Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Eu, Jeff the Killer

          Talvez você queira saber um pouco mais sobre ela antes de decidir se ela deve morrer ou não. Pois bem, acho justo contar um pouco da vida dessa infeliz.

          Dona Maroni é bióloga de formação e cabeleireira por opção. Ela adora cuidar das madeixas das clientes que conquistou a duras penas ao longo de anos de dedicação ao ofício. O salão foi uma conquista como tudo na vida. Ela vem de família pobre e lutou sempre contra tudo e todos para criar os filhos. Foram anos difíceis os que ela passou com o velho Lourenço. O “bode véio” como ela gostava de chamá-lo. Era um homem deveras xucro o tal do bode. Batia nela quase todo dia, as marcas de pontapés que perduram até hoje nas costelas não me deixam mentir. Ele batia forte quando queria. Sabia bem como judiar de uma pequena vadia como essa, ô se sabia! O velho bode bebia um bocado todo santo dia e, na falta de trabalho para cansar o corpo, passava as tardes treinando seus cruzados de direita para não perder a prática. O saco de areia que ele desejava estava muito caro. A inflação era a verdadeira culpada das surras de Elizabeth, dizia o velho bode.

          Elizabeth ficou silente por anos enquanto o velho bode aprimorava seus conhecimentos no boxe. Os anos se tornavam cada vez mais longos e, quando as crianças começaram a ser ameaçadas, ela não pensou duas vezes. Abriu a cabeça do bode com a espingarda empoeirada que ficava guardada no depósito. Ela me disse que a tampa da cabeça pulou e bateu no teto, grudando como geleca. Deve ter sido uma visão impagável. Eu disse que ela devia ter fotografado e postado no Instagram. Esses momentos em família merecem ser eternizados, sabe.

          É divertido, até que ponto ela está disposta a ir para proteger a família. Foi uma tarefa e tanto laçar essa vagabundinha. É uma peça e tanto de carne, daquelas que não se pode desperdiçar.

          Será que agora você está pronto para desistir da leitura e deixar essa guerreira viver? Temos um trato?

          Sádico!

          Você persiste na leitura mesmo sabendo que essa pobre moça está prestes a morrer? Devo dizer que isso confirma algumas de minhas expectativas. Não estou decepcionado, acredite. Se algum julgamento sobre a sua pessoa passa pela minha cabeça neste momento é de orgulho, não de desapontamento. De alguma forma eu sempre pensei que isso terminaria dessa maneira.

          Agora vou te mostrar uma coisa que aprendi nos EUA quando tive que desossar um frango. Era verão e tinha acabado de arrumar meu primeiro emprego como atendente de uma rede de Fast Food. Primeiro você precisa apoiar a cabeça da galinha em uma superfície assim… Humpff… Daí você precisa segurar com força e manter a firmeza nas mãos para realizar um corte seco… Assim!

          Pronto. Agora é só apreciar o jorrar do sangue. Sinta o cheiro, leitor. Uma delícia não é mesmo? Não ligue para as gotas que mancham sua roupa. Isso faz sujeira mesmo.

          Agora já acabamos.

          Vá dormir.

 

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Jorge Machado
Eu, Jeff the Killer

          Talvez você queira saber um pouco mais sobre ela antes de decidir se ela deve morrer ou não. Pois bem, acho justo contar um pouco da vida dessa infeliz.

          Dona Maroni é bióloga de formação e cabeleireira por opção. Ela adora cuidar das madeixas das clientes que conquistou a duras penas ao longo de anos de dedicação ao ofício. O salão foi uma conquista como tudo na vida. Ela vem de família pobre e lutou sempre contra tudo e todos para criar os filhos. Foram anos difíceis os que ela passou com o velho Lourenço. O “bode véio” como ela gostava de chamá-lo. Era um homem deveras xucro o tal do bode. Batia nela quase todo dia, as marcas de pontapés que perduram até hoje nas costelas não me deixam mentir. Ele batia forte quando queria. Sabia bem como judiar de uma pequena vadia como essa, ô se sabia! O velho bode bebia um bocado todo santo dia e, na falta de trabalho para cansar o corpo, passava as tardes treinando seus cruzados de direita para não perder a prática. O saco de areia que ele desejava estava muito caro. A inflação era a verdadeira culpada das surras de Elizabeth, dizia o velho bode.

          Elizabeth ficou silente por anos enquanto o velho bode aprimorava seus conhecimentos no boxe. Os anos se tornavam cada vez mais longos e, quando as crianças começaram a ser ameaçadas, ela não pensou duas vezes. Abriu a cabeça do bode com a espingarda empoeirada que ficava guardada no depósito. Ela me disse que a tampa da cabeça pulou e bateu no teto, grudando como geleca. Deve ter sido uma visão impagável. Eu disse que ela devia ter fotografado e postado no Instagram. Esses momentos em família merecem ser eternizados, sabe.

          É divertido, até que ponto ela está disposta a ir para proteger a família. Foi uma tarefa e tanto laçar essa vagabundinha. É uma peça e tanto de carne, daquelas que não se pode desperdiçar.

          Será que agora você está pronto para desistir da leitura e deixar essa guerreira viver? Temos um trato?

          Sádico!

          Você persiste na leitura mesmo sabendo que essa pobre moça está prestes a morrer? Devo dizer que isso confirma algumas de minhas expectativas. Não estou decepcionado, acredite. Se algum julgamento sobre a sua pessoa passa pela minha cabeça neste momento é de orgulho, não de desapontamento. De alguma forma eu sempre pensei que isso terminaria dessa maneira.

          Agora vou te mostrar uma coisa que aprendi nos EUA quando tive que desossar um frango. Era verão e tinha acabado de arrumar meu primeiro emprego como atendente de uma rede de Fast Food. Primeiro você precisa apoiar a cabeça da galinha em uma superfície assim… Humpff… Daí você precisa segurar com força e manter a firmeza nas mãos para realizar um corte seco… Assim!

          Pronto. Agora é só apreciar o jorrar do sangue. Sinta o cheiro, leitor. Uma delícia não é mesmo? Não ligue para as gotas que mancham sua roupa. Isso faz sujeira mesmo.

          Agora já acabamos.

          Vá dormir.

 

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