Identidade - Parte 02 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 02

       Esse empresário foi levado para um lugar diferente dos ambientes que frequentava. Havia mofo e um cheiro de azedo que vinha das paredes e do colchão. Ele podia ouvir um barulho metálico de gelar os ossos que vinha da entrada do armazém abandonado. Era um cativeiro cinco estrelas com dois metros quadrados, um colchão cortado ao meio que fedia a urina, uma cadeira de bar da Skol, uma lâmpada queimada e uma ambiência ecoante que permitia ao pobre investidor ouvir as conspirações de seus algozes na sala ao lado. Ele não entendia metade das gírias, mas conseguiu absorver uma informação relevante no quarto dia de cárcere: “decepar uma orelha”. A tal da orelha, um dia depois, foi enviada pelo correio – um erro básico que faria com que os criminosos sofisticassem seus esquemas no futuro. Uma investigação que demorou 12 horas para descobriu um endereço que pertencia a um dos envolvidos e 24 horas depois estavam todos presos. O empresário mandou blindar o carro na semana seguinte, mas a primeira coisa que fez quando chegou a casa foi marcar a cirurgia plástica para reconstrução da orelha.

       O procedimento consistia em retirar uma pequena parte da costela e moldar a cartilagem no formato adequado, um trabalho muito similar ao do artesão. Eu ainda não sabia, mas ficaria especialista em moldar orelhas nos próximos anos. A cartilha do crime organizado para levantar fundos de financiamento do tráfico de drogas se tornou: sequestro qualificado, cárcere privado, decepamento de membros, ameaças pontuais para quebrar a confiança da família nos mecanismos tradicionais de proteção do estado e desfrutar de todo o dinheiro que um dedo amputado de burguês pode oferecer. A triste realidade do capitalismo tardio: construímos nossa fortuna graças ao PCC, uma das mais poderosas forças do livre mercado brasileiro, os controladores da maior corporação não reconhecida pela nação. Assim foi com alguns outros na capital paulista até que um governador de origem libanesa decidiu, num aperto de mãos histórico que jamais foi fotografado, selar um acordo para o fim da onda de sequestros. A história ainda se encarregará de contar qual foi a contrapartida da negociação, mas o que sei é que as clínicas ficaram lotadas durante anos. Fechamos negócios suficientes para abrir filiais em outros três estados e a expertise garantida pelas cirurgias realizadas lançou meu nome e o de meu marido nas melhores posições das colunas sociais; quando ainda me importava que as pessoas pudessem ver o brilho do verniz social.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 02

       Esse empresário foi levado para um lugar diferente dos ambientes que frequentava. Havia mofo e um cheiro de azedo que vinha das paredes e do colchão. Ele podia ouvir um barulho metálico de gelar os ossos que vinha da entrada do armazém abandonado. Era um cativeiro cinco estrelas com dois metros quadrados, um colchão cortado ao meio que fedia a urina, uma cadeira de bar da Skol, uma lâmpada queimada e uma ambiência ecoante que permitia ao pobre investidor ouvir as conspirações de seus algozes na sala ao lado. Ele não entendia metade das gírias, mas conseguiu absorver uma informação relevante no quarto dia de cárcere: “decepar uma orelha”. A tal da orelha, um dia depois, foi enviada pelo correio – um erro básico que faria com que os criminosos sofisticassem seus esquemas no futuro. Uma investigação que demorou 12 horas para descobriu um endereço que pertencia a um dos envolvidos e 24 horas depois estavam todos presos. O empresário mandou blindar o carro na semana seguinte, mas a primeira coisa que fez quando chegou a casa foi marcar a cirurgia plástica para reconstrução da orelha.

       O procedimento consistia em retirar uma pequena parte da costela e moldar a cartilagem no formato adequado, um trabalho muito similar ao do artesão. Eu ainda não sabia, mas ficaria especialista em moldar orelhas nos próximos anos. A cartilha do crime organizado para levantar fundos de financiamento do tráfico de drogas se tornou: sequestro qualificado, cárcere privado, decepamento de membros, ameaças pontuais para quebrar a confiança da família nos mecanismos tradicionais de proteção do estado e desfrutar de todo o dinheiro que um dedo amputado de burguês pode oferecer. A triste realidade do capitalismo tardio: construímos nossa fortuna graças ao PCC, uma das mais poderosas forças do livre mercado brasileiro, os controladores da maior corporação não reconhecida pela nação. Assim foi com alguns outros na capital paulista até que um governador de origem libanesa decidiu, num aperto de mãos histórico que jamais foi fotografado, selar um acordo para o fim da onda de sequestros. A história ainda se encarregará de contar qual foi a contrapartida da negociação, mas o que sei é que as clínicas ficaram lotadas durante anos. Fechamos negócios suficientes para abrir filiais em outros três estados e a expertise garantida pelas cirurgias realizadas lançou meu nome e o de meu marido nas melhores posições das colunas sociais; quando ainda me importava que as pessoas pudessem ver o brilho do verniz social.

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