Identidade - Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Final

       “Ele tentou alguma coisa com você durante as sessões? Se falaram alguma vez sobre o passado?”

       “Bem… Sim. Ele parecia, em algumas ocasiões, mais interessado em nosso relacionamento do que propriamente em Henry.

       Cheguei até a pensar que quisesse saber mais sobre mim, mas aceitei que estava apenas sendo profissional. Talvez tentando entender como o incidente havia afetado nossa vida conjugal.”

       “Então ele estava interessado em seu casamento.”

       “Acho que sim.”

       “Meu marido sabe disso?”
          “Não, as sessões são feitas sob sigilo profissional. E o puto acabou morrendo, então acho que o Dr. Paulo jamais saberá agora.”

       Uma nova corrente de ar invadiu a cozinha e sansão saltou do sofá e começou a latir para a noite fria.

       Henry chegou em seguida abrindo a porta de carvalho com um estalo. Seu rosto ainda me trazia calafrios. Uma familiaridade mórbida. Mantinha a beleza, as formas angelicais, o nariz em harmonia com o formato do rosto, a boca bem cortada como uma escultura de Bernini. Como um anjo que acabara de descer para a terra. Mas anjos podem ser malignos também.

       Troquei um olhar rápido com Anna. Dez anos de amizade haviam sedimentado nos pequenos gestos o que deveria ser dito nos próximos segundos.

       “Foi bom ver você de novo Anna, mas tenho que voltar agora. Ainda preciso dar um jeito na nova clínica. O rapaz da pintura disse que só podia para hoje à tarde.”, me dirigindo à porta e fazendo uma mesura para Henry, o novo Henry.

       “Foi ótimo te ver novamente. Depois nos falamos pelo celular. Ainda preciso te passar o link daquele artigo da Nature.”

       Dei um beijo na face de Henry para me despedir. O toque da pele acariciou minha bochecha como se fosse linho, mas a expressão de imobilidade no rosto me fez lembrar um androide, uma inteligência artificial habitando uma réplica de corpo humano.

       Fechei a porta e marquei bem a expressão de Anna. Era uma face de insegurança, com uma tonalidade quase invisível de medo escondida em algum lugar.

       Desci as escadas com a cabeça dando voltas em teorias sem sentido. Cada consideração que me parecia lógica era verificada com a maior acurácia possível e descartada assim que chegava a um poço sem saída. A teoria mais ridícula era a do androide. A mais plausível era a dissociação identitária de meu amigo Henry. Talvez ele tivesse entrado em colapso com a mudança repentina de aparência em função da reprovação social que sofrera. Talvez jamais voltasse ao normal. Conhecendo doenças mentais devido à experiência de estágio no Hospital da Gávea, havia entendido que algumas enfermidades acometem os pacientes em momentos de desespero e destroem para sempre uma vida que jamais apresentara sintomas pregressos. Como se a vida de alguém fosse dividida em antes e depois. Uma nova identidade para sempre, uma nova vida, às vezes, preso em uma cela de uma instituição psiquiátrica.

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Jorge Machado
Identidade – Final

       “Ele tentou alguma coisa com você durante as sessões? Se falaram alguma vez sobre o passado?”

       “Bem… Sim. Ele parecia, em algumas ocasiões, mais interessado em nosso relacionamento do que propriamente em Henry.

       Cheguei até a pensar que quisesse saber mais sobre mim, mas aceitei que estava apenas sendo profissional. Talvez tentando entender como o incidente havia afetado nossa vida conjugal.”

       “Então ele estava interessado em seu casamento.”

       “Acho que sim.”

       “Meu marido sabe disso?”
          “Não, as sessões são feitas sob sigilo profissional. E o puto acabou morrendo, então acho que o Dr. Paulo jamais saberá agora.”

       Uma nova corrente de ar invadiu a cozinha e sansão saltou do sofá e começou a latir para a noite fria.

       Henry chegou em seguida abrindo a porta de carvalho com um estalo. Seu rosto ainda me trazia calafrios. Uma familiaridade mórbida. Mantinha a beleza, as formas angelicais, o nariz em harmonia com o formato do rosto, a boca bem cortada como uma escultura de Bernini. Como um anjo que acabara de descer para a terra. Mas anjos podem ser malignos também.

       Troquei um olhar rápido com Anna. Dez anos de amizade haviam sedimentado nos pequenos gestos o que deveria ser dito nos próximos segundos.

       “Foi bom ver você de novo Anna, mas tenho que voltar agora. Ainda preciso dar um jeito na nova clínica. O rapaz da pintura disse que só podia para hoje à tarde.”, me dirigindo à porta e fazendo uma mesura para Henry, o novo Henry.

       “Foi ótimo te ver novamente. Depois nos falamos pelo celular. Ainda preciso te passar o link daquele artigo da Nature.”

       Dei um beijo na face de Henry para me despedir. O toque da pele acariciou minha bochecha como se fosse linho, mas a expressão de imobilidade no rosto me fez lembrar um androide, uma inteligência artificial habitando uma réplica de corpo humano.

       Fechei a porta e marquei bem a expressão de Anna. Era uma face de insegurança, com uma tonalidade quase invisível de medo escondida em algum lugar.

       Desci as escadas com a cabeça dando voltas em teorias sem sentido. Cada consideração que me parecia lógica era verificada com a maior acurácia possível e descartada assim que chegava a um poço sem saída. A teoria mais ridícula era a do androide. A mais plausível era a dissociação identitária de meu amigo Henry. Talvez ele tivesse entrado em colapso com a mudança repentina de aparência em função da reprovação social que sofrera. Talvez jamais voltasse ao normal. Conhecendo doenças mentais devido à experiência de estágio no Hospital da Gávea, havia entendido que algumas enfermidades acometem os pacientes em momentos de desespero e destroem para sempre uma vida que jamais apresentara sintomas pregressos. Como se a vida de alguém fosse dividida em antes e depois. Uma nova identidade para sempre, uma nova vida, às vezes, preso em uma cela de uma instituição psiquiátrica.

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