Identidade - Final - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Final

       Foi quando meu celular começou a vibrar descontroladamente. “PRECISO DE AJUD”, dizia uma mensagem. “PREC DE AJDA. ELE VAI MEMMATAR”, pipocava outra.

       Pulando os degraus de dois em dois, resfolegando pelo esforço físico, comecei a ouvir os latidos de Sansão, abafados pela porta de carvalho. Após um ganido estridente ele se calou e um barulho de mesa sendo virada pairou nos corredores junto com o som de meus sapatos batucando as escadas.

       Quando me deparei com a porta de carvalho novamente estava exausta, mas com o sangue irrigado de adrenalina. Levei as mãos à fechadura e torci para que estivesse destrancada.

       Foi quando a porta explodiu para fora e quebrou meu nariz em dois pedaços. Um filete de sangue grosso escorreu pelo tailleur prata.

       Henry descia as escadas rapidamente e pude vê-lo tropeçando pelo caminho.

       A aparência de liquidez, junto com a sensação distorcida de tempo e movimento, voltou outra vez a me abraçar. Levantei-me com esforço e andei pela sala. Sansão estava no chão, ao lado de uma bagunça de vidro e fragmentos de madeira, o pescoço estava dobrado para trás.

       Anna estava caída na cozinha. A sensação de conspiração não me abandonou, mas agora podia ter certeza de que ela não fazia parte da cúpula de conspiradores. Uma corredeira vermelha escapava de sua garganta ferida.

       Concentrei minhas forças em parar o sangramento.

       Enquanto aguardava o socorro, ali sentada no chão, socorrendo minha melhor amiga, compreendi tudo.

 

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Jorge Machado
Identidade – Final

       Foi quando meu celular começou a vibrar descontroladamente. “PRECISO DE AJUD”, dizia uma mensagem. “PREC DE AJDA. ELE VAI MEMMATAR”, pipocava outra.

       Pulando os degraus de dois em dois, resfolegando pelo esforço físico, comecei a ouvir os latidos de Sansão, abafados pela porta de carvalho. Após um ganido estridente ele se calou e um barulho de mesa sendo virada pairou nos corredores junto com o som de meus sapatos batucando as escadas.

       Quando me deparei com a porta de carvalho novamente estava exausta, mas com o sangue irrigado de adrenalina. Levei as mãos à fechadura e torci para que estivesse destrancada.

       Foi quando a porta explodiu para fora e quebrou meu nariz em dois pedaços. Um filete de sangue grosso escorreu pelo tailleur prata.

       Henry descia as escadas rapidamente e pude vê-lo tropeçando pelo caminho.

       A aparência de liquidez, junto com a sensação distorcida de tempo e movimento, voltou outra vez a me abraçar. Levantei-me com esforço e andei pela sala. Sansão estava no chão, ao lado de uma bagunça de vidro e fragmentos de madeira, o pescoço estava dobrado para trás.

       Anna estava caída na cozinha. A sensação de conspiração não me abandonou, mas agora podia ter certeza de que ela não fazia parte da cúpula de conspiradores. Uma corredeira vermelha escapava de sua garganta ferida.

       Concentrei minhas forças em parar o sangramento.

       Enquanto aguardava o socorro, ali sentada no chão, socorrendo minha melhor amiga, compreendi tudo.

 

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