Identidade - Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Final

       “Acho que sim. Tem outra coisa… o Sansão. Ele continua estranhando o Henry. Não para de latir para ele como se fosse um estranho. Ele sempre adorou o Henry, apesar de ter ficado com medo após o acidente, mas agora… Ele olha para o rosto de Henry e não o reconhece mais.”

       “Ele só deve estar confuso. Não se preocupe. Já já eu chego e vamos conversar melhor. Ele não está em casa, está?”

       “Não, ele saiu. Disse que tinha que resolver algumas coisas”

       E agora, vinte minutos depois, em meio ao frio cortante do centro, chegava ao apartamento de Sofia. O sol da tarde banhava as construções com um brilho alaranjado e as flores das poucas árvores que cortavam a avenida pelo canteiro central se desmanchavam na geada de agosto.

       Perdida em meio a um turbilhão de neurônios pessimistas que desenhavam um cenário cada vez mais nebuloso do futuro – daquele pesadelo que parecia não ter fim -, subi as escadas mais altas de minha vida. Cada andar parecia acrescentar halteres de dois quilos em cada uma das pernas. Assim que venci a distância que parecia infinita me deparei com a porta do apartamento. Uma porta que já fora um carvalho velho e cansado perdido no meio de uma miríade de outros antes de ser serrado e moldado para a proteção do lar. Um carvalho sem memória, cujas folhas se foram há muito tempo, sublimado pela utilidade da cidade, transformado em coisa para servir ao homem. Sentia-me como aquele carvalho, usada por Descartes e seus experimentos insensatos, suas aspirações selvagens, inescrupulosas.

       “Obrigada por vir”, Anna me convidando a entrar e sentar no sofá da sala ao lado de Sansão.

       A aparente liquidez do mundo ao meu redor só se dissolveu quando afundei na espuma do sofá e acariciei Sansão com a mão esquerda. Ele subiu no meu braço e deu lambidinhas contidas na palma de minha mão.

       “Você precisa me contar tudo o que está acontecendo, Anna. Temos que entender o que O Dr. Descartes está querendo com isso. Tenho certeza de que ele sabe o que está acontecendo.”

       “Você acha?”

       “Claro. Meu marido… meu ex-marido pode ter sérios defeitos de caráter e senso moral, mas é um profissional extraordinário. Se tem algo estranho acontecendo com Henry tenho certeza de que ele sabe algo a respeito. Mas antes acho melhor marcarmos uma consulta com o Dr. Alfredo. Sei que você e Henry têm passado por dificuldades depois do ocorrido então eu pagarei as consultas.”

       “É muita gentileza Sofia, mas…”, pegando o celular e virando a tela para mim. “Aconteceu semana passada.”

       “Dr. Alfredo Montalvan morre em acidente de carro.”, dizia o tabloide midiático. Uma imagem de uma Nissan prata com o vidro da frente trincado em uma mancha enorme estampava a imagem principal do post.

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Jorge Machado
Identidade – Final

       “Acho que sim. Tem outra coisa… o Sansão. Ele continua estranhando o Henry. Não para de latir para ele como se fosse um estranho. Ele sempre adorou o Henry, apesar de ter ficado com medo após o acidente, mas agora… Ele olha para o rosto de Henry e não o reconhece mais.”

       “Ele só deve estar confuso. Não se preocupe. Já já eu chego e vamos conversar melhor. Ele não está em casa, está?”

       “Não, ele saiu. Disse que tinha que resolver algumas coisas”

       E agora, vinte minutos depois, em meio ao frio cortante do centro, chegava ao apartamento de Sofia. O sol da tarde banhava as construções com um brilho alaranjado e as flores das poucas árvores que cortavam a avenida pelo canteiro central se desmanchavam na geada de agosto.

       Perdida em meio a um turbilhão de neurônios pessimistas que desenhavam um cenário cada vez mais nebuloso do futuro – daquele pesadelo que parecia não ter fim -, subi as escadas mais altas de minha vida. Cada andar parecia acrescentar halteres de dois quilos em cada uma das pernas. Assim que venci a distância que parecia infinita me deparei com a porta do apartamento. Uma porta que já fora um carvalho velho e cansado perdido no meio de uma miríade de outros antes de ser serrado e moldado para a proteção do lar. Um carvalho sem memória, cujas folhas se foram há muito tempo, sublimado pela utilidade da cidade, transformado em coisa para servir ao homem. Sentia-me como aquele carvalho, usada por Descartes e seus experimentos insensatos, suas aspirações selvagens, inescrupulosas.

       “Obrigada por vir”, Anna me convidando a entrar e sentar no sofá da sala ao lado de Sansão.

       A aparente liquidez do mundo ao meu redor só se dissolveu quando afundei na espuma do sofá e acariciei Sansão com a mão esquerda. Ele subiu no meu braço e deu lambidinhas contidas na palma de minha mão.

       “Você precisa me contar tudo o que está acontecendo, Anna. Temos que entender o que O Dr. Descartes está querendo com isso. Tenho certeza de que ele sabe o que está acontecendo.”

       “Você acha?”

       “Claro. Meu marido… meu ex-marido pode ter sérios defeitos de caráter e senso moral, mas é um profissional extraordinário. Se tem algo estranho acontecendo com Henry tenho certeza de que ele sabe algo a respeito. Mas antes acho melhor marcarmos uma consulta com o Dr. Alfredo. Sei que você e Henry têm passado por dificuldades depois do ocorrido então eu pagarei as consultas.”

       “É muita gentileza Sofia, mas…”, pegando o celular e virando a tela para mim. “Aconteceu semana passada.”

       “Dr. Alfredo Montalvan morre em acidente de carro.”, dizia o tabloide midiático. Uma imagem de uma Nissan prata com o vidro da frente trincado em uma mancha enorme estampava a imagem principal do post.

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