Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 01

CAPÍTULO I – Parte 01

A história de vida de Anna e Henry está intimamente ligada com a minha. Em 19 de agosto de 1974, na cidade de Macaé, no Rio, meus pais, Larissa e Bernardo Santhiago, registravam meu nome como Sofia Santhiago no cartório local. Eles não imaginavam que esse nome, herdeiro direto de uma linhagem de funcionários públicos e burocratas supérfluos, seria o nome mais lembrado em feiras e congressos de cirurgia plástica pelo mundo. As aspirações da família sempre haviam sido, até então, a estabilidade e o esquecimento, uma espécie de atração irresistível pelo anonimato e pela segurança, atração essa que fiquei feliz em evitar. Minha personalidade, desde a tenra idade, sempre se assemelhou a um bisturi afiado: rasgava todos os véus que desejavam colocar em minha visão, detestava com todas as forças qualquer coisa que pudesse turvar minha vista, fazer com que me distraísse dos pequenos detalhes, das minúsculas janelas que me fariam enxergar um panorama mais amplo da realidade sensível. O pensamento científico, o método, foi o bálsamo que me libertou de um destino de apatia nas repartições governamentais. As ciências; a física, a química, a biologia foram as chaves das algemas familiares.

A medicina foi a escolha e o caminho era árduo; as incontáveis horas de estudo e sono perdido me garantiram uma vaga na federal do Rio de Janeiro, mas o sofrimento psíquico apenas começava. A carga de estudos exigida por uma das melhores faculdades de medicina do país incluía certa dose de sadismo, um último teste antes da liberação dos discentes para o mercado de trabalho, uma enorme quantidade de informação a ser absorvida em pouquíssimo tempo, quase nenhuma recompensa, muitos contratempos. Meu tempo livre era praticamente todo absorvido pelas filas das fotocopiadoras e refeitórios. Algumas poucas oportunidades para a descontração, a cervejada de fim de semana, quando não havia provas ou trabalhos para serem entregues.

Ainda no primeiro semestre comecei a morar com algumas amigas em uma república. As contas não eram tão altas e eu conseguia me manter com a ajuda de custo do estágio sem precisar apelar para o dinheiro que meus pais insistiam em mandar. Não fiz muitas amigas na faculdade devido a concentração excessiva que mantinha no curso. Eu ficava fascinada com a quantidade de conhecimento que precisaria absorver para me formar. Era um misto agridoce de sensações: de um lado a satisfação de aprender cada vez mais sobre o mundo; de outro a autoreprovação pela dificuldade em acompanhar tudo o que era apresentado. Na época existia outra Sofia, uma garota sem muito jeito para a comunicação e com um grande desejo (genuíno e ingênuo) de conhecer mais do mundo, da vida. Uma expectativa boboca que seria atropelada pela realidade brutal do campus. A velha Sofia foi assassinada ainda no primeiro ano quando estava a beira de um colapso, com as semanas de provas do segundo semestre se aproximando como um trem, apitando cada vez mais alto, e a capacidade de conciliação da leitura necessária para realiza-las embaixo de trilhos lodacentos. Ela – eu – conheceu Henry nesta época.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 01

CAPÍTULO I – Parte 01

A história de vida de Anna e Henry está intimamente ligada com a minha. Em 19 de agosto de 1974, na cidade de Macaé, no Rio, meus pais, Larissa e Bernardo Santhiago, registravam meu nome como Sofia Santhiago no cartório local. Eles não imaginavam que esse nome, herdeiro direto de uma linhagem de funcionários públicos e burocratas supérfluos, seria o nome mais lembrado em feiras e congressos de cirurgia plástica pelo mundo. As aspirações da família sempre haviam sido, até então, a estabilidade e o esquecimento, uma espécie de atração irresistível pelo anonimato e pela segurança, atração essa que fiquei feliz em evitar. Minha personalidade, desde a tenra idade, sempre se assemelhou a um bisturi afiado: rasgava todos os véus que desejavam colocar em minha visão, detestava com todas as forças qualquer coisa que pudesse turvar minha vista, fazer com que me distraísse dos pequenos detalhes, das minúsculas janelas que me fariam enxergar um panorama mais amplo da realidade sensível. O pensamento científico, o método, foi o bálsamo que me libertou de um destino de apatia nas repartições governamentais. As ciências; a física, a química, a biologia foram as chaves das algemas familiares.

A medicina foi a escolha e o caminho era árduo; as incontáveis horas de estudo e sono perdido me garantiram uma vaga na federal do Rio de Janeiro, mas o sofrimento psíquico apenas começava. A carga de estudos exigida por uma das melhores faculdades de medicina do país incluía certa dose de sadismo, um último teste antes da liberação dos discentes para o mercado de trabalho, uma enorme quantidade de informação a ser absorvida em pouquíssimo tempo, quase nenhuma recompensa, muitos contratempos. Meu tempo livre era praticamente todo absorvido pelas filas das fotocopiadoras e refeitórios. Algumas poucas oportunidades para a descontração, a cervejada de fim de semana, quando não havia provas ou trabalhos para serem entregues.

Ainda no primeiro semestre comecei a morar com algumas amigas em uma república. As contas não eram tão altas e eu conseguia me manter com a ajuda de custo do estágio sem precisar apelar para o dinheiro que meus pais insistiam em mandar. Não fiz muitas amigas na faculdade devido a concentração excessiva que mantinha no curso. Eu ficava fascinada com a quantidade de conhecimento que precisaria absorver para me formar. Era um misto agridoce de sensações: de um lado a satisfação de aprender cada vez mais sobre o mundo; de outro a autoreprovação pela dificuldade em acompanhar tudo o que era apresentado. Na época existia outra Sofia, uma garota sem muito jeito para a comunicação e com um grande desejo (genuíno e ingênuo) de conhecer mais do mundo, da vida. Uma expectativa boboca que seria atropelada pela realidade brutal do campus. A velha Sofia foi assassinada ainda no primeiro ano quando estava a beira de um colapso, com as semanas de provas do segundo semestre se aproximando como um trem, apitando cada vez mais alto, e a capacidade de conciliação da leitura necessária para realiza-las embaixo de trilhos lodacentos. Ela – eu – conheceu Henry nesta época.

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