Identidade - Parte 02 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 02

       No outono de 2004 Henry estava inchado, maltratado pelas chagas no rosto, a pele contorcida e áspera, irreconhecível para os velhos amigos, cabisbaixo e abatido pela aparência repulsiva. O esboço de um mero sorriso se tornara impossível naquela pele disforme cheia de dobras e bolhas. Eu me lembrava de outro Henry, um Henry cujo sorriso conquistava o mais retraído dos homens, cuja simpatia era capaz de desarmar exércitos inteiros de casmurros e cuja habilidade nas palavras podia perfurar qualquer escudo de indiferença. Era um Henry que jamais poderia realizar seus sonhos. Um Henry que teria de se contentar com o novo corpo – antes forte e robusto –, agora flácido e frágil. Uma identidade perdida para sempre nas brumas do tempo.

       “Eles disseram que o incêndio foi provocado por um homem no sexto andar. Ernesto Fonseca, eles disseram. Ele morreu torrado na poltrona da sala. Parece que adormeceu com um cigarro aceso na mão. Como estava bêbado não acordou a tempo e morreu dormindo, em chamas.”, disse Anna naquela tarde nublada na entrada do hospital das Clínicas.

       Perguntei o que os médicos haviam dito sobre o estado dele.

       “Eles ainda não sabem… Estão fazendo exames preliminares, mas parece que… o fogo penetrou na carne, nos músculos. Queimaduras de terceiro grau, acho. Eles não sabem se ele vai resistir, não…”

       As lágrimas que escapavam pelas bochechas enrubescidas de Anna me fizeram chorar também. Estávamos abraçadas no corredor do hospital. Uma centena de outras tragédias acontecia no mesmo corredor, com dezenas de famílias. Assim como no dia anterior e assim como no próximo.

       “Ele vai sair dessa, Anna. Lembre-se do acidente em Santa Catarina. O Henry é forte assim como você também!”, tentando consolá-la mesmo sem acreditar nas palavras.

       “Eles disseram que ele não vai mais poder competir. Ele estava treinando para o nacional novamente. Agora que… que o fogo destruiu os músculos…”

       Ela desabou neste momento, as mãos trêmulas escondendo o rosto molhado por trás de um chumaço de cabelos da franja desfeita. Era o assunto que todos evitávamos, os sonhos de Henry destruídos por um beberrão descuidado, por uma fatalidade da vida.

 

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Jorge Machado
Identidade – Parte 02

       No outono de 2004 Henry estava inchado, maltratado pelas chagas no rosto, a pele contorcida e áspera, irreconhecível para os velhos amigos, cabisbaixo e abatido pela aparência repulsiva. O esboço de um mero sorriso se tornara impossível naquela pele disforme cheia de dobras e bolhas. Eu me lembrava de outro Henry, um Henry cujo sorriso conquistava o mais retraído dos homens, cuja simpatia era capaz de desarmar exércitos inteiros de casmurros e cuja habilidade nas palavras podia perfurar qualquer escudo de indiferença. Era um Henry que jamais poderia realizar seus sonhos. Um Henry que teria de se contentar com o novo corpo – antes forte e robusto –, agora flácido e frágil. Uma identidade perdida para sempre nas brumas do tempo.

       “Eles disseram que o incêndio foi provocado por um homem no sexto andar. Ernesto Fonseca, eles disseram. Ele morreu torrado na poltrona da sala. Parece que adormeceu com um cigarro aceso na mão. Como estava bêbado não acordou a tempo e morreu dormindo, em chamas.”, disse Anna naquela tarde nublada na entrada do hospital das Clínicas.

       Perguntei o que os médicos haviam dito sobre o estado dele.

       “Eles ainda não sabem… Estão fazendo exames preliminares, mas parece que… o fogo penetrou na carne, nos músculos. Queimaduras de terceiro grau, acho. Eles não sabem se ele vai resistir, não…”

       As lágrimas que escapavam pelas bochechas enrubescidas de Anna me fizeram chorar também. Estávamos abraçadas no corredor do hospital. Uma centena de outras tragédias acontecia no mesmo corredor, com dezenas de famílias. Assim como no dia anterior e assim como no próximo.

       “Ele vai sair dessa, Anna. Lembre-se do acidente em Santa Catarina. O Henry é forte assim como você também!”, tentando consolá-la mesmo sem acreditar nas palavras.

       “Eles disseram que ele não vai mais poder competir. Ele estava treinando para o nacional novamente. Agora que… que o fogo destruiu os músculos…”

       Ela desabou neste momento, as mãos trêmulas escondendo o rosto molhado por trás de um chumaço de cabelos da franja desfeita. Era o assunto que todos evitávamos, os sonhos de Henry destruídos por um beberrão descuidado, por uma fatalidade da vida.

 

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