Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 01

Ainda naquela noite uma pessoa ardia no sétimo andar. Os gritos ecoavam no corredor numa sinfonia funesta em mi maior, como se saíssem de salas mal iluminadas em Guantânamo ou Abhu Graib. A pele fervia, estalava, criava bolinhas inflamadas enquanto um dos globos oculares derretia pelo calor intenso. O homem que rolava no chão tentando apagar as labaredas se chamava Henry da Conceição, na época marido de Anna e um grande amigo de minha família. Minutos antes de precisar rolar no chão na esperança vã de apagar as chamas, ele tentara abrir a porta para salvar alguns equipamentos de trabalho. A súbita alteração de pressão fez com que a sala explodisse de dentro para fora como se fosse ano novo, as chamas consumiram imediatamente o oxigênio ao redor, ávidas por se alastrar pela sala e lançar seus dedos destrutivos pelo carpete e mobília. A dança do fogo gingou por todo o sétimo andar e contagiou a todos os apartamentos vizinhos, o ritmo tomou conta da cozinha dos Fonseca – inquilinos que sempre zelaram pela boa convivência -, o oxigênio alimentou a valsa da morte por mais dois minutos e outra explosão foi ouvida.

Henry vai sobreviver, ele não teve sorte o suficiente para morrer naquela sexta feira 13. Ele morreria anos depois, muito depois das cicatrizes se tornarem estáticas marcando sua pele para sempre como se fosse feita de cera, muito depois das semanas desperdiçadas na unidade de tratamento intensivo do Hospital das Clinicas, muito depois das quatro cirurgias corretivas e enxertos, muito depois das horas de fisioterapia, muito depois do diagnóstico que o tiraria para sempre da perspectiva de continuar no atletismo, muito depois das inúmeras pessoas que se sentiram enojadas com seu novo rosto continuarem encarando-o num exercício de resistência pessoal, muito depois dos incontáveis comentários de canto de boca em Shoppings e supermercados que elevavam sua sensação de mal estar diante do mundo ao patamar da humilhação pública cotidiana.

Para efeito de proteção das pessoas envolvidas troquei todos os nomes e me dei à liberdade de preencher as lacunas de minha pesquisa e memoria com uma ficção plausível. O sofrimento das famílias envolvidas já é grande demais para que sejam citados neste documento. Ainda assim não podia deixar de escrever estas palavras, por mais dolorosas que elas sejam. Os acontecimentos daquele outono, três anos depois do incêndio, quase sete anos após o casamento de Henry e Anna, marcaram para sempre a minha trajetória. Todos os sonhos se perderam naquele outono. Foi o outono em que decidi colocar 130 miligramas de silicone numa frustrada tentativa de salvar meu casamento com Paulo, o outono em que o acaso se manifestou em sua forma mais desumana, o outono em que um bêbado adormecera com um cigarro aceso em sua confortável poltrona no sexto andar causando a morte de quatro pessoas e condenando várias outras a anos de insônia e medo, o outono em que a mesquinhez – como se verá – de alguns poucos, pessoas com a envergadura moral de um piolho, condenou famílias inteiras a uma derrocada da qual seria impossível se recuperar. Foi o outono da inveja, da pequenez e da loucura. A mim restava apenas, como uma folha em um enorme carvalho, no outono, murchar e cair.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 01

Ainda naquela noite uma pessoa ardia no sétimo andar. Os gritos ecoavam no corredor numa sinfonia funesta em mi maior, como se saíssem de salas mal iluminadas em Guantânamo ou Abhu Graib. A pele fervia, estalava, criava bolinhas inflamadas enquanto um dos globos oculares derretia pelo calor intenso. O homem que rolava no chão tentando apagar as labaredas se chamava Henry da Conceição, na época marido de Anna e um grande amigo de minha família. Minutos antes de precisar rolar no chão na esperança vã de apagar as chamas, ele tentara abrir a porta para salvar alguns equipamentos de trabalho. A súbita alteração de pressão fez com que a sala explodisse de dentro para fora como se fosse ano novo, as chamas consumiram imediatamente o oxigênio ao redor, ávidas por se alastrar pela sala e lançar seus dedos destrutivos pelo carpete e mobília. A dança do fogo gingou por todo o sétimo andar e contagiou a todos os apartamentos vizinhos, o ritmo tomou conta da cozinha dos Fonseca – inquilinos que sempre zelaram pela boa convivência -, o oxigênio alimentou a valsa da morte por mais dois minutos e outra explosão foi ouvida.

Henry vai sobreviver, ele não teve sorte o suficiente para morrer naquela sexta feira 13. Ele morreria anos depois, muito depois das cicatrizes se tornarem estáticas marcando sua pele para sempre como se fosse feita de cera, muito depois das semanas desperdiçadas na unidade de tratamento intensivo do Hospital das Clinicas, muito depois das quatro cirurgias corretivas e enxertos, muito depois das horas de fisioterapia, muito depois do diagnóstico que o tiraria para sempre da perspectiva de continuar no atletismo, muito depois das inúmeras pessoas que se sentiram enojadas com seu novo rosto continuarem encarando-o num exercício de resistência pessoal, muito depois dos incontáveis comentários de canto de boca em Shoppings e supermercados que elevavam sua sensação de mal estar diante do mundo ao patamar da humilhação pública cotidiana.

Para efeito de proteção das pessoas envolvidas troquei todos os nomes e me dei à liberdade de preencher as lacunas de minha pesquisa e memoria com uma ficção plausível. O sofrimento das famílias envolvidas já é grande demais para que sejam citados neste documento. Ainda assim não podia deixar de escrever estas palavras, por mais dolorosas que elas sejam. Os acontecimentos daquele outono, três anos depois do incêndio, quase sete anos após o casamento de Henry e Anna, marcaram para sempre a minha trajetória. Todos os sonhos se perderam naquele outono. Foi o outono em que decidi colocar 130 miligramas de silicone numa frustrada tentativa de salvar meu casamento com Paulo, o outono em que o acaso se manifestou em sua forma mais desumana, o outono em que um bêbado adormecera com um cigarro aceso em sua confortável poltrona no sexto andar causando a morte de quatro pessoas e condenando várias outras a anos de insônia e medo, o outono em que a mesquinhez – como se verá – de alguns poucos, pessoas com a envergadura moral de um piolho, condenou famílias inteiras a uma derrocada da qual seria impossível se recuperar. Foi o outono da inveja, da pequenez e da loucura. A mim restava apenas, como uma folha em um enorme carvalho, no outono, murchar e cair.

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