Identidade - Parte 02 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 02

       Fazia frio quando nos encontramos pela primeira vez no centro da cidade para ir a uma sessão de cinema. Após o filme – The Tenant, de Polanski –, fomos até uma praça para conversarmos um pouco mais. Era uma aproximação que não acontecia há anos comigo. O frio cortante da tarde – uma raridade na cidade maravilhosa – foi dissipado pelo calor de seu beijo. Não foi meu primeiro beijo, mas senti como se fosse. Abracei Paulo como uma nova oportunidade, uma chance de prosseguir com minha vida, de esquecer de vez da velha Sofia. Enterrá-la para sempre no passado. Ainda naquele domingo, ouvindo o vento cortante do inverno contra o vidro do janelão da sala, entreguei todo o meu calor para Paulo e ele me entregou o seu de volta. Nos amamos no sofá e na cama, no banheiro e no corredor, por anos e anos. Entre entregas de trabalhos e provas, entre estágios mal remunerados e a sonhada vaga que consegui no Hospital São Vicente, na época, um dos mais respeitados do setor privado. Entre as idas e vindas da profissão continuamos nos amando. Na época difícil e, depois, nos momentos de reconhecimento e vitória. Antes e depois do doutoramento – que ambos fizemos – em cirurgia plástica reconstrutiva. Antes e depois da abertura da clínica em Copacabana. Antes e depois do enriquecimento assustador diante da cruel realidade da cidade do Rio de Janeiro, dos desfigurados pela guerra às drogas, das inúmeras baixas que precisavam de uma melhor aparência para o enterro, dos desfigurados pela democracia mais violenta que uma nação já teve.

       Eu me sentia magnânima montada em meu homem, sentindo seu suor exalando uma nota da fragrância francesa que trouxera de Nice no último simpósio de tecnologias de reconstrução facial. Era ainda o tempo do desejo, do sexo incontido, das juras de amor eterno, das carícias matinais, das renovações de votos. Antes da expansão acelerada da indústria da beleza e das buscas incessantes por métodos cirúrgicos de ponta.

       A clínica crescera em meados de 1999, pouco antes da virada do milênio. A meritocracia nos prega peças hilárias quando prestamos atenção aos detalhes. O fator derradeiro para o sucesso nos negócios era nada menos que uma ironia das mais saborosas. Em São Paulo, assim que nos mudamos para a metrópole das oportunidades, havia uma movimentação complexa acontecendo, alguns analistas políticos, vários que inclusive admiro, ainda hoje não perceberam as cartas que foram postas à mesa. Começou com um sequestro em Sorocaba onde um jovem empresário chegava de seu escritório a sua casa, mas era surpreendido por um garoto de dezesseis anos que portava um fuzil e uma boca suja. O carro não possuía blindagem (a moda “primavera vidro temperado” ainda não chegara na capital) e o dono não teve opção a não ser obedecer a um menino que podia ser seu filho de acordo com as tristes estatísticas de gravidez na juventude.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 02

       Fazia frio quando nos encontramos pela primeira vez no centro da cidade para ir a uma sessão de cinema. Após o filme – The Tenant, de Polanski –, fomos até uma praça para conversarmos um pouco mais. Era uma aproximação que não acontecia há anos comigo. O frio cortante da tarde – uma raridade na cidade maravilhosa – foi dissipado pelo calor de seu beijo. Não foi meu primeiro beijo, mas senti como se fosse. Abracei Paulo como uma nova oportunidade, uma chance de prosseguir com minha vida, de esquecer de vez da velha Sofia. Enterrá-la para sempre no passado. Ainda naquele domingo, ouvindo o vento cortante do inverno contra o vidro do janelão da sala, entreguei todo o meu calor para Paulo e ele me entregou o seu de volta. Nos amamos no sofá e na cama, no banheiro e no corredor, por anos e anos. Entre entregas de trabalhos e provas, entre estágios mal remunerados e a sonhada vaga que consegui no Hospital São Vicente, na época, um dos mais respeitados do setor privado. Entre as idas e vindas da profissão continuamos nos amando. Na época difícil e, depois, nos momentos de reconhecimento e vitória. Antes e depois do doutoramento – que ambos fizemos – em cirurgia plástica reconstrutiva. Antes e depois da abertura da clínica em Copacabana. Antes e depois do enriquecimento assustador diante da cruel realidade da cidade do Rio de Janeiro, dos desfigurados pela guerra às drogas, das inúmeras baixas que precisavam de uma melhor aparência para o enterro, dos desfigurados pela democracia mais violenta que uma nação já teve.

       Eu me sentia magnânima montada em meu homem, sentindo seu suor exalando uma nota da fragrância francesa que trouxera de Nice no último simpósio de tecnologias de reconstrução facial. Era ainda o tempo do desejo, do sexo incontido, das juras de amor eterno, das carícias matinais, das renovações de votos. Antes da expansão acelerada da indústria da beleza e das buscas incessantes por métodos cirúrgicos de ponta.

       A clínica crescera em meados de 1999, pouco antes da virada do milênio. A meritocracia nos prega peças hilárias quando prestamos atenção aos detalhes. O fator derradeiro para o sucesso nos negócios era nada menos que uma ironia das mais saborosas. Em São Paulo, assim que nos mudamos para a metrópole das oportunidades, havia uma movimentação complexa acontecendo, alguns analistas políticos, vários que inclusive admiro, ainda hoje não perceberam as cartas que foram postas à mesa. Começou com um sequestro em Sorocaba onde um jovem empresário chegava de seu escritório a sua casa, mas era surpreendido por um garoto de dezesseis anos que portava um fuzil e uma boca suja. O carro não possuía blindagem (a moda “primavera vidro temperado” ainda não chegara na capital) e o dono não teve opção a não ser obedecer a um menino que podia ser seu filho de acordo com as tristes estatísticas de gravidez na juventude.

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