Identidade - Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Final

Leia a quarta parte aqui: http://maldohorror.com.br/jorge-machado/identidade-parte-04/

 

CAPÍTULO V

 

       Nas semanas seguintes me senti diariamente em um ringue. A rotina se converteu na luta diária contra jornalistas – que não abandonavam a fachada do apartamento de Henry nem por um minuto –, curiosos e a vaidade cega do Dr. Descartes. Ele acabara de dar uma entrevista em um talk show famoso da TV aberta quando o abandonei para sempre com seus espelhos e holofotes.

       A casa que deixei para trás, acompanhando a fonte pelo retrovisor do mercedes, era muito maior do que jamais precisara. Ali, sozinho nos corredores ecoantes, Paulo poderia ouvir e admirar a própria voz.

       Aluguei um apartamento no Bexiga alguns dias depois. Mantive contato com Anna e Henry diariamente. Pouco a pouco os repórteres foram desistindo da caçada pela notícia à medida que novas manchetes, mais interessantes e com maior potencial de distorção, apareciam na pauta editorial.

       Mas as coisas estavam longe de voltar à normalidade. Como disse anteriormente, aquele seria o outono da mesquinhez, da mentira e da pequenez humana. E havia muito disso no frio da capital paulista.

       No dia 19 de agosto de 2004, quando a praça em frente a meu novo apartamento parecia um cemitério de folhas secas, o telefone tocou três vezes antes que pudesse atender e falar com Anna.

       Ela estava agitada, parecia cônscia de que algo terrível estava para acontecer, como se sua intuição estivesse dando choques de ansiedade em cada milímetro da pele. Falou lentamente à frase que me congelou para a sempre a espinha:

       “O Henry morreu.”

       Havia um quê de sonho nos acontecimentos daquele dia. Como se meus movimentos estivessem envoltos em uma água fria, tornando tudo de uma fluidez cinematográfica, como se o mundo fosse tomado por outra forma de organização física do tempo.

       Via as pessoas passarem pela janela aberta do carro como se estivesse rumando para o funeral de um pai querido. Era uma sensação de perda da sensibilidade da vida cotidiana, um mergulho no absurdo, num universo que deveria pertencer ao terreno da fantasia.

       Recordando a conversa que tivera ainda a pouco com Anna, eu continuei dirigindo em direção ao apartamento como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir.

       “Como assim morreu, Anna?”

       “Ele não parece mais o mesmo. Nas últimas semanas imaginei que minha mente estivesse me pregando peças, mas… Deus, ele está mudado.”

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Jorge Machado
Identidade – Final

Leia a quarta parte aqui: http://maldohorror.com.br/jorge-machado/identidade-parte-04/

 

CAPÍTULO V

 

       Nas semanas seguintes me senti diariamente em um ringue. A rotina se converteu na luta diária contra jornalistas – que não abandonavam a fachada do apartamento de Henry nem por um minuto –, curiosos e a vaidade cega do Dr. Descartes. Ele acabara de dar uma entrevista em um talk show famoso da TV aberta quando o abandonei para sempre com seus espelhos e holofotes.

       A casa que deixei para trás, acompanhando a fonte pelo retrovisor do mercedes, era muito maior do que jamais precisara. Ali, sozinho nos corredores ecoantes, Paulo poderia ouvir e admirar a própria voz.

       Aluguei um apartamento no Bexiga alguns dias depois. Mantive contato com Anna e Henry diariamente. Pouco a pouco os repórteres foram desistindo da caçada pela notícia à medida que novas manchetes, mais interessantes e com maior potencial de distorção, apareciam na pauta editorial.

       Mas as coisas estavam longe de voltar à normalidade. Como disse anteriormente, aquele seria o outono da mesquinhez, da mentira e da pequenez humana. E havia muito disso no frio da capital paulista.

       No dia 19 de agosto de 2004, quando a praça em frente a meu novo apartamento parecia um cemitério de folhas secas, o telefone tocou três vezes antes que pudesse atender e falar com Anna.

       Ela estava agitada, parecia cônscia de que algo terrível estava para acontecer, como se sua intuição estivesse dando choques de ansiedade em cada milímetro da pele. Falou lentamente à frase que me congelou para a sempre a espinha:

       “O Henry morreu.”

       Havia um quê de sonho nos acontecimentos daquele dia. Como se meus movimentos estivessem envoltos em uma água fria, tornando tudo de uma fluidez cinematográfica, como se o mundo fosse tomado por outra forma de organização física do tempo.

       Via as pessoas passarem pela janela aberta do carro como se estivesse rumando para o funeral de um pai querido. Era uma sensação de perda da sensibilidade da vida cotidiana, um mergulho no absurdo, num universo que deveria pertencer ao terreno da fantasia.

       Recordando a conversa que tivera ainda a pouco com Anna, eu continuei dirigindo em direção ao apartamento como se o mundo inteiro tivesse deixado de existir.

       “Como assim morreu, Anna?”

       “Ele não parece mais o mesmo. Nas últimas semanas imaginei que minha mente estivesse me pregando peças, mas… Deus, ele está mudado.”

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