Identidade - Parte 02 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 02

       Eu me tornei mais “solta” como diziam meus novos amigos. Não sei dizer se estava apaixonada por Henry – não era exatamente disso que se tratava -, era uma sensação nova de liberdade.

       No fim das contas o fato de me preocupar menos com as questões da faculdade, ao invés de me afastar das boas notas, me ajudou a melhorar gradativamente. Em poucos meses já havia recuperado o que ficara devendo no semestre anterior, as notas melhoravam à medida que dividia melhor meu tempo entre os estudos e as amizades recém-conquistadas. Anna, uma garota próxima a Henry, minha futura melhor amiga, me ajudou com algumas matérias enquanto eu a ajudava com os trabalhos de Anatomia e Bioquímica. Foi nessa época que ela e Henry assumiram o namoro. Não foi como uma decepção para mim, quero dizer, sempre gostei de Henry, de sua facilidade para comunicar sentimentos, de sua irreverência contagiante, de suas piadas inventadas na hora, de seu jeito especial de contar histórias – mesmo as mais trágicas se tornavam engraçadíssimas saindo de sua boca –, no entanto, meu “gostar” nunca envolveu esse tipo de desejo por ele. Fiquei feliz de verdade por Anna. Eu não tinha como saber como as coisas se passariam, mas desejei os melhores votos para essa relação desde o princípio. Anna e Henry, sem dúvida um casal pelo qual valia a pena torcer.
A academia da faculdade era o local favorito de Henry. Ele praticava levantamento de peso e já competira em algumas modalidades antes de cursar medicina. Houve uma tarde, o sol tingia o pátio do campus com uma tonalidade vermelha e algumas folhas dançavam solitárias no pé de uma árvore velha, em que henry me contou tudo sobre levantamento de peso e halterofilismo. Disse que seu sonho era competir mundialmente, talvez ganhar alguma fama e representar o país no exterior. Ele falava com um certo ar patriótico, como se fosse imbuído de um senso divino, uma determinação messiânica. Foi quando percebi que ele jamais terminaria o curso de medicina.

       “Eu serei grande ainda Sofia”, ele disse. “Farei com que todos reconheçam meu esforço. A vida não me deu muitas qualidades, mas acho que agora sei no que apostar, sabe? Tenho uma convicção muito forte de que este é meu destino, vou treinar duro este ano e vou concorrer com os melhores e desbancá-los um a um.”

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Jorge Machado
Identidade – Parte 02

       Eu me tornei mais “solta” como diziam meus novos amigos. Não sei dizer se estava apaixonada por Henry – não era exatamente disso que se tratava -, era uma sensação nova de liberdade.

       No fim das contas o fato de me preocupar menos com as questões da faculdade, ao invés de me afastar das boas notas, me ajudou a melhorar gradativamente. Em poucos meses já havia recuperado o que ficara devendo no semestre anterior, as notas melhoravam à medida que dividia melhor meu tempo entre os estudos e as amizades recém-conquistadas. Anna, uma garota próxima a Henry, minha futura melhor amiga, me ajudou com algumas matérias enquanto eu a ajudava com os trabalhos de Anatomia e Bioquímica. Foi nessa época que ela e Henry assumiram o namoro. Não foi como uma decepção para mim, quero dizer, sempre gostei de Henry, de sua facilidade para comunicar sentimentos, de sua irreverência contagiante, de suas piadas inventadas na hora, de seu jeito especial de contar histórias – mesmo as mais trágicas se tornavam engraçadíssimas saindo de sua boca –, no entanto, meu “gostar” nunca envolveu esse tipo de desejo por ele. Fiquei feliz de verdade por Anna. Eu não tinha como saber como as coisas se passariam, mas desejei os melhores votos para essa relação desde o princípio. Anna e Henry, sem dúvida um casal pelo qual valia a pena torcer.
A academia da faculdade era o local favorito de Henry. Ele praticava levantamento de peso e já competira em algumas modalidades antes de cursar medicina. Houve uma tarde, o sol tingia o pátio do campus com uma tonalidade vermelha e algumas folhas dançavam solitárias no pé de uma árvore velha, em que henry me contou tudo sobre levantamento de peso e halterofilismo. Disse que seu sonho era competir mundialmente, talvez ganhar alguma fama e representar o país no exterior. Ele falava com um certo ar patriótico, como se fosse imbuído de um senso divino, uma determinação messiânica. Foi quando percebi que ele jamais terminaria o curso de medicina.

       “Eu serei grande ainda Sofia”, ele disse. “Farei com que todos reconheçam meu esforço. A vida não me deu muitas qualidades, mas acho que agora sei no que apostar, sabe? Tenho uma convicção muito forte de que este é meu destino, vou treinar duro este ano e vou concorrer com os melhores e desbancá-los um a um.”

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