Identidade - Parte 04 - Jorge Machado
Jorge Machado
Escritor desde os doze anos de idade (quando conheci a literatura e adotei o pseudônimo temporário de "Jorge Mamado"). Fui apresentado ao horror tarde, nas estantes da biblioteca pública do ensino médio. Desde então sigo na busca do funesto e do reprovável como forma de resistência à apatia e ao conformismo dessa geração.
Brinquei de punk durante a adolescência tardia e troquei a água pela cerveja. Depois pela pinga. Depois voltei aos livros. Viciado em gás lacrimogêneo e spray de pimenta, sonho em explodir o Ancapistão usando um artefato com a grafia "Propriedade é roubo" na fuselagem.





Identidade – Parte 04

Leia a terceira parte aqui: http://maldohorror.com.br/jorge-machado/identidade-parte-03/

CAPÍTULO III

       No início do outono de 2004, pouco antes do edifício Trelkovski arder em chamas na noite paulista, um pensamento recorrente martelava minhas têmporas entre as cirurgias e as consultas médicas que realizava na clínica. Paulo insistia em me recusar, me ignorava como se fosse uma de suas pacientes de nariz empinado que sonhavam com uma lipo, um peito artificial e um desses ricaços para ficar paparicando. Nunca idealizei demais o casamento e as relações conjugais, sempre tive um pensamento pragmático a esse respeito. Houve um momento – e me sinto realmente frustrada em dizer isso – em que pensei ter amado Paulo, mas esse instante de romantismo adolescente havia ficado no passado, muito além da realidade da vida a dois. Mas, ainda assim, nutria, com certa vergonha, uma necessidade de me afirmar diante de meu marido, como se fossemos coisas e nos pertencêssemos mutuamente. Em algum ponto acho que nos fundimos em uma única identidade. Em jantares com amigos, festas e confraternizações nossas personalidades se complementavam, como se fossemos uma única pessoa, como se tivéssemos ali, naqueles ambientes sociais específicos, papéis a desempenhar para a sociedade, para as colunas sociais que adoravam nos fotografar para revistas e blogs de fofoca.

       Acumulamos, devido ao trabalho na clínica, uma dúzia de amigos importantes, poderosos, famosos, pessoas que se converteram, ao longo dos anos de farsa conjugal, em ferramentas úteis para conseguir melhores clientes. De atores e atrizes que precisavam de uma aparência mais desejada pelo mercado das telenovelas, até empresários que precisavam manter seu narcisismo em dia para as negociações nos bastidores do poder da capital paulista. Não era á toa que a arquitetura dos prédios da capital seguia a linha dos edifícios espelhados com estrutura de aço: os espelhos eram a única razão de existir de boa parte dos diretores que atuavam ali; precisavam ver-se com frequência, admirar seu amor próprio e ignorar todo o fedor das ruas.
Quando estava junto de meu esposo, em determinados ambientes, praticava o mesmo narcisismo: um culto à identidade falsa de casal que criamos ao longo dos anos.

       Foi naquele outono, num rompante de confusão mental, que decidi colocar 130 miligramas de silicone nos seios. Era a última tentativa de fazer com que Paulo se interessasse por mim. Teria feito eu mesma a operação, mas, seguindo protocolos de segurança, permiti que uma de minhas amigas de longa data, uma cirurgiã que trabalhava para mim, antiga colega de república na faculdade, realizasse o procedimento. Quando me olhei no espelho novamente, ainda naquela tarde, convalescendo, em estado letárgico devido aos medicamentos, enxerguei uma nova Sofia. Perguntei-me quantas Sofias iria enterrar antes de descobrir quem eu era realmente.

       Traída pela intuição em meu rompante de confusão mental, fui rejeitada novamente por Paulo.

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Jorge Machado
Identidade – Parte 04

Leia a terceira parte aqui: http://maldohorror.com.br/jorge-machado/identidade-parte-03/

CAPÍTULO III

       No início do outono de 2004, pouco antes do edifício Trelkovski arder em chamas na noite paulista, um pensamento recorrente martelava minhas têmporas entre as cirurgias e as consultas médicas que realizava na clínica. Paulo insistia em me recusar, me ignorava como se fosse uma de suas pacientes de nariz empinado que sonhavam com uma lipo, um peito artificial e um desses ricaços para ficar paparicando. Nunca idealizei demais o casamento e as relações conjugais, sempre tive um pensamento pragmático a esse respeito. Houve um momento – e me sinto realmente frustrada em dizer isso – em que pensei ter amado Paulo, mas esse instante de romantismo adolescente havia ficado no passado, muito além da realidade da vida a dois. Mas, ainda assim, nutria, com certa vergonha, uma necessidade de me afirmar diante de meu marido, como se fossemos coisas e nos pertencêssemos mutuamente. Em algum ponto acho que nos fundimos em uma única identidade. Em jantares com amigos, festas e confraternizações nossas personalidades se complementavam, como se fossemos uma única pessoa, como se tivéssemos ali, naqueles ambientes sociais específicos, papéis a desempenhar para a sociedade, para as colunas sociais que adoravam nos fotografar para revistas e blogs de fofoca.

       Acumulamos, devido ao trabalho na clínica, uma dúzia de amigos importantes, poderosos, famosos, pessoas que se converteram, ao longo dos anos de farsa conjugal, em ferramentas úteis para conseguir melhores clientes. De atores e atrizes que precisavam de uma aparência mais desejada pelo mercado das telenovelas, até empresários que precisavam manter seu narcisismo em dia para as negociações nos bastidores do poder da capital paulista. Não era á toa que a arquitetura dos prédios da capital seguia a linha dos edifícios espelhados com estrutura de aço: os espelhos eram a única razão de existir de boa parte dos diretores que atuavam ali; precisavam ver-se com frequência, admirar seu amor próprio e ignorar todo o fedor das ruas.
Quando estava junto de meu esposo, em determinados ambientes, praticava o mesmo narcisismo: um culto à identidade falsa de casal que criamos ao longo dos anos.

       Foi naquele outono, num rompante de confusão mental, que decidi colocar 130 miligramas de silicone nos seios. Era a última tentativa de fazer com que Paulo se interessasse por mim. Teria feito eu mesma a operação, mas, seguindo protocolos de segurança, permiti que uma de minhas amigas de longa data, uma cirurgiã que trabalhava para mim, antiga colega de república na faculdade, realizasse o procedimento. Quando me olhei no espelho novamente, ainda naquela tarde, convalescendo, em estado letárgico devido aos medicamentos, enxerguei uma nova Sofia. Perguntei-me quantas Sofias iria enterrar antes de descobrir quem eu era realmente.

       Traída pela intuição em meu rompante de confusão mental, fui rejeitada novamente por Paulo.

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