difícil de ser absorvida, mas eu e minha irmã estávamos indo bem nessa tarefa. A nova escola era um porre exatamente como a anterior e não demorou muito para que encontrasse alguém que se achasse o maioral e decidisse usar minha cabeça como esfregão de privada. Eu nem lembro mais do nome daquele garoto, mas se tem algo de que não me esqueço, eram as surras depois da aula. Minha irmã não podia fazer muito mais do que torcer para que eu conseguisse revidar os socos daquele brutamonte. Não demorou muito tempo para que eu me cansasse de apanhar e usasse o velho punhal de meu pai escondido na blusa. Foi a primeira vez que vi o sangue jorrando para fora de um corpo humano. Era muito sangue mesmo, você tinha que ter visto. A calçada ficou pintada de vermelho. O brutamonte não teve tempo de perceber o que havia acontecido com sua garganta. Ele ficou um tempão pensando porque o ar estava tão difícil de tragar. Fui uma cena hilária, acredite.

          Claro que aquilo não ficou barato. Os capangas idiotas do brutamonte decidiram que iriam me pegar mais cedo ou mais tarde. Nós tínhamos um vizinho daqueles simpáticos a ponto de serem odiosos e ele insistiu para que meus pais nos levassem ao aniversário de dez anos dele. Eu não estava nem um pouco a fim de ir, acredite, mas éramos novos no bairro e meus pais queriam que nos enturmássemos com as outras crianças. A festa era bonita e dava pra ver que os Toniolli haviam gasto uma nota na decoração. Os salgados estavam deliciosos e os quitutes compunham uma gama de sobremesas das quais eu jamais ouvira falar. Por algumas horas achei que ir àquela festa havia sido uma grande ideia. A única coisa inoportuna foi Marcelo e seus capangas. Marcelo era o irmão mais velho do brutamonte idiota que tinha tido a garganta rasgada na semana anterior. Ele estava puto da vida comigo e eu não pude fazer muito quando eles começaram a me bater. Eles me arrastaram pelo quintal e decidiram que tinham uma surpresa para mim: uma lata de querosene e um palito fósforo. Foi assim que meu rosto adquiriu essa aparência grotesca. Eu pessoalmente só me reconheço com essa face desfigurada. Acho que foi a melhor coisa que me aconteceu. Talvez a segunda melhor. A melhor ainda foi rasgar o bucho de Marcelo e daqueles merdinhas que andavam com ele.

          Mas sabe de uma coisa, caro leitor? Essa história é muito triste, prefiro algo mais alegre. Vou contar uma lenda urbana da qual ouvi falar: havia uma mulher de família que era mãe de três filhos maravilhosos. Ela viveu feliz para sempre.

          -Mentirinha.

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Jorge Machado
Eu, Jeff the Killer

          Morava com minha família e tínhamos acabado de mudar para uma nova casa. Minha mãe e meu pai haviam trabalhado duro para comprar uma casinha humilde em um bairro problemático e, apesar dos pesares, tudo ia melhor do que esperávamos. A nova rotina era difícil de ser absorvida, mas eu e minha irmã estávamos indo bem nessa tarefa. A nova escola era um porre exatamente como a anterior e não demorou muito para que encontrasse alguém que se achasse o maioral e decidisse usar minha cabeça como esfregão de privada. Eu nem lembro mais do nome daquele garoto, mas se tem algo de que não me esqueço, eram as surras depois da aula. Minha irmã não podia fazer muito mais do que torcer para que eu conseguisse revidar os socos daquele brutamonte. Não demorou muito tempo para que eu me cansasse de apanhar e usasse o velho punhal de meu pai escondido na blusa. Foi a primeira vez que vi o sangue jorrando para fora de um corpo humano. Era muito sangue mesmo, você tinha que ter visto. A calçada ficou pintada de vermelho. O brutamonte não teve tempo de perceber o que havia acontecido com sua garganta. Ele ficou um tempão pensando porque o ar estava tão difícil de tragar. Fui uma cena hilária, acredite.

          Claro que aquilo não ficou barato. Os capangas idiotas do brutamonte decidiram que iriam me pegar mais cedo ou mais tarde. Nós tínhamos um vizinho daqueles simpáticos a ponto de serem odiosos e ele insistiu para que meus pais nos levassem ao aniversário de dez anos dele. Eu não estava nem um pouco a fim de ir, acredite, mas éramos novos no bairro e meus pais queriam que nos enturmássemos com as outras crianças. A festa era bonita e dava pra ver que os Toniolli haviam gasto uma nota na decoração. Os salgados estavam deliciosos e os quitutes compunham uma gama de sobremesas das quais eu jamais ouvira falar. Por algumas horas achei que ir àquela festa havia sido uma grande ideia. A única coisa inoportuna foi Marcelo e seus capangas. Marcelo era o irmão mais velho do brutamonte idiota que tinha tido a garganta rasgada na semana anterior. Ele estava puto da vida comigo e eu não pude fazer muito quando eles começaram a me bater. Eles me arrastaram pelo quintal e decidiram que tinham uma surpresa para mim: uma lata de querosene e um palito fósforo. Foi assim que meu rosto adquiriu essa aparência grotesca. Eu pessoalmente só me reconheço com essa face desfigurada. Acho que foi a melhor coisa que me aconteceu. Talvez a segunda melhor. A melhor ainda foi rasgar o bucho de Marcelo e daqueles merdinhas que andavam com ele.

          Mas sabe de uma coisa, caro leitor? Essa história é muito triste, prefiro algo mais alegre. Vou contar uma lenda urbana da qual ouvi falar: havia uma mulher de família que era mãe de três filhos maravilhosos. Ela viveu feliz para sempre.

          -Mentirinha.

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