Identidade - Parte 01 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 01

PRÓLOGO

Dizem que se rumarmos indefinidamente para o norte, sem nenhuma pretensão de destino ou planejamento definido, chegará algum momento em que, numa questão de perspectiva, estaremos indo em direção ao sul, direção oposta da qual partimos inicialmente. Isso acontece porque as noções representadas na rosa dos ventos estão condicionadas a um contexto bidimensional que não é capaz de abarcar a realidade multidimensional do espaço. Pra resumir a conversa: estamos sempre perdidos, sem direção, a sós diante do imponderável. Por mais que achemos que o caminho escolhido é cristalino e que apreciemos o sabor doce do autoengano, ainda assim a humanidade está à deriva, esperando pacientemente para ser levada pelas ondas do acaso até a enseada da solidão. Sem mãos dadas, sem promessas, sem esperança. Assim foi com Anna. Assim foi comigo. Como uma pedra caiada que despenca da encosta para acordar uma dorminhoca, assim percebi essa verdade incomoda sobre o casamento: a melhor forma de ficar sozinhos juntos.

Existe uma metáfora fraquíssima que fala que a vida é como uma estrada: um longo percurso em território desconhecido, uma pista de asfalto liso que precisa ser desbravada pela intrepidez humana. É possível se contentar com esta visão, mas tenho a impressão de que a maioria das pessoas não está olhando atentamente para a estrada. A pista não é lisa se você prestar a devida atenção. O terreno é acidentado, a manutenção não é feita há tempos, os pneus trepidam a todo momento e se você olhar para o lado do carona verá que o banco está vazio como sempre esteve. Há ainda aquelas pessoas de sempre no acostamento que observam atentamente e torcem para que o carro capote, para que você perca o controle e deslize para fora da pista.

O carro metafórico em que Anna estava sofreu o mais grave dos acidentes. Um daqueles eventos da vida que só acontecem uma única vez, mas marcam para sempre a história. Começou com um incêndio que tomou conta do edifício Trelkovski, um prédio antigo que mantinha apartamentos alugados para a classe média paulista. A edificação não possuía as mais adequadas políticas de segurança contra incêndio e o prejuízo era certo assim que os primeiros moradores, nos andares seis e sete, perceberam o forte odor de fumaça e móveis queimados. Os redatores dos manuais de comportamento para incêndios ficariam escandalizados com a maneira pouco ordeira e atabalhoada com que os moradores decidiram abandonar suas casas, pés descalços corriam em desespero pelos corredores do edifício, senhoras eram empurradas por adolescentes com camisas de marca, extintores de incêndio eram chutados por alguns apressados que tentavam escapar das chamas, um pandemônio digno da mentalidade pequeno burguesa: na primeira evidência de crise é cada um por si, “Corram para as colinas”, um Deus vos acuda de pequenos proprietários e advogados metidos. Não quero que me tomem por insensível, mas humor negro se faz necessário para aliviar o peso das palavras que se seguirão.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 01

PRÓLOGO

Dizem que se rumarmos indefinidamente para o norte, sem nenhuma pretensão de destino ou planejamento definido, chegará algum momento em que, numa questão de perspectiva, estaremos indo em direção ao sul, direção oposta da qual partimos inicialmente. Isso acontece porque as noções representadas na rosa dos ventos estão condicionadas a um contexto bidimensional que não é capaz de abarcar a realidade multidimensional do espaço. Pra resumir a conversa: estamos sempre perdidos, sem direção, a sós diante do imponderável. Por mais que achemos que o caminho escolhido é cristalino e que apreciemos o sabor doce do autoengano, ainda assim a humanidade está à deriva, esperando pacientemente para ser levada pelas ondas do acaso até a enseada da solidão. Sem mãos dadas, sem promessas, sem esperança. Assim foi com Anna. Assim foi comigo. Como uma pedra caiada que despenca da encosta para acordar uma dorminhoca, assim percebi essa verdade incomoda sobre o casamento: a melhor forma de ficar sozinhos juntos.

Existe uma metáfora fraquíssima que fala que a vida é como uma estrada: um longo percurso em território desconhecido, uma pista de asfalto liso que precisa ser desbravada pela intrepidez humana. É possível se contentar com esta visão, mas tenho a impressão de que a maioria das pessoas não está olhando atentamente para a estrada. A pista não é lisa se você prestar a devida atenção. O terreno é acidentado, a manutenção não é feita há tempos, os pneus trepidam a todo momento e se você olhar para o lado do carona verá que o banco está vazio como sempre esteve. Há ainda aquelas pessoas de sempre no acostamento que observam atentamente e torcem para que o carro capote, para que você perca o controle e deslize para fora da pista.

O carro metafórico em que Anna estava sofreu o mais grave dos acidentes. Um daqueles eventos da vida que só acontecem uma única vez, mas marcam para sempre a história. Começou com um incêndio que tomou conta do edifício Trelkovski, um prédio antigo que mantinha apartamentos alugados para a classe média paulista. A edificação não possuía as mais adequadas políticas de segurança contra incêndio e o prejuízo era certo assim que os primeiros moradores, nos andares seis e sete, perceberam o forte odor de fumaça e móveis queimados. Os redatores dos manuais de comportamento para incêndios ficariam escandalizados com a maneira pouco ordeira e atabalhoada com que os moradores decidiram abandonar suas casas, pés descalços corriam em desespero pelos corredores do edifício, senhoras eram empurradas por adolescentes com camisas de marca, extintores de incêndio eram chutados por alguns apressados que tentavam escapar das chamas, um pandemônio digno da mentalidade pequeno burguesa: na primeira evidência de crise é cada um por si, “Corram para as colinas”, um Deus vos acuda de pequenos proprietários e advogados metidos. Não quero que me tomem por insensível, mas humor negro se faz necessário para aliviar o peso das palavras que se seguirão.

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