Identidade - Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Final

       Sentia-me vigiada por olhos de gelo naquele momento. Não era Anna, mas uma sensação, uma intuição, uma vontade de deixar imediatamente aquele apartamento. Neste momento a janela da cozinha recebeu uma lufada gelada de vento e fechou com toda a força lançando no chão ladrilhado uma chuva de cacos de vidro, finos e reluzentes como granizo.

       Havia uma trama que se desenvolvera em algum lugar, um segredo meticulosamente escondido naquela narrativa surreal que se emaranhava ao meu redor. Alguém estava mentindo e alguém estava sendo enganada. Havia um ar conspiratório, como na guerra fria. Como se Anna, Henry ou Paulo fossem me denunciar para uma espécie de comitê de atividades subversivas. Como se houvesse um detalhe que me escapava a todo instante, uma mentira bem elaborada, uma falha que removeria meu chão.

       Olhei atentamente para Anna. Precisava tentar entender se ela não estava escondendo alguma coisa. Era uma boa amiga, disso tinha certeza, mas algo não me inspirava confiança. Ainda não sabia o quê, mas havia uma ponta solta em algum lugar.

       “Como conheceu Alfredo?”, perguntei olhando firmemente para ela.

       “Eu não… eu não conhecia o Alfredo antes”, disse ela olhando para a cozinha.

       Anna nunca fora boa em mentir. Tinha grandes qualidades, mas sempre que mentia desviava o olhar e falava com um tremor característico no lábio.

       “Onde conheceu Alfredo, Anna”, usando meu tom de voz mais persuasivo.

       “Na escola. Antes da faculdade. Tivemos um relacionamento breve, só isso. Por isso eu ficava tão desconfortável nas sessões de terapia de Henry. Não menti por mal Sofia. Apenas não achei que seria importante.”

       “Que tipo de relacionamento tiveram?”

       “Apenas um namorico. Nada sério.”

       “Nunca mais se viram? Quero dizer, nunca mais tiveram um caso?”

       “Não! Deus, eu amo o Henry. Sempre amei, não faria uma coisa dessas.”

       “Não estou interessado no relacionamento que tem com Henry no momento. Quero saber de Alfredo.”

       “Pois é verdade. Nunca mais nos vimos.”

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Jorge Machado
Identidade – Final

       Sentia-me vigiada por olhos de gelo naquele momento. Não era Anna, mas uma sensação, uma intuição, uma vontade de deixar imediatamente aquele apartamento. Neste momento a janela da cozinha recebeu uma lufada gelada de vento e fechou com toda a força lançando no chão ladrilhado uma chuva de cacos de vidro, finos e reluzentes como granizo.

       Havia uma trama que se desenvolvera em algum lugar, um segredo meticulosamente escondido naquela narrativa surreal que se emaranhava ao meu redor. Alguém estava mentindo e alguém estava sendo enganada. Havia um ar conspiratório, como na guerra fria. Como se Anna, Henry ou Paulo fossem me denunciar para uma espécie de comitê de atividades subversivas. Como se houvesse um detalhe que me escapava a todo instante, uma mentira bem elaborada, uma falha que removeria meu chão.

       Olhei atentamente para Anna. Precisava tentar entender se ela não estava escondendo alguma coisa. Era uma boa amiga, disso tinha certeza, mas algo não me inspirava confiança. Ainda não sabia o quê, mas havia uma ponta solta em algum lugar.

       “Como conheceu Alfredo?”, perguntei olhando firmemente para ela.

       “Eu não… eu não conhecia o Alfredo antes”, disse ela olhando para a cozinha.

       Anna nunca fora boa em mentir. Tinha grandes qualidades, mas sempre que mentia desviava o olhar e falava com um tremor característico no lábio.

       “Onde conheceu Alfredo, Anna”, usando meu tom de voz mais persuasivo.

       “Na escola. Antes da faculdade. Tivemos um relacionamento breve, só isso. Por isso eu ficava tão desconfortável nas sessões de terapia de Henry. Não menti por mal Sofia. Apenas não achei que seria importante.”

       “Que tipo de relacionamento tiveram?”

       “Apenas um namorico. Nada sério.”

       “Nunca mais se viram? Quero dizer, nunca mais tiveram um caso?”

       “Não! Deus, eu amo o Henry. Sempre amei, não faria uma coisa dessas.”

       “Não estou interessado no relacionamento que tem com Henry no momento. Quero saber de Alfredo.”

       “Pois é verdade. Nunca mais nos vimos.”

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