Identidade - Parte 02 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 02

       Ao longo de um ano, enquanto as folhas das árvores caíam e eram substituídas por novas, ele ganhou uma massa muscular invejável. Suas mãos cresceram e calejaram, seus braços engrossaram até o ponto de parecerem que iam estourar, a vascularização deixou sua pele vermelha e áspera, veias saltando em cada ponto visível do corpo. Ele estava feliz. Não era um culto cego ao corpo, mas uma felicidade que provinha do orgulho pelo resultado de meses de preparação. Ele foi vencedor do nacional de halterofilismo daquele ano e sentia que o sonho de representar o país estava cada vez mais próximo. Suas notas pioravam a cada dia, mas ele já não se dedicava como antes. Abandonou a medicina – o sonho de sua mãe – um mês depois. Menos de um semestre se passou até que Anna também desistisse para acompanhar o namorado em seu sonho. Nunca deixamos de manter contato. Anna e Henry se tornaram as pessoas mais importantes de minha vida com exceção de meus pais.

       A velha Sofia teria voltado não fosse a pessoa pela qual dediquei grande parte de minha vida desde então: Paulo Descartes, meu marido e sócio.

       No último ano da graduação eu dividia meu tempo entre as horas como residente no Hospital da Gávea e as horas de estudo para concluir o curso. Foi uma época difícil, muito trabalho e pouco retorno, fosse financeiro, fosse pessoal. A saúde pública brasileira parecia estar congelada nos anos 1960. Em alguns momentos parecíamos membros da ONU em uma missão em países pobres assolados pela guerra. Perdi a conta de quantos baleados atendi enquanto estive naquele hospital. Havia um cirurgião, Gustavo Pontes, que se tornara especialista em atendimento aos feridos por tiros de fuzil. Nesse período difícil conheci Paulo em uma palestra sobre cirurgias plásticas reconstrutivas. O Doutor Otto Romanov ministrava o minicurso que mudou nossas vidas naquela noite. Saímos do auditório discutindo sobre os assuntos levantados e vimos rapidamente que havia uma intersecção muito grande de interesses acadêmicos entre nós. Ambos nutríamos o sonho de ter uma clínica de intervenções estéticas. O tempo provaria que nossas motivações eram diferentes, mas ainda assim não era a única coisa que tínhamos em comum.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 02

       Ao longo de um ano, enquanto as folhas das árvores caíam e eram substituídas por novas, ele ganhou uma massa muscular invejável. Suas mãos cresceram e calejaram, seus braços engrossaram até o ponto de parecerem que iam estourar, a vascularização deixou sua pele vermelha e áspera, veias saltando em cada ponto visível do corpo. Ele estava feliz. Não era um culto cego ao corpo, mas uma felicidade que provinha do orgulho pelo resultado de meses de preparação. Ele foi vencedor do nacional de halterofilismo daquele ano e sentia que o sonho de representar o país estava cada vez mais próximo. Suas notas pioravam a cada dia, mas ele já não se dedicava como antes. Abandonou a medicina – o sonho de sua mãe – um mês depois. Menos de um semestre se passou até que Anna também desistisse para acompanhar o namorado em seu sonho. Nunca deixamos de manter contato. Anna e Henry se tornaram as pessoas mais importantes de minha vida com exceção de meus pais.

       A velha Sofia teria voltado não fosse a pessoa pela qual dediquei grande parte de minha vida desde então: Paulo Descartes, meu marido e sócio.

       No último ano da graduação eu dividia meu tempo entre as horas como residente no Hospital da Gávea e as horas de estudo para concluir o curso. Foi uma época difícil, muito trabalho e pouco retorno, fosse financeiro, fosse pessoal. A saúde pública brasileira parecia estar congelada nos anos 1960. Em alguns momentos parecíamos membros da ONU em uma missão em países pobres assolados pela guerra. Perdi a conta de quantos baleados atendi enquanto estive naquele hospital. Havia um cirurgião, Gustavo Pontes, que se tornara especialista em atendimento aos feridos por tiros de fuzil. Nesse período difícil conheci Paulo em uma palestra sobre cirurgias plásticas reconstrutivas. O Doutor Otto Romanov ministrava o minicurso que mudou nossas vidas naquela noite. Saímos do auditório discutindo sobre os assuntos levantados e vimos rapidamente que havia uma intersecção muito grande de interesses acadêmicos entre nós. Ambos nutríamos o sonho de ter uma clínica de intervenções estéticas. O tempo provaria que nossas motivações eram diferentes, mas ainda assim não era a única coisa que tínhamos em comum.

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